Recursos virados para o ensino da cultura, aquisição de técnicas pedagógicas e aprendizagem de escrita científica são algumas das áreas de interesse dos 24 professores de universidades do Interior da China que participam na nova edição do curso de “Verão em Português”. Segundo Carlos André, a formação tem elevada procura e o método de ensino assegura que os formandos sejam apoiados nas especialidades desejadas

 

Viviana Chan

 

Arrancou ontem a nova edição do curso “Verão em Português”. A iniciativa, a cargo do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa (CPCLP) do Instituto Politécnico de Macau (IPM), dá assim continuidade ao projecto que traz professores de Português do Continente para 10 dias de formação, até 22 de Julho. Todas as vagas foram preenchidas e, devido ao problema do alojamento, o coordenador do CPCLP, Carlos André, admite que só pôde aceitar 24 docentes, oriundos de 17 universidades do Interior da China e quase todos chineses.

“Temos um limite entre 20 a 22, mas desta vez, deixámos entrar 24, porque não temos capacidade de alojar mais do que uma turma”, disse Carlos André, recordando que está a decorrer ao mesmo tempo uma acção de formação de intérpretes de conferência.

Em declarações à TRIBUNA DE MACAU, o mesmo responsável referiu que o curso reúne professores “em busca de formação contínua para melhorar os seus conhecimentos”.

“Todos os anos há um grande interesse neste curso que nós damos aos professores do IPM. Esperamos sempre que venham professores pouco experientes, mas curiosamente vêm de várias gerações, ou seja, temos pouco e mais experientes, referiu”. Indicando que “o facto de haver professores mais experientes ajuda à evolução do curso”, explicou ainda que esse facto permite que entre eles as conversas sejam no sentido de evoluir as técnicas pedagógicas.

Carlos André admite que há cada vez mais pessoas a participar, depois de um início hesitante, em 2014. “Nós nem sequer tínhamos um corpo docente suficiente para dar o curso. Estávamos três pessoas no centro, fui buscar uma formadora a Portugal para ajudar, mas entretanto isso modificou-se. Agora, temos um corpo de docente grande. Já podemos fazer uma experiência que nunca tinha acontecido”, declarou.

Assim, com os professores separados em grupo, no centro funcionam duas aulas e o curso oferece cinco módulos diferentes, inscrevendo-se os docentes em três. As cinco áreas têm um limite máximo de 12 pessoas.

O responsável assegurou que as aulas são dadas em turmas pequenas. “Não há nenhuma aula conjunta, eles têm todas as aulas separadas, porque tiveram de escolher uma especialidade de formação. É uma experiência nova que resulta do protocolo que fizemos com o Instituto Camões há pouco tempo”.

Carlos André observou que os docentes chineses podem sentir dificuldades em diferentes áreas. “Há quem tenha dificuldade em elaborar os trabalhos académicos e é uma das áreas que precisam, porque estamos a lidar com uma nova geração de professores, que quer fazer carreira académica e por isso têm de escrever e publicar”, notou, acrescentando que alguns escolheram aulas voltadas para a escrita científica.

Outros docentes têm problemas na preparação de materiais, na avaliação do Português, enquanto outros podem sentir dificuldades na cultura e na literatura.

 

“Esta formação pode ajudar muito”

Olívia Zhang, professora de Português da Universidade Normal de Pequim, em Zhuhai, explicou que o curso da sua instituição de origem ensina Inglês e Português ao mesmo tempo. “Faltam recursos de ensino, por exemplo. O nosso ensino está focado só na língua, faltam recursos para dar aulas de cultura que o IPM dá”, frisou.

A jovem docente, mestre da Universidade de Macau, indicou que esta formação oferece a disciplina de aquisição de segunda língua e da cultura portuguesa, linguística, aprofundamento dos conhecimentos de gramática e também preparação de materiais do ensino. Por isso, “não existe formação idêntica na China” e os docentes do Continente “também não têm oportunidades de ter contacto com este tipo de formação”.

“Somos pessoas que apenas estudaram esta língua e transmitimos o que aprendemos aos alunos, portanto, esta formação pode ajudar muito”, destacou Olívia Zhang.

Com três anos de experiência no ensino, Olívia Zhang considera que o ensino no Interior da China está focado na tradução, interpretação. “São conteúdos com uma vertente mais prática, mas temos poucos sobre literatura, estudos de história”, concluiu.

Eva Han, professora do Instituto de Xinhua da Universidade de Sun Yat-Sen, explicou que a sua instituição tinha Português como segunda língua estrangeira dos estudantes de Inglês. “Isto tem um  efeito positivo e negativo. Estou aqui com o objectivo de aprender mais técnicas pedagógicas para lidar com as dificuldades dos alunos”, disse.

Para além disso, Eva Han garantiu que veio em busca de mais matérias do ensino. “Normalmente, usamos mais manuais elaborados pelos chineses, mas isso pode ter alguns problemas, pode não ser tão original. Mas, quando usamos manuais escritos pelos portugueses, podem ter por exemplo, expressões do dia a dia. Isso é um grande desafio para os professores”, indicou.

Eva Han revelou que já teve uma formação do IPM em Cantão, onde foi dado material de cultura. “Como os meus alunos aprendem Português como a segunda língua, é sempre mais útil terem conhecimentos culturais e não tanto de gramática”, salientou.