Macau escapou à invasão japonesa, no entanto, viveu durante seis anos num clima de medo, tendo chegado mesmo a ser alvo de dois ataques, um dos aliados e outro nipónico. Leonel Barros, que na altura tinha cerca de 20 anos, testemunhou uma dessas situações e muitas outras que partilhou nas suas memórias escritas
Liane Ferreira
A II Guerra Mundial e a invasão nipónica na China e Hong Kong deixaram Macau totalmente isolado dos seus vizinhos e num ambiente de inquietação, pois além do número crescente de refugiados que chegavam ao território, havia também uma sensação de instabilidade entre as tropas portuguesas e receios de invasão pelos japoneses. Isto apesar da neutralidade portuguesa.
O saudoso Leonel Barros – referência da comunidade e cultura macaenses, bastante conhecido pelas histórias que deixou sobre esta terra – tinha 21 anos e cumpria o serviço militar quando, durante o período quente da guerra, Macau foi alvo de um ataque aéreo.
“Às nove e meia do dia 16 de Janeiro de 1945, numa manhã de sol a poucos meses do fim da guerra, eu estava de sentinela junto à Porta de Armas do Quartel de São Francisco quando vi uma esquadrilha de seis caças”, escreveu Leonel Barros no livro “Memórias do Oriente em Guerra”.
Segundo conta, os aviões voaram baixo pelo centro da cidade, seguindo em direcção ao Centro de Aviação Naval no Porto Exterior, onde lançaram algumas bombas e dispararam tiros de metralhadora. No hangar atacado, estava armazenada uma grande quantidade de combustível que iria ser entregue aos japoneses em troca de arroz.
Na altura, o comandante Álvaro Salgado mandou formar a companhia, seleccionando pessoal especializado em fogo antiaéreo e mobilizou os homens para os postos de defesa, construídos com sacos de areia.
Dois dos caças tomaram a direcção do quartel e dispararam sobre a Porta de Armas e interior do edifício partindo vidros e perfurando as canalizações. Pior sorte tiveram ainda os soldados que ficaram feridos e tiveram de ser levados até ao Hospital Conde São Januário numa mota com “sidecar”, sob fogo aéreo.
Os aviões só se retiraram pelas 11:45, deixando para trás a ideia de que Macau tinha entrado no conflito e pagava agora as consequências pelas mãos japonesas. No entanto, as emissões de rádio da “Voice of America” revelaram que o ataque tinha sido na realidade norte-americano, fazendo parte de uma ofensiva às posições japonesas em Hong Kong, China e aparentemente Macau.
Segundo Leonel Barros, os primeiros tiros sobre o Centro de Aviação Naval (que anteriormente albergara os hidroaviões) serviram de aviso, para que quem lá vivia pudesse deixar o local, atacando de seguida com bombas. No livro, o macaense confessa ter achado curiosa a falta de movimento na embaixada inglesa, desconfiando que a denúncia do conteúdo do hangar aos americanos tivesse partido dessa fonte.
Recordando outro episódio, relata que o posto de polícia numa pequena aldeia de pescadores (Manió) na Ilha da Montanha, também foi atacado por militares japoneses. Virado para a Fortaleza da Barra, um dos guardas de vigia viu o que se passava e disparou alguns tiros com a sua arma, para permitir aos seis polícias fugir para Macau com a bandeira portuguesa nas mãos.
Estes dois ataques foram precedidos por pelo menos duas notícias falsas de que Macau tinha sido ocupado pelos japoneses. Uma surgiu no jornal Diário de Macau, com base numa notícia com origem em Londres, e outra no jornal português “República”, depois da rendição inglesa ao Japão.
Devido a receios de invasão, os polícias e soldados passaram a trabalhar com pistolas-metralhadoras, granadas e capacetes de aço e, a partir de certa altura, começaram a ser colocados cavalos de frisa e arame farpado nos acessos aos quartéis, depois do anoitecer.
As incertezas ganhavam outra dimensão com a presença de 20 mil soldados nipónicos do outro lado da fronteira e com um “quartel-general” japonês numa casa da Avenida Ouvidor Arriaga. De fora, Leonel Barros via que “os soldados em tronco nu (mesmo nos Invernos rigorosos) praticavam carga de baioneta e outros exercícios militares”.
Na sequência de rumores de que os japoneses teriam decidido entrar pelas Portas do Cerco, o governador Gabriel Maurício Teixeira deslocou-se com a família à “Terra de Ninguém”, depois do arco, para falar com os soldados. “Se quiserem invadir Macau, muito bem, mas antes terão que matar a minha família e a mim também”, terá dito o Governador, para surpresa dos oficiais.
Nas suas memórias, Leonel Barros refere ainda que eram raros os dias em que a Polícia Marítima não retirava corpos do rio, prisioneiros mortos pelas tropas nipónicas estacionadas perto de Macau, muitos decapitados.
Do início da ocupação de Hong Kong, a 8 de Dezembro de 1941, até à rendição inglesa, passaram-se 18 dias em que as tropas da “Union Jack” deixaram Kowloon em direcção a Hong Kong, onde acabaram também por ser vencidos. Durante o conflito, 1.119 soldados aliados, incluindo 280 portugueses, foram feitos prisioneiros.
Com esta tomada do território vizinho, Macau ficou totalmente isolado e devido aos bloqueios marítimo e terrestre, os alimentos começaram a escassear. Nessa altura começou uma grande vaga migratória.
A primeira tinha já acontecido em finais de 1937, com muitas pessoas a virem do norte da China sem nada e famintas, acabando por morrer às portas de igrejas ou nas arcadas da Avenida Almeida Ribeiro. Começou então a ser distribuída a “sopa dos pobres”.
A situação vivida levou o governo local a decretar que teatros, clubes e escolas fossem transformados em camaratas e foi criado um centro de refugiados num canídromo. As crianças eram enviadas para o Asilo de Santa Infância, a cargo das Canossianas, ou para o Hospital Kiang Wu. Mais tarde, foi criado o “Asilo das Crianças Abandonadas” no Bairro Tamagnini Barbosa, que chegou a albergar 400 crianças em 1944.
Os refugiados portugueses vindos de Xangai ficaram alojados em moradias na Avenida do Coronel Mesquita. Muitos outros foram evacuados de Shamian pela lancha canhoneira “Macau”, quando os bombardeamentos em Cantão se intensificaram.
Segundo Leonel Barros, cerca de 300 mil pessoas viviam em 70 mil embarcações no rio, local de tráfego constante, onde também proliferavam os tancares com as suas lojas flutuantes. Os “barcos de flores” eram outra embarcação típica da época, que além de bonitas serviam quem procurava a prostituição ou o consumo de ópio.
Se, por um lado, os movimentos marítimos continuaram, por outro, Macau tornou-se uma “cidade sem carros”, devido à falta de combustível. As únicas excepções eram o Mercedes preto e os dois Ford mostarda da embaixada japonesa, os carros de dirigentes de Macau e viaturas militares e policiais.
Com o final do conflito em 1945, o governador Gabriel Maurício Teixeira afirmou que o facto de Macau ter conseguido sobreviver à guerra “depende mais do espiritual do que o material”. “Não esqueçamos a lição recebida e não repitamos os erros que levaram o mundo à catástrofe da guerra. Se não tirarmos ensinamentos perdurável, então eu digo que maior do que a tragédia da guerra será a tragédia da paz”, avisou.





