Deveria existir mais controlo por parte do Governo em relação aos médicos veterinários que exercem a profissão tendo em conta a ausência de uma lei que respeite o reconhecimento da qualificação profissional, considera Ruan Bester. Ainda assim, em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, o veterinário e fundador do “Royal Veterinary Center” diz acreditar que a futura Lei de Controlo Sanitário Animal e Médico-Veterinária, conjugada com a Lei de Protecção dos Animais, permitirá resolver algumas falhas e limar arestas levando a RAEM a atingir padrões satisfatórios na fiscalização e cuidado animal
Catarina Almeida
-O “Royal Veterinary Center” opera desde 2013. O que o levou a abrir este espaço em Macau quando a sua intenção passava primeiro por Hong Kong?
-Tenho espaços nos dois territórios, mas Hong Kong está muito saturado, com muitos médicos veterinários. E em Macau não há muita competição, nem veterinários, portanto, seria muito mais fácil abrir aqui até porque há mais oportunidades, e também tenho os meus amigos cá. No fundo, é melhor em termos de negócios – sobretudo ao nível dos impostos – estar em Macau.
-A primeira aposta passou por uma clínica veterinária, que já se expandiu para um centro. Qual a diferença?
-A clínica é mais pequena do que um centro e se compararmos em termos de dimensão com um hospital veterinário a diferença é ainda maior. Mas há conflitos em termos de definição entre diferentes países, onde por vezes os hospitais veterinários podem ser mais pequenos do que as clínicas. Em Macau, o Governo está a tentar distinguir [mais explicitamente] as clínicas dos centros e hospitais que, neste caso, têm de estar abertos 24 horas, pelo que é necessário ter pessoal [três veterinários] que assegure o horário de funcionamento ininterrupto. Nesse contexto, a nossa clínica terá provavelmente de mudar para hospital. O problema é que estamos registados em Macau como centro e não sabemos como é que o Governo vai resolver isto, porque teremos de passar a ser designados como hospital.
-Essa mudança é positiva?
-Sim, excelente. O que o Governo está a tentar fazer com a revisão da lei é um passo na direcção certa porque não havia nada no passado. Está a fazer um bom trabalho com vista a estruturar e regular os veterinários. É preciso ter veterinários habilitados, com certificados académicos de universidades também qualificadas e reputadas para cuidarem dos nossos animais. Não podemos ter pessoas sem habilitações académicas a cuidar dos animais de forma irresponsável.
-As universidades e institutos superiores locais não oferecem cursos de veterinária. É uma lacuna?
-Tenho muitos clientes que são professores em universidades e institutos superiores de Macau. Tenho tentado passar a mensagