António Sampaio da Nóvoa foi reconhecido com o título de professor coordenador honorário do Instituto Politécnico de Macau, onde mostrou vontade de manter laços com a instituição e a crença de que a aposta num relatório da educação e na ciência aberta são projectos chave para que a UNESCO recupere força junto da agenda das políticas públicas. O embaixador de Portugal na organização internacional realçou a importância do papel de Macau na promoção da Língua Portuguesa

 

Salomé Fernandes

 

Uma ciência aberta, maior influência da UNESCO na agenda das políticas públicas da educação e um compromisso com as ligações estabelecidas com o Instituto Politécnico de Macau (IPM) e outras instituições do ensino superior da China. Foram estes os pilares da mensagem deixada por António Sampaio da Nóvoa, embaixador de Portugal junto da UNESCO, ao ser ontem reconhecido com o título de professor coordenador honorário do IPM.

“Um professor é mais do que um agente de ensino. É membro de uma comunidade à qual deve entregar-se sem reservar. O professor António Nóvoa foi sempre um professor dedicado à sua instituição”, disse o director da Escola Superior de Línguas e Tradução do IPM, Luciano de Almeida, salientando também que a homenagem presta também reconhecimento às missões académicas, produções científicas e consultadoria a agências científicas.

Apesar do reitor honorário da Universidade de Lisboa já se ter deslocado ao território noutras ocasiões, esta visita tem um simbolismo diferente. O gesto do IPM, garantiu Sampaio da Nóvoa, “mostra a importância das relações que se mantêm entre Macau e Portugal”, sobretudo “no domínio da língua portuguesa”.

À margem da conferência “diálogos contemporâneos sobre tradução/interpretação, formação de professores de português e educação em línguas”, o antigo candidato à presidência da República em Portugal afirmou que a língua é o maior valor do país. Em grande parte por causa do Brasil, mas também pela projecção da Língua Portuguesa em África e na Ásia.

“Quem pensa Portugal no mundo não pode deixar de pensar na língua portuguesa, e por isso todo o trabalho que se possa fazer, seja a partir de Macau, seja a partir da plataforma que se tem vindo a construir com outras universidades da China (…) é um trabalho absolutamente decisivo, central para o futuro de Portugal”, frisou, garantindo ainda que “a compreensão na Universidade de Lisboa desta ligação é imensa”.

O trabalho realizado por via do Instituto Confúcio e ligações directas entre o IPM e outras instituições universitárias chinesas são também importantes “para a fase seguinte da internacionalização que é a criação de graus conjuntos e a possibilidade de ter trabalho conjunto em diplomas”, asseverou. O novo título que agora é atribuído a Sampaio da Nóvoa representa um “reforço dos laços” existentes.

Ligações essas que o professor associa a um caminho de liberdade. “Só é superior a educação que nos conduzir à obrigação, ao dever, de lutar pelos direitos humanos, da humanidade inteira, a começar pelo direito à educação, na liberdade e pela liberdade”, disse no seu discurso.

Relativamente às restrições à liberdade de imprensa e académica em Macau apontadas pelo relatório anual sobre direitos humanos do Departamento de Estado norte-americano, Sampaio da Nóvoa preferiu tecer comentários apenas no geral, sem particularizar a situação em Macau. “É evidente que a liberdade é essencial. Não há capacidade de fazer ciência, capacidade de se trabalhar a educação ou servir a sociedade se não houver essa liberdade que a meu ver é absolutamente central”, comentou.

A sorte que reconheceu ter pelo país se ter tornado livre e aberto ao mundo quando ainda era jovem leva-o a manter a luta contra as desigualdades em primeiro plano e a promover uma “cultura de paz”. “Hoje em dia há mais de 200 milhões de estudantes do ensino superior do mundo. Dentro em pouco serão 300 milhões. Quase 5% da população mundial. É um grupo numerosíssimo, de todos o mais responsável pelo futuro da terra e da humanidade”, notou.

 

UNESCO em “crise”

Entre uma crise financeira e outra política – em resultado das marcas deixadas pelo anúncio da saída dos Estados Unidos e de Israel da UNESCO – a organização multilateral é “muito importante” mas “tem nos últimos anos estado numa situação de crise”, alertou Sampaio da Nóvoa.

Entre as dificuldades que a organização encontra em clarificar a sua missão, o embaixador de Portugal na UNESCO apresenta duas prioridades. Por um lado, produzir um terceiro grande relatório da educação que “voltasse a colocar a UNESCO na agenda das políticas públicas da educação, que neste momento é mais dominada pela OCDE, que é uma instituição de matriz económica”. O relatório Edgar Faure foi produzido em 1972, e o Delors em 1996, mas o representante considera que seria importante a vocação humanista da UNESCO voltar a marcar o debate da educação.

Por outro lado, Sampaio da Nóvoa frisou a necessidade de que a ciência, que é paga por todos, não fique fechada em centros privados. “A UNESCO poderia ter um papel muito importante na produção de algumas declarações ou convenções no sentido de aprofundar o conceito de ciência aberta e de que os cidadãos, os contribuintes não podem andar a pagar fortunas na ciência que depois só pagam interesses privados”, sugeriu.

 

Património cultural com direcção definida

Se a educação e a ciência devem passar por mudanças, a área da cultura da UNESCO “está relativamente centrada”, considera. Sampaio da Nóvoa acredita que a instituição encontrou uma direcção “mais ou menos clara” sobre as questões do património da humanidade, tanto material como imaterial. “Aí a UNESCO tem um nome, uma marca muito forte. Toda a gente quer ter a UNESCO como marca do seu património e do seu local”, disse.

O Plano de Gestão do Património de Macau devia originalmente ter sido entregue até Fevereiro de 2015, e este mês representantes da UNESCO responderam a preocupações de associações no território indicando que estão a “acompanhar de perto” o estado de conservação do património em Macau.

Questionado sobre os motivos de alerta que têm surgido na RAEM, Sampaio da Nóvoa absteve-se de comentar o caso específico de Macau mas considerou, no geral, que esses movimentos são uma realidade positiva. “Julgo que ao classificarmos como património da humanidade um bem é disso que estamos à procura: de um escrutínio público, de que o público se interesse por isso e não permita que certas realidades possam acontecer, e que esse bem possa vir a não ter o cuidado e a preservação que merece”, disse.

O embaixador de Portugal junto da UNESCO referiu também que este esforço de preservação e transformação requer um equilíbrio. Por um lado, os centros históricos não devem ser mantidos iguais a como se encontravam em séculos anteriores dado as cidades serem “organismos vivos”. Por outro lado, é um processo que requer cuidado. “Haver activistas, organizações nacionais e internacionais a fazerem esse escrutínio é essencial para que esses bens não sejam abandonados ou fruto de intervenções que descaracterizam seja do ponto de vista arquitectónico, cultural, do ambiente social”, sublinhou.