Vhils e Pauline Foessel são os curadores de uma exposição que une artistas de diferentes contextos culturais num espaço de diálogo. O público pode passar por um percurso de introspecção com a visita a seis mostras que se completam entre si
Salomé Fernandes
O projecto “Alter-Ego” chegou a Macau subdividido nos temas “o próprio”, “o outro”, “da linguagem à viagem”, “choque cultural”, “globalização”, “alter ego” e “arte pública”. Apesar da diversidade de trabalhos, os curadores interligaram-nos de forma a criar um diálogo entre os artistas. A exposição colectiva, que foi ontem inaugurada, integra a primeira edição do Festival de Artes e Culturas entre a China e os Países de Língua Portuguesa faz por sua vez parte do “Encontro em Macau”, com organização do Instituto Cultural.
Alexandre Farto (mais conhecido por Vhils) e Pauline Foessel são os curadores desta exposição que estará aberta ao público até 9 de Setembro, em diferentes locais de Macau. Trabalham juntos na galeria “Underdogs”, em Lisboa, um projecto que já é auto-sustentável e pretende democratizar o acesso à arte, tendo parte dos artistas passado por esse espaço antes de virem expor ao território. Ainda assim, o processo de escolha de artistas foi longo.
Alexis Tam visitou o conjunto de exposições “Alter Ego”
“Tentámos juntar um colectivo de artistas de uma nova geração, de todo este espaço, que aqui tentamos juntar sem fronteiras mas num espaço em que se fala Língua Portuguesa. Com toda a história que isso traz, alguma num tom positivo mas que aqui, neste território, estamos todos no mesmo nível e conseguimos discutir o que isso significa com tudo o que temos em comum e não aquilo que nos separa”, disse Vhils à TRIBUNA DE MACAU.
O interesse do projecto deveu-se não apenas à exposição das obras, mas também à possibilidade de os artistas se deslocarem a Macau presencialmente, dando-lhes a oportunidade de trocar impressões, indicou o curador, que tem também presença artística na mostra. A ideia consistiu em “fazer um encontro que não só criasse um diálogo entre estes artistas e a sua história local, mas que também mostrasse estes pontos em comum que cada um tem”.
Pauline Foessel, que embora seja nativa de França já trabalhou em Xangai e Hong Kong, considera “enriquecedor” organizar algo em Macau, que contém características do Ocidente e do Oriente. “É muito bom poder fazer a ponte entre as duas culturas, embora o projecto não seja apenas Portugal e vá além dos países de Língua Portuguesa. Mas foi interessante trazer alguns artistas chineses com quem trabalhei no passado em Hong Kong e na China, para que o seu trabalho seja conhecido por artistas de um contexto cultural completamente diferente e podem ter essas interacções”, comentou.
Retratos de um universo real
O “cimento do projecto”, frisou Pauline Foessel, é o texto de José Eduardo Agualusa, que estabelece o fio condutor da exposição. “Toda a violência é uma desistência da razão, um recuo do pensamento. Toda a arte um território de reflexão. A arte aproxima as pessoas”, pode ler-se no texto.
Face a artistas de culturas completamente diferentes, apesar do Português como elemento de ligação entre parte deles, urgia a necessidade de uma ideia que ligasse todos num diálogo que sentissem ser inclusivo. “Então concebemos a ideia do alter-ego, do meu outro eu. E criámos não apenas diferentes mostras, mas uma exposição em que se começa num ponto e se termina noutro. As pessoas podem ver apenas uma parte mas o ideal seria verem toda a exposição numa determinada ordem”, explicou Pauline Foessel.
A primeira parte, o “self” (ou o próprio, em português), é uma introspecção sobre o eu e o ambiente que rodeia a pessoa, aliada à complexidade dos diversos caminhos que se podem seguir na vida. Para ela contribuem artistas como Herberto Smith, de São Tomé e Príncipe, com um trabalho sobre a diáspora africana, ou Wing Shiya, que retrata o ambiente surrealista de uma nova geração voltada para a tecnologia. As restantes dão seguimento a este pensamento, num mergulho entre o significado do outro, a comunicação, e a interacção com o meio envolvente.
Peça de arte em exposição no âmbito do sub-tema “Self”, no Museu de Arte de Macau
“O mais curioso é que existe mesmo este universo, não é um universo abstracto que estamos a tentar forçar, mas um campo do pensamento lusófono que depois interage aqui com Macau, com Hong Kong e com a China, existindo esta ponte entre estes artistas que sempre trabalharam na sua área, mas nunca tiveram a oportunidade de se reunirem e de falarem”, complementou Vhils.
Os curadores mostraram vontade de que a exposição seja levada a outros países, podendo até envolver outros artistas, mas a opção está dependente “do interesse e também das condições”, comentou Vhils. E Pauline Foessel, que “está a trabalhar para ser uma coleccionadora”, considerando ter um espólio ainda muito pequeno, questionada sobre que peças das que se encontram na mostra seriam uma boa adição, não mostrou preferência. “Todas elas, quem me dera!”, respondeu.
O próximo projecto de Pauline Foessel é voltado para uma plataforma de arte que tem como alvo curadores. Vhils quer descansar depois da turbulência deste ano, apesar de ainda ter viagens marcadas. Estão em discussão algumas exposições para 2019, das quais duas na Ásia, sendo que o artista aponta para Shangai e a Coreia do Sul como os destinos mais prováveis. E ambos pretendem manter a ligação à RAEM.
“Para além de nós há muitas pessoas a fazer muito por Macau”, defendeu Vhils, que se mostrou agradado com a abertura da região a pessoas que tragam coisas novas. Nesse seguimento, sugeriu ainda um evento que integre também música, dado o aparecimento de novas gerações de artistas nos países representados na mostra.



