Uma mostra gastronómica dos países e regiões de Língua Portuguesa une ‘chefs’ dos quatro cantos do mundo até quinta-feira. Logo no primeiro dia era visível um espírito de entreajuda e cumplicidade motivado por uma língua partilhada e culturas semelhantes, ainda que com características próprias. Os ‘chefs’ destacam uma experiência muito positiva de diálogo e entreajuda, além de aprendizagem de técnicas usadas na preparação dos pratos

 

Inês Almeida

 

Uma única cozinha de corredores esguios e um espaço algo limitado receberam “chefs” de 10 países e regiões lusófonos que vão apresentar especialidades da sua terra natal até quinta-feira, em quatro restaurantes na Doca dos Pescadores, numa mostra gastronómica inserida no programa na Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa. Na sexta-feira, cozinharam todos juntos e fizeram um balanço muito positivo da experiência.

Graciete Oliveira

Graciete Oliveira e a irmã, Bernardina, vieram da Guiné-Bissau e trouxeram produtos tradicionais para assegurar que os pratos têm o sabor desejado. “São pratos tradicionais. Do que gostamos mais e o que sai mais no nosso restaurante é o camarão à Marisqueira de Safim e os pastéis de mandioca que levam queijo e picante. As pessoas adoram porque não enche, é uma coisa leve e que quando se mete na boca desfaz-se. É como um ninho dos céus”, sublinhou Graciete Oliveira.

Alguns ingredientes não existem em Macau, por isso, trouxeram-nos da Guiné-Bissau. “A mandioca que utilizámos comprámos aqui”, ressalvou a “chef”.

É a primeira vez que as duas irmãs estão em Macau, depois de já terem passado por países como Moçambique, Brasil e Portugal. “Foi muito bom porque aqui não houve rivalidade. Houve harmonia e entreajuda, o que achei muito especial. Em algumas experiências anteriores que tivemos houve um bocadinho de ciúmes, mas aqui não. Senti-me como se estivesse na nossa cozinha”, destacou Graciete Oliveira.

A atmosfera agradável foi ainda destacada pelos “chefs” brasileiros. Lúcio Leal, “chef” executivo do restaurante “Rio” na Doca dos Pescadores falou de uma interacção “gratificante” com profissionais de outros pontos do planeta. “É com muita alegria que a Doca dos Pescadores recebe este tipo de evento em que se divulga a gastronomia dos países lusófonos. Uma coisa que nos une é a gastronomia, somos muito próximos por causa dela. Alguns temperos são parecidos. A influência portuguesa é muito grande”, destacou.

Lúcio Leal

“Inspirámo-nos nos pratos preparados, nos temperos, na maneira de cozinhar de Portugal. Hoje foi o dia dos canapés especiais e vai haver uma semana de comida lusófona. Essa fusão vai ser muito interessante e, se as pessoas puderem participar, será um prazer recebê-las aqui onde vão saborear os pratos do Brasil e da Guiné-Bissau”.

Em todo este processo de trabalho, a “grande facilidade” foi a comunicação. “Todos os ‘chefs’ falam Português, com sotaques diferentes, o que deixa isso muito mais bonito e interessante. A Língua Portuguesa é linda. As diferenças na maneira de expressar são peculiares devido à distância entre os países e à mistura de outras culturas, mas é com muita alegria que recebo todos”, frisou Lúcio Leal.

 

Pratos reinventados

Além de Lúcio Leal, Kátia Barbosa está responsável por dar a conhecer a gastronomia do Brasil. “Fiquei conhecida no Brasil porque transformei uma feijoada em bolinho. Então, de todas as vezes que vou a um evento pedem-me para transformar alguma coisa em bolinho, por isso, tornou-se uma brincadeira saudável e divertida”.

Em Macau, Kátia Barbosa manteve a tradição. “Resolvi trazer um sabor muito típico brasileiro, além da feijoada. Trouxe um bolinho de moqueca. Fazemos todo o processo de uma moqueca com o alho, a cebola, o tomate, pimentão, leite de coco e aí colocamos a farinha de mandioca e transforma-se numa massa, enrola-se, pana-se e faz-se um bolinho. Foi uma brincadeira que ficou famosa e eu adoro fazer”.

A “chef” destaca que este é “um dos melhores eventos” em que teve a oportunidade de participar. “Estou com pessoas que jamais imaginei, de tantos países que falam a Língua Portuguesa que me encheu de orgulho e emoção. Houve um espírito de cooperação, que foi o mais bonito aqui. Queremos fazer outros eventos, noutros lugares e vamos arranjar uma forma de os fazer”, assegurou Kátia Barbosa.

