Embora haja cada vez mais informação sobre os meios de transmissão do VIH, na sociedade ainda há muito preconceito e ideias erradas sobre a doença, defende a presidente do conselho da “Macau Aids Care Association”. A dirigente associativa frisa que muitos portadores do vírus optam por manter a doença em segredo por receio de ficarem sem trabalho e até de haver um afastamento da família e amigos

 

Inês Almeida

 

A “Macau Aids Care Association” existe há 10 anos e oferece serviços que abrangem, nomeadamente, consultas telefónicas e divulgação de informação sobre a transmissão do Vírus de Imunodeficiência Humana (VIH) em escolas e empresas com o objectivo de combater o estigma e discriminação que ainda envolve a doença.

“Já alguma vez encontrou alguém diagnosticado com HIV que tenha falado abertamente sobre o assunto? Não, pois não? Isso mostra que ainda há discriminação. As pessoas escolhem não falar porque têm medo do modo como os outros vão olhar para elas, então, escondem-se do público”, contou à TRIBUNA DE MACAU a presidente do conselho executivo da associação.

“Escolhem esconder estas informações da família, colegas e outras pessoas. Estão relutantes em revelar a situação para se proteger por acreditarem que a sociedade ainda não aceita um diagnóstico de HIV”, frisou Angel Cheang. “A discriminação é algo com que não conseguem lidar. Ela existe e não conseguimos ainda perceber qual é a melhor forma de lidar com ela”, defendeu.

Esse fenómeno advém de vários factores. “Em primeiro lugar, ainda não há cura para a doença, depois, também as pessoas ainda assumem que é muito fácil ser contagiado mas isso não é verdade, é preciso entrar em contacto com o sangue ou outras coisas do género, às quais não se tem acesso no dia-a-dia”, esclareceu Angel Cheang. “Ainda há uma forte crença de que é muito fácil ser contagiado ao ter-se um contacto próximo com pessoas infectadas, por isso, [portadores do vírus] têm muito medo de contar à família, amigos e colegas que têm HIV porque podem até perder o emprego ou simplesmente não ser contratados”.

No caso da família, muitas vezes quem está mais próximo da pessoa diagnosticada não sabe lidar com a doença. “Isso acontece especialmente com a população mais velha porque são pessoas de outra geração que podem não compreender a situação do HIV e não ter capacidade de processar isso”. Então, “há uma grande pressão sobre os pacientes, não apenas devido à doença em si mas também pela forma como as pessoas olham para eles, especialmente porque quando falam de HIV e da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA), podem facilmente associá-la a um tipo de comportamento considerado reprovável, tendem a rotular a pessoa como alguém menos puro, mais sujo”.

Este problema estende-se também ao mercado de trabalho. “Um dos nossos membros diagnosticados com HIV teve a coragem de partilhar isso com os colegas mas depois a informação circulou entre outros funcionários da empresa e posteriormente foi despedido porque toda a gente tinha muito medo de trabalhar com ele”, contou Angel Cheang, apelidando a situação de “injusta porque não se pode despedir uma pessoa por estar doente”. “Não é legal”.

Apesar disso, o cidadão optou por não apresentar queixa para que não haja ainda mais pessoas a saber da sua situação. “Se ele apresentasse uma queixa a uma entidade governamental, então, teria de informar mais pessoas da sua situação. Não teve coragem de dizer a mais ninguém até porque assume que não vai ser protegido”, sublinhou Angel Cheang, sobretudo porque depois de contar aos amigos “porque confiava neles, foi despedido e ficou inseguro e deprimido”.

 

Mudar mentalidades

No entanto, ressalva a dirigente associativa, a forma como a sociedade lida com a doença tem a ver com “medos internos” das próprias pessoas, por isso, é algo que não se muda de um dia para o outro. “O que podemos fazer é apostar na promoção, dizer às pessoas que não há por que ter medo, porque há pessoas que vivem com HIV e vivem bem. Vamos a várias escolas, entidades, empresas”, destacou.

Nos últimos anos, garante, a discriminação e o estigma têm vindo a diminuir. “Há três ou quatro anos estávamos a promover actividades como ‘abraços grátis’ e éramos quase sempre rejeitados, as pessoas não queriam participar”. “Mesmo que lhes dessemos folhetos, eles recusavam ou aceitavam mas quando olhavam para o conteúdo diziam-nos ‘não, obrigada’”. Actualmente, a situação é diferente. “Quando fazemos divulgação de informação, as pessoas aceitam o material. Assim, podemos ver que as coisas estão a mudar, sobretudo com as gerações mais jovens”.

O primeiro caso de HIV registado em Macau data de 1986 e, desde então, até Janeiro deste ano, contabilizaram-se mais de 700 diagnósticos deste género. “A principal causa no passado era a partilha de seringas, mas agora os principais casos são contraídos por transmissão sexual. Por isso, o que estamos a fazer é a promover a prática de sexo seguro. Temos de informar as pessoas de que têm de se proteger, sobretudo os mais jovens”.

Alguns dos serviços prestados pela associação incluem ainda testes rápidos gratuitos para prostitutas. “Se não tiverem a certeza de estarem ou não doentes depois de sexo desprotegido, podem vir falar connosco, marcar uma consulta, e podemos dar um ambiente privado nos nossos escritórios para fazerem o teste”, explicou Angel Cheang.

Ao mesmo tempo, existe uma linha aberta para consultas que pode ser utilizada por pessoas que não têm a certeza de “ser saudáveis ou não”. “Podem ligar-nos se não se sentirem bem e procurar ajuda. Já recebemos contactos de mais de 3.000 pessoas para estes serviços de aconselhamento”, contou a responsável.