Curiosa com o contexto de Macau, Edlia Simões, professora na Universidade de São José, quis perceber como é que as crianças chinesas aprendem o Português. Para isso, criou um instrumento de avaliação que revela as áreas em que apresentam mais dificuldades. Será agora realizado um novo estudo para obter resultados generalizáveis, que deverá abranger cerca de 350 crianças

 

Salomé Fernandes

 

Criou um instrumento de avaliação da aprendizagem do Português como segunda língua, que abordasse as diferentes áreas da linguagem. Para Edlia Simões, professora assistente do departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de São José, estava em causa perceber as dificuldades na aprendizagem por parte de crianças chinesas, e a partir daí compreender de que forma o ensino pode ser melhorado.

A primeira fase já está completa, com os resultados do estudo a mostrarem que o teste tem boa consistência interna. Durante o seu percurso académico dedicou-se à área da psicologia da leitura e escrita, pelo que à chegada o território quis “acrescentar algo à comunidade de Macau”.

Não só se interessou pelo facto de a Língua Portuguesa ser segunda língua oficial, tendo o seu ensino como língua estrangeira crescido nos anos após a transição, como pela preocupação do Governo em tornar Macau uma plataforma de ligação entre a China e os países lusófonos. “Atendendo a esta conjuntura, quis perceber como as crianças chinesas estavam a aprender o Português”, disse Edlia Simões à TRIBUNA DE MACAU.

Para isso, considerou central abranger todas as áreas da linguagem, criando para esse efeito sete sub-testes: compreensão oral, consciência fonética, consciência silábica, vocabulário, ortografia, leitura e compreensão escrita. “Tudo isto são realmente competências que são necessárias adquirir, que podem ser separadas ou funcionar globalmente na aquisição de uma língua, falada e escrita”.

O instrumento foi construído com base nos manuais utilizados nas escolas de ensino do Português como segunda língua, já que “o modo como se ensina também tem interesse”. Em causa está a diferença dos manuais. “Os de segunda língua são ensinados por tema e com vocabulário. Uma palavra que para nós pode até ser muito difícil no primeiro ano para eles aparece no livro, o grau de dificuldade não tem tanto a ver com a construção da palavra mas sim com o vocabulário que aparece”, disse a docente.

O teste, de dificuldade crescente para se adequar a alunos do primeiro ao sexto ano, foi revisto por professores que ensinam o Português como língua estrangeira na RAEM. Os resultados preliminares mostraram que os estudantes têm “bastante facilidade na consciência silábica, dificuldades na consciência fonémica e na ortografia”, tendo os restantes sub-testes apresentado valores medianos.

Porém, os resultados deste estudo piloto, financiado pela Fundação Macau, não são ainda generalizáveis. Apenas 43 crianças chinesas de duas escolas de Macau, das quais 22 rapazes e 21 raparigas, realizaram o teste. “No fundo, o objectivo principal deste estudo era construir um instrumento e a nível de características psicométricas perceber se media o pretendido. Que era realmente a proficiência nestas sub-áreas da língua”, resumiu.

 

Aumentar a escala

“Com uma amostra maior, um instrumento mais forte, aí sim, já vou poder validar o instrumento numa população mais representativa e depois conseguir tirar conclusões sobre as diferentes áreas de aquisição do Português”, explicou Edlia Simões.

Será essa a próxima fase, num segundo estudo para o qual a docente já obteve aprovação da Fundação Macau em termos de financiamento do projecto e pretende aplicar o instrumento – ao qual serão feitos ajustes – a 350 crianças.

A sua concretização, alertou, “depende sempre das escolas disponíveis para participar e dos pais autorizarem o estudo ou não”. “Penso que os pais estão pouco habituados a que haja investigação realizada nas escolas em Macau, pelo que por vezes acaba por haver pouco abertura”, reconheceu.

Uma vez concluído o segundo estudo, o objectivo é utilizar os resultados para melhorar a aprendizagem dos alunos, que não depende apenas do ensino da língua. “As dificuldades podem ser inerentes à própria língua, derivadas de uma insuficiência do número de horas, podem ser questões motivacionais”, enumerou. Apesar disso, Edlia Simões considera que começa a haver maior consciência de que o Português “é importante no mundo internacional e para o futuro dos filhos”.