Estando a gastronomia enraizada na “herança e identidade cultural dos povos e comunidades”, cabe também a Macau enquanto membro da Rede de Cidades Criativas da UNESCO continuar “totalmente dedicado” em cumprir os objectivos traçados no plano a quatro anos para perpetuar a designação atribuída em 2017, observou Denise Bax. A especialista em programas de políticas culturais da UNESCO falava à margem do Fórum Internacional de Gastronomia que considera ser uma “poderosa demonstração do papel central da cultura para um desenvolvimento sustentável”
Catarina Almeida
Para Denise Bax, especialista-sénior em Programas de Políticas Culturais e Desenvolvimento do sector cultural da UNESCO, a gastronomia “está profundamente enraizada na herança e identidade cultural dos povos e comunidades”. Nesse contexto, é com agrado que olha para a dedicação de Macau no âmbito da Rede das Cidades Criativas da agência especializada das Nações Unidas da qual é membro desde 31 de Outubro de 2017. “Na UNESCO, estamos muito contentes na UNESCO em ver a forma como Macau está totalmente dedicado em cumprir este programa”, vincou, à margem do último dia do Fórum Internacional de Gastronomia.
Sendo um dos membros da Rede, Macau poderá partilhar com as restantes 179 cidades as suas experiências, ideias e melhores práticas no campo das indústrias criativas, desenvolvimento urbano e, nesta caso, gastronomia. Estes são, de resto, princípios pelos quais se terá de orientar por forma a manter a sua designação válida – um processo que será revisto em 2021 aquando da habitual revisão da UNESCO.
“Permitam-me agradecer à cidade de Macau – esta dinâmica com uma visão dianteira Cidade Criativa da UNESCO – por acolher este importante evento, que junta todas as cidades criativas de gastronomia de todo mundo”, frisou. “O fórum de hoje [ontem] providencia uma poderosa demonstração do papel central da cultura para um desenvolvimento sustentável”, observou, acrescentando que também “testemunha o valor da Rede das Cidades Criativas da UNESCO e, ao mesmo tempo, realça a crescente importância das cidades como percursoras da criatividade e inovação”.
Mas nem só de cultura se compõe a Rede de Cidades Criativas. Ao todo, estão abrangidas sete áreas – cinema, música, literatura, artes e média, design artesanato, arte popular e gastronomia.
“Um dos principais desafios é manter este ‘momento’ desenvolvendo parcerias e ver como juntos, não só como Cidades Criativas mas também como Rede, conseguimos atingir os 17 objectivos de desenvolvimento sustentável adoptados pelas Nações Unidas”, acrescentou.
Além disso, caberá a Macau – à semelhança de todas as cidades-membro – partir das suas próprias características e tentar perceber de que forma poderão ser potenciadas dentro do espírito cultivado na UNESCO. “Cada cidade deve adaptar-se às suas condições e perceber as actividades e acções que poderão ser implementadas em prol do seu desenvolvimento”, elucidou Denise Bax.
Neste prisma, e sendo Macau um território de pequena dimensão mas com um elevado volume de entrada de turistas, a representante da UNESCO considera que o turismo é um “desafio-chave” para qualquer cidade e país.
E, vinca, “quando bem organizado o turismo pode ser uma fonte de receita e, ao mesmo tempo, de orgulho para a população local”. Portanto, no que diz respeito ao território há uma “grande experiência no campo do turismo cultural, e também no campo do emprego e da geração de receita. Todas estas informações têm a ver com o desenvolvimento das cidades”, rematou.
Desenvolvimento sustentável
O Fórum Internacional de Gastronomia terminou ontem com sessões de discussão destinadas a explorar as “possibilidades da gastronomia e criatividade” tendo contado com uma participação recorde ao nível de representantes das cidades criativas de gastronomia à escala mundial, frisou o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura.
“É com agrado que vejo o crescimento da amplitude e participação do fórum nesta terceira edição […] e esperamos que os nossos convidados do exterior façam uso deste fórum em Macau como plataforma para forjar intercâmbio com os seus parceiros chineses”, destacou Alexis Tam, durante o discurso de abertura do Fórum. O governante comprometeu-se a criar mais oferta na cidade tirando partido da “riqueza do legado de Macau de encontro entre Ocidente e Oriente e o desenvolvimento contínuo das infraestruturas turísticas”.
Recordando o Ano da Gastronomia, assinalado em 2018, Alexis Tam apontou para a organização do “Arte Macau” – evento cultural agendado entre Maio e Outubro que contará com o contributo das operadoras de jogo na cedência de espaços artísticos. Por fim, destacou o forte “contributo” que a designação de Rede de Cidade Criativa proporcionou para “impulsionar no processo de construção de uma cidade amplamente criativa”.
Por sua vez, a directora dos Serviços de Turismo detalhou os planos delineados pelo Governo até 2021 no quadro desta designação, abrangendo vários objectivos, nomeadamente ao nível do mecanismo de gestão e supervisão; fortalecimento da promoção e sensibilização; educação, cooperação, apoio ao desenvolvimento da indústria de “catering” e parceria das indústrias criativas. “Através da rede de cidades criativas queremos aprender com os diferentes membros […] e envidámos muitos esforços para desenvolver o nosso papel, trabalhando em diversos sectores”, salientou Maria Helena de Senna Fernandes num dos painéis.
Maria Helena
A responsável pela DST admitiu que, depois de uma reunião de trabalho do último fim-de-semana, chegou-se à conclusão de que é necessário “rever o nosso projecto” para a Rede das Cidades Criativas da UNESCO. Aos presentes, Maria Helena abordou ainda o plano ainda em desenvolvimento para a construção de uma base de dados da gastronomia macaense. Um projecto, reconheceu, “complicado mas notável”.
Por outro lado, o secretário-geral da Comissão Nacional da China para a UNESCO, Qin Changwei, congratulou Macau por estar “activamente empenhado no seu desenvolvimento como Cidade de Gastronomia”.
O último dia do Fórum Internacional de Gastronomia terminou com uma sessão especial da “National Geographic” centrada nas práticas sustentáveis do sector da alimentação e bebidas relativas à redução do desperdício alimentar. Esta sessão é, de resto, o prelúdio de um projecto em desenvolvimento em parceria com a DST, destinado a localizar, apoiar e promover práticas sustentáveis no sector da alimentação e bebidas em Macau, para serem divulgados em breve em histórias em vídeo e artigos produzidos pelo grupo de comunicação social.
Governo focado em captar “melhores turistas”
Alexis Tam reiterou ontem que a posição do Governo não passa por desenvolver o turismo em termos quantitativos, mas antes atrair turistas mais “qualificados” que “apreciem o nosso património, gastronomia e cultura”. “A nossa política sempre foi a de atrair melhores turistas para Macau – como os europeus que vêm para apreciar a nossa cultura chinesa”, frisou. O responsável pela pasta dos Assuntos Sociais e Cultura recordou que o plano de controlo de turistas individuais do Continente chinês continua em vigor e rejeitou a ideia de criar um limite adicional à entrada de visitantes. “Só existem 49 cidades chinesas de onde podem vir a Macau com mais facilidade. (…) Macau não está aberto para todas as cidades chinesas”, salientou. Alexis Tam disse, por outro lado, estar aberto a discutir a sugestão de Agnes Lam de impor taxas turísticas à entrada do território. “É interessante mas cada um tem liberdade de expressão. Podem perguntar aos outros deputados se concordam ou não porque é apenas a opinião dela”, disse. Apesar da postura de abertura para discutir a matéria, o Secretário reconheceu que “em Macau há muitos lóbis”. “Estou aberto, mas é melhor ouvir a opinião dos cidadãos, da sociedade”.
Avião da Air Macau divulgará criatividade local
A companhia aérea de bandeira de Macau associou-se ao projecto do Governo de promover a criatividade do território, agora que faz parte da Rede das Cidades Criativas da UNESCO. Segundo revelou Maria Helena de Senna Fernandes, a DST e Air Macau trabalham num projecto comum que incluiu decorar um avião da frota de companhia aérea a rigor e preceito para assim “divulgar o bom nome de Macau noutras cidades e países”, frisou a directora dos Serviços de Turismo.



