Processo do Edifício D. Leonor chegará ao CPU na quarta-feira
Processo do Edifício D. Leonor chegará ao CPU na quarta-feira

A Docomomo Macau apresenta no início desta semana um pedido de classificação do Edifício Rainha Dona Leonor, fazendo-o chegar ao Instituto Cultural, a Alexis Tam e ao Chefe do Executivo. O destino do imóvel será debatido na quarta-feira no Conselho do Planeamento Urbanístico e Rui Leão teme que se perca o edifício que é uma “lição de modernismo”. O arquitecto, Agnes Lam e Billy Au protagonizaram ontem um debate sobre o tópico

 

Inês Almeida

 

O Conselho do Planeamento Urbanístico (CPU) vai debater na quarta-feira a planta de condições urbanísticas (PCU) referente ao Edifício Rainha Dona Leonor, segundo a qual o edifício no cruzamento da Avenida do Infante D. Henrique com a Avenida D. João IV poderá vir a ter até 75 metros de altura, ou seja, mais do dobro das dimensões actuais.

Esta situação inquieta Rui Leão que, durante a tarde de ontem, participou numa mesa redonda sobre o tema, juntamente com a deputada Agnes Lam e ao arquitecto Billy Au. “A questão que nos preocupa é ir a discussão porque os vogais do CPU não têm necessariamente formação na área da história e teoria da arquitectura, portanto, podem não conseguir inteirar-se só com uma planta de condições urbanísticas do que se está a tratar e, de facto, não foi submetido nenhum material adicional”, alertou Rui Leão em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

Dadas as circunstâncias, a Docomomo Macau notificou a Docomomo internacional “e o edifício está, neste momento, numa lista de alerta de edifícios em risco”. “A PCU permite a construção do dobro de altura no lote e isso quer dizer que é tudo para ir para o lixo. Também notificámos o ICOMOS, a entidade que normalmente faz assessoria técnica à UNESCO em questões de avaliação de património nos processos de classificação”, indicou o arquitecto.

Isto significa, na prática, que os organismos internacionais podem contactar o Governo para evitar que o imóvel venha a ser demolido. “A Docomomo Macau, entretanto, vai avançar com um pedido de classificação do edifício como edifício de interesse arquitectónico, no início da semana, para o Governo”, anunciou Rui Leão.

“O nosso relatório para o IC faz uma argumentação sobre o valor universal incontestável do edifício nos cinco pontos: primeiro, importância do bem imóvel como testemunho notável de vivências ou factos históricos, segundo, o valor estético, artístico, técnico ou material intrínseco, a concepção arquitectónica do bem imóvel e a sua integração urbanística, o interesse como testemunho simbólico e a importância do ponto de vista da investigação cultural, histórica, social e científica. Este edifício é excepcional nessas cinco áreas”, defendeu.

Por outro lado, Rui Leão destacou o arquitecto responsável pelo edifício histórico, que embora seja de Macau, oriundo de uma família de “notáveis arquitectos”, nomeadamente o seu pai que criou a biblioteca chinesa no Jardim de São Francisco. “Começou a trabalhar no atelier do pai, até à década de 50, mas depois estabeleceu o seu em Hong Kong. O Edifício Dona Leonor é do ‘Lei’s Architects’, onde desenvolveu vários projectos de habitação e hotelaria”. Posteriormente, já a exercer funções ao serviço do Governo de Hong Kong, foi responsável pela construção do “Space Museum”, do Centro Cultural e do Museu de Arte, os edifícios que ocupam a marginal de Tsim Sha Tsui.

 

Modernismo além das fotografias

Para Rui Leão, um dos valores deste edifício “é o seu desenho, composição da fachada”. “As pessoas não têm muita consciência mas o modernismo foi uma revolução muito grande porque corresponde a uma quebra com o ‘status quo’ do neoclássico que era a arquitectura da aristocracia e da Igreja”, explicou o arquitecto.

“O Edifício Rainha Dona Leonor é um dos melhores exemplos que temos de composição modernista em que se aplicam regras de composições diferentes: a regra de Fibonacci, o rectângulo de ouro, as raízes quadradas para desenvolver harmonicamente a relação de horizontais com verticais. Isso tudo está lá naquela fachada, ela está muito mal tratada, mas estão lá os princípios do modernismo. Não há nenhum outro edifício em que possamos olhar para a fachada e ler esta lição de modernismo”, destacou Rui Leão.

Em jeito de conclusão, o arquitecto defendeu a importância de preservar “casos exemplares e excepcionais da boa arquitectura do período” porque é ela que demonstra que Macau passou por um processo cultural e de modernização. “Não é uma cultura dos outros. Se deixamos que eles [edifícios] sejam demolidos, estamos a excluir-nos de um processo histórico porque não há um comprovativo. Para isto os livros não servem”.

Na sessão organizada pela Associação Energia Cívica de Macau esteve também a sua presidente, Agnes Lam, que defendeu a necessidade de prestar mais atenção à arquitectura do modernismo para “preservar algo para a próxima geração”.