Yolanda Leong e Mandy Leong
Yolanda Leong e Mandy Leong

Em Macau, há um ambiente de trabalho mais amigável à amamentação, e melhorias no apoio dado às mães na área da saúde. Mas, apesar dos progressos registados no território no âmbito da amamentação, que a Associação de Amamentação de Macau considera ter-se tornado uma prática mais comum, continua a ser pedida legislação sobre o tema

 

Salomé Fernandes

 

Desde o estabelecimento da Associação de Amamentação de Macau, houve progressos no território. Yolanda Leong, supervisora da associação, explicou que o Governo promoveu um ambiente de trabalho amigável à amamentação, pelo que tem sentido uma diminuição nas vozes com queixas nesse âmbito. “As pessoas começam a perceber que depois da gravidez e da licença de maternidade, a mãe regressa ao local de trabalho e pode precisar de amamentar. (…) As queixas sobre não serem aceites depois de regressarem ao trabalho têm sido menos”, declarou. Assim, “quando as mães vêm ter connosco fazem perguntas sobre todos os problemas técnicos”, explicou, dando como exemplo como conservar o leite ou coordenar o seu tempo.

As salas de amamentação denunciam como a amamentação se tornou mais comum em Macau. Mandy Leong, mãe e presidente da Assembleia Geral da Associação de Amamentação de Macau, recordou situações em que locais como restaurantes pediam para a amamentação ser feita noutro lado, para notar como actualmente “até os restaurantes chineses acolhem bem quem é uma mãe que amamenta, porque oferecem acesso à sala VIP, não pedem para ir embora”.

Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, considera que as acções governamentais contribuíram para a mudança, nomeadamente por ter criado salas de amamentação nos seus departamentos. Questionada sobre qual pensa ser o motivo de não existir legislação sobre o direito a amamentar, apontou que poderá haver dificuldades associadas à clarificação do que constitui discriminação da mulher nas situações abrangidas.

Mandy Leong

“Se o Governo estiver disposto a adoptar esta lei penso que será óptimo para a mãe e também para a nossa associação promover amamentação”, comentou. No entender de Mandy Leong, pode-se tomar Taiwan como referência, dando como exemplo que aí a lei expressa de forma clara a necessidade de haver sala de amamentação em eventos de grande dimensão, como um festival de gastronomia, mediante os metros quadrados. Ou o direito de a mãe amamentar em público em espaços alimentares mesmo que haja sala de amamentação.

Yolanda Leong, supervisora da associação, considera que o Governo ainda não deu o passo de definir uma lei nesse sentido por ter outras prioridades. “Temos muita coisa na sociedade de que o Governo tem de ter em consideração. Para nós é muito importante, mas numa perspectiva de sociedade, é triste mas tenho de admitir que não é a prioridade de topo”, referiu. Ainda assim, quer que se perceba que “para além de instalar salas de amamentação esta parte é importante”.

Para além disso, defendeu ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que “a legislação é uma forma de educação”. “Porque levantamos o tema junto da sociedade e dá uma oportunidade de a sociedade aprender sobre isso e compreender melhor”, argumentou. No seu entender, ao invés da visão de que por a cultura não aceitar não se deve criar a lei, pode-se olhar para a legislação como base de mudança.

Por outro lado, questionada sobre a proposta para aumentar os dias de licença de maternidade, Mandy Leong indicou que na China são dados 98 dias, mas frisou que “estamos a melhorar”, colocando o enfoque primeiro nos 70 dias sugeridos na proposta. Reconhecendo a existência de diferentes modelos de licença de maternidade e paternidade em sítios ocidentais, também Yolanda Leong comentou que “temos de olhar para a situação de Macau”.

 

Abertura à mudança

“Em Macau, algumas gerações, como os avós, podem ter mais dificuldade em aceitar que os filhos amamentem em público. Acho que ainda precisamos de educação para o público”, notou a presidente. Outra área cujo desenvolvimento a Associação está a acompanhar é o desenvolvimento de conhecimento e capacidades necessárias às mães que amamentam para o regresso a casa. “Algumas mães perguntam se há aconselhamento um a um”, disse. Se no hospital existem profissionais de saúde que indicam como tomar conta do bebé ou que situações podem vir a ser enfrentadas, Mandy Leong lamentou a “falta de apoio à mãe quando regressa a casa”.

A cada três meses, a Associação de Amamentação de Macau reúne-se com os Serviços de Saúde, o Kiang Wu e outras organizações não governamentais. O encontro que se segue é na próxima semana. De acordo com Yolanda Leong, há abertura às sugestões. Entre as ideias avançadas pela Associação, está a introdução de educação sobre mamas e o corpo a estudantes da primária, de forma a saberem não apenas a sua associação à sexualidade, mas também a conhecerem a sua função. Os serviços “estão a pensar como pôr em acção”, apontou.

Questionada sobre a possibilidade de se criar em Macau um banco de leite, Yolanda Leong indicou que é preciso ter em consideração “toda a sociedade” do território. Reconheceu o uso de bancos de leite em locais ocidentais, para bebés em que não está disponível leite da mãe. No entanto, apontou que tal iniciativa requer que o Governo considere diversos pontos, nomeadamente a procura, quantos casos existem de necessidade de acesso a leite materno, bem como custos de manutenção. “Claro que os custos de manter o leite, de gerir o banco de leite, não são baixos”.

Yolanda Leong

Por outro lado, relativamente ao leite em pó, recordou que cresceu com a revolução industrial, em que era necessária mão-de-obra feminina, procurando-se que as mulheres regressassem ao trabalho depois de darem à luz. Depois de décadas de publicidade ao leite em pó, explicou como é associado à capacidade financeira da pessoa. E observou o desequilíbrio na informação disponível ao público, pelo que por vezes a dúvida não é entre amamentar e dar leite em pó, mas por qual das marcas optar.

“Ninguém diz o que é bom sobre amamentação. (…) Mas o que se recebe da televisão, dos autocarros, das publicidades, é sobre leite em pó”, disse, defendendo que “a mãe deve estar bem informada antes de tomar uma decisão”. Mas a associação entende que a amamentação é agora vista como uma opção.

Outro factor em que registou melhorias envolve a receita de medicação adequada a quem amamenta. Recordou que, apesar de existirem medicamentos adequados, incertezas dos médicos levavam a que a opção pode vezes fosse não receitar nada, ou prescrever medicamentos mediante paragem da amamentação por parte da mulher.

Apesar de reconhecer que “ainda há espaço para melhorias”, sublinhou que actualmente existem “linhas orientadoras para ajudarem as mães” a amamentar. Mandy Leong observou que o Governo desenvolveu uma aplicação com informações, e que tem no website uma secção sobre amamentação. A “app” em causa permite, por exemplo, consultar que medicamentos são adequados a quem optou pela amamentação.