A Macau onde viveu o avô Pedro José Lobo e o pai é a mesma por quem Marco Lobo nute curiosidade e paixão. A história de um território rico de uma diversidade que vale e deve ser “abraçada” é novamente explicada em palavras num novo romance do escritor residente em Tóquio que se interessa e procura escrever sobre a diáspora portuguesa

 

Catarina Almeida

 

Marco Lobo vive há duas décadas no Japão, onde lecciona na Universidade de Tóquio. É licenciado em Economia, mas é na história de Macau que encontra a paixão. Uma especial curiosidade que deve aos seus antepassados: é neto de Pedro José Lobo – homem multifacetado, com jeito para os negócios e para a cultura. Encontrava na música uma paixão e chegou ao topo dos Serviços de Economia para liderar o organismo que integrava a secção de propaganda. Foi, nas décadas de 40 a 50, o homem-forte de Macau e um importante e destacado membro da elite macaense dessa época.

Marco Lobo é o sexto filho de um total de 10 que fazem da sua família “enorme” e, por conseguinte, “muito diferente”. O escritor residente em Tóquio é um dos convidados nesta edição da Rota das Letras e ontem partilhou, com alunos da Universidade de São José, a sua visão sobre o multiculturalismo aproveitando a ocasião para passar mensagens: “Como estudantes em Macau devem abraçar a diversidade de Macau”, disse.

Uma diversidade que Marco Lobo diz encontrar nas ruas, nos passeios que faz pelo território que visita e onde teve, em tempos, “uma casa de família para onde vínhamos durante as férias e passávamos uns dias”. Apesar de ter em Macau um apreço especial e por descrever o território nos seus livros – fê-lo no romance “Mesquita’s Reflection” que se trata de Vicente Nicolau Mesquita, o homem que tomou o Forte de Passaleão após o assassinato do Governador Ferreira do Amaral – foi em Hong Kong que cresceu e onde ainda vive sua mãe. No entanto, o avô e o pai cresceram aqui, mas na Macau sob administração portuguesa. “Identifico-me como sendo português [tanto que] o único passaporte que tenho é o de Portugal. Enquanto crescíamos diziam-nos sempre que éramos portugueses tanto que a pergunta mais difícil a que tive de responder foi ‘de onde és natural?”, contou Marco Lobo em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

Nos livros que escreve, o interesse pela diáspora portuguesa é manifesto. Uma curiosidade que provém de educação multicultural que teve início em Macau e Hong Kong e se estendeu pela Ásia, Europa e Américas. Experiência que também lhe permitiu observar de perto as diversas sociedades em que a cultura portuguesa se difundiu, prosperou e deixou marcas. “Escrevo sobre a diáspora portuguesa porque são pessoas como eu que nunca conheceram, verdadeiramente, Portugal. Sim, vivi em Portugal e ainda tenho família e conhecidos lá mas sempre que vou faço-o como sendo um estranho. Faz parte da minha identidade, e é algo que preciso de explorar”, admitiu o escritor.

Reconhecendo-se como um romancista – apesar dos seus livros terem um grande peso histórico (ficcionado ou não) -, Marco Lobo está a trabalhar em mais um projecto literário. Ainda não tem nome, pelo menos público, mas já tem a resposta para onde e quem. “Um terço do livro passa-se em Macau e relata o assassinato do governador que veio depois do Ferreira Amaral e que apenas durou 38 dias. A história é centrada nisso mesmo. Um dos personagens chineses envolvidos tem de fugir de Macau (1849-1850) e vai para Califórnia onde conhece a comunidade chinesa, e por aí fora”, desvendou o romancista que ambiciona escrever e publicar em Português.