Kátia Barbosa

Em termos dos pratos cozinhados, a “chef” brasileira destaca que “os sabores são muito parecidos, mas os ingredientes e as técnicas são completamente diferentes”. “Podemos observar porque é que o carioca, no Brasil, gosta tanto de bolinhos. Hoje [sexta-feira] tivemos muitos pastelitos e bolinhos. Entendo porque é que gostamos tanto. É uma cultura que veio de Portugal que a levou para esses países todos e nós fomos dando o nosso jeito e adaptando esse modo de comer português. Hoje temos bolinhos de bacalhau, de moqueca em que as técnicas mudam, mas o sabor é muito parecido”.

Para Kátia Barbosa é, sobretudo, “gratificante saber de onde vimos”. “O Brasil foi colonizado por Portugal mas recebeu muitos negros que vinham de África. Portanto, estar com estas pessoas e saber de onde vim não tem preço”.

Porém, há diferenças culturais que geram alguns momentos caricatos. “Há um prato muito conhecido no Brasil cujo nome não posso dizer em Portugal”, afirmou a ‘chef’ em tom de brincadeira explicando que o nome é considerado ofensivo. Porém, ressalva, essas expressões são úteis para “quebrar a tensão”.

“Temos de servir os pratos na hora, quentinhos ou fresquinhos, e muita gente numa cozinha destas é uma insanidade. Hoje quebrámos esse gelo”, caso contrário, podiam surgir conflitos e “não é isso que queríamos”.

 

Memórias à mesa

De Cabo Verde chegou Olívio Fernandes, que está em Macau pela primeira vez. “Estou num país diferente mas a expectativa é bem grande e o intercâmbio com os outros chefs está a ser muito giro e interessante”. “É um grande privilégio apresentar os meus pratos de Cabo Verde. Trouxe mesmo um prato tradicional que as pessoas que são de Cabo Verde e vivem aqui podem ver como uma recordação do passado, do tempo dos avós”, explicou.

Na ementa de Olívio Fernandes há feijoada, cachupa e um guisado de farinha de milho, além de uma entrada feita com ovos escalfados e um arroz de marisco “à moda das ilhas”. “A sobremesa é doce de papaia, que é bem tradicional também, doce de leite e pudim de queijo, que não podia faltar”.

Para a confecção destas iguarias, também trouxe muitos ingredientes de Cabo Verde. “Inicialmente gostaria de fazer uma fusão com produtos de Macau mas pediram-me que usasse produtos nacionais, então, trouxe duas malas para fazer um prato tradicional. Trouxe peixe seco para fazer cozido e xerém de leite de coco, que é um prato muito tradicional”, destacou Olívio Fernandes. “Sem exagero, trouxe talvez 70 quilos de comida, ou mais, entre milho, feijão e peixe”, indicou, ressalvando que teve ajuda para transportar tudo.

Olívio Fernandes cozinha e ensina numa escola de hotelaria e turismo na Cidade da Praia, bem como faz consultadoria em hotéis e restaurantes. A experiência em Macau, frisa, “está a ser fantástica”. “Já estou a provar várias coisas interessantes” e a aprender técnicas novas, referiu ao reconhecer que aprendeu “várias formas de confeccionar as coisas” e “técnicas de empratamento.

Humberto Nhantumbo, de Moçambique, é o único que está pela segunda vez em Macau, após ter participado no evento em 2015. “Trago alguns pratos novos, sobremesas novas. Tenho uma sobremesa de batata doce com leite de coco e outro de um fruto um pouco raro, que leva natas”.

Na sexta-feira houve “um muito bom intercâmbio”. “Aprendemos um pouco do que cada um traz na bagagem”, sublinhou o “chef”.

O “Rio Grill & Seafood Market” acolhe até quinta-feira, das 12:00 às 15:00 e das 18:00 às 23:00, os cozinheiros vindos do Brasil e da Guiné-Bissau. No “Vic’s Restaurante” estão “chefs” de Angola, Portugal e Goa, Damão e Diu, enquanto o restaurante “Praha” destaca a gastronomia de São Tomé e Príncipe e de Timor-Leste. Já a “Brasserie” de Paris está temporariamente ocupada por “chefs” de Cabo Verde, Moçambique e Macau.