O dirigente do grupo de teatro em patuá, Miguel de Senna Fernandes, disse ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que espera um esclarecimento do Instituto Cultural sobre a intenção de pedir o guião da peça que vai subir ao palco do Centro Cultural, no âmbito do Festival de Artes. Em 30 anos, esta é a primeira vez que isso acontece. Senna Fernandes frisou que “é fundamental que haja uma liberdade de criatividade” e disse acreditar que não haverá censura, até porque há uma “relação de confiança” de parte a parte. Caso aconteça, porém, “naturalmente vai haver protesto”, garantiu

 

Catarina Pereira

 

O Instituto Cultural (IC) pediu ao grupo de teatro em patuá, Dóci Papiaçám di Macau, para que entregasse o guião da peça que vai subir a palco no âmbito do Festival de Artes de Macau, segundo noticiou o Canal Macau. Miguel de Senna Fernandes confirmou o pedido, em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, indicando que ainda não entregou o guião, que já anda a ser solicitado há dois meses, e que está à espera de um esclarecimento do organismo com o qual, sublinha, há uma “relação de confiança” há décadas.

“Toda esta problemática é nova” para o grupo, uma vez que em 30 anos é a primeira vez que sucede. “Nunca nos solicitaram fosse o que fosse. Houve sempre uma certa confiança no trabalho dos Dóci Papiaçám ao longo de 30 anos, isto tendo a consciência de que somos um grupo cuja maneira de fazer teatro e intervir é retratar aspectos sociais. Os Dóci são um grupo satírico. Só isto seria absolutamente incompatível com a submissão de guiões. Submeter para quê? Temos de perceber”, vincou.

O dramaturgo afirmou que “se for apenas um pró-forma, é normal”: “Temos este guião e ponto final”. Mas “quando as coisas começam a ser objecto de alguma análise – e parece-me que é essa a finalidade, a não ser que eu esteja errado – aí já incomoda, a história é completamente diferente”, sublinhou, lembrando as notícias sobre espectáculos que têm vindo a ser alvo de “alguma espécie de intervenção” nos últimos tempos.

Senna Fernandes ressalvou que o grupo está apenas expectativa de perceber “para que querem o guião”, mas “não está agendada nenhuma reunião” para esclarecer esta questão. “É importante realçar que o grupo não tem nenhuma reacção de choque. Estamos na mera expectativa de saber o que se passa. Porque é que este ano é assim e nos anteriores não era? Incomoda quando o texto é submetido a análise. E não é só o teatro, como vai ser com os vídeos?”, questiona.

Outra das “dificuldades” apontadas pelo líder do grupo é que “a maior parte dos textos são terminados praticamente a uma semana do espectáculo”. E Miguel de Senna Fernandes não se quer comprometer: “É como se submetesse um guião e me comprometesse com aquele texto como se fosse o final. Não pode ser. Com o nosso tipo de espectáculo isto não pode acontecer”.

Defendendo que “é fundamental que haja uma liberdade de criatividade”, Senna Fernandes disse compreender que haja pessoas que possam não se sentir muito à vontade quando se encontram em situações que são alvo de sátira. “Mas também é importante que haja confiança de que a sátira é sobre a situação e não sobre a pessoa em si”.

Com mais de três décadas de existência, “está em crer que o IC quer preservar a criatividade e a espontaneidade” do grupo de teatro em patuá. “Estamos a falar de criatividade, quando falamos de textos estamos a intervir já na criatividade”, alertou.

Apesar de acreditar que esta questão “não é um bicho de sete cabeças”, Miguel de Senna Fernandes disse também a este jornal que “se houver censura, haverá protesto”. “Isso seria um caso extremo. Não acredito que vá haver censura, mas é uma possibilidade. Quando se leva o texto para análise, coloca-se sempre esta possibilidade. Se acontecer, naturalmente vai haver protesto”, frisou.

Dizendo esperar que as coisas não aconteçam de modo a que o grupo tenha de tomar “decisões extremas”, lembrou que os Dóci “nunca comprometeram ninguém”, nem puseram em causa “o nome ou a honra das instituições”. Nesse sentido, acrescentou: “Estou à espera de que haja um entendimento e de que se preserve a confiança nos Dóci de que quando quer satirizar sabe fazê-lo”.

 

Presidente do IC considera natural pedir ajustes

A presidente do IC, Leong Wai Man, admitiu, em declarações aos jornalistas, que os conteúdos dos espectáculos do Festival de Artes estão a ser analisados e ajustados, algo que disse considerar natural. “Quanto ao programa do Festival de Artes, em cada edição, temos de avaliar a programação no seu todo para depois tomarmos a decisão de fazer ajustes em linha com essa programação, tais como a repetição de temas ou questões orçamentais. Os ajustes podem incluir elementos diferentes”, afirmou, citada pelo Canal Macau.

“Quanto ao conteúdo dos espectáculos, dado que algumas equipas foram convidadas por nós, creio que o teor dos espectáculos pode ser negociado. Com base no respeito mútuo, vamos disponibilizar aos residentes espectáculos que eles vão gostar de ver”, acrescentou.

A peça de teatro deste ano, intitulada “Unga Istrêla ta vem”, em português “Chega uma Estrela”, conta a história de uma professora de teatro “muito tímida” que tem “nas mãos” um grupo de alunas, entre as quais uma que é gaga. “Esta professora assegura que vai conseguir que a menina gaga possa cantar e ganhar um concurso”, conta Miguel de Senna Fernandes, acrescentando que, a certa altura, “toda a gente quer apostar neste caso”, “inclusivamente um grupo de junkets que estão no desemprego”.

“É uma situação absolutamente ridícula, mas é no ridículo que vivem as histórias dos Dóci Papiaçám”, continuou. Segundo disse, no espectáculo que estará em cena nos dias 11 e 12 de Maio, no Grande Auditório do Centro Cultural, vão participar cinco crianças, com idade máxima de 11 anos, que estão a ensaiar em patuá. Um “desafio”, mas que está a correr bem. “Oxalá ganhemos mais jovens para o nosso grupo”, afirmou.

Para esta edição do Festival, o IC pediu também ajustes, por exemplo, ao espectáculo “Os Três Irmãos”, com coreografia de Victor Hugo Pontes e texto de Gonçalo M. Tavares. Segundo o Hoje Macau, a peça teve de ser adaptada para evitar o nu integral em palco dos três bailarinos. Algo que o coreógrafo disse compreender. Recorde-se ainda de que no Festival Fringe, divergências sobre o “conteúdo” da peça “Feito pela Beleza” levaram que o espectáculo saísse de cena, depois da primeira sessão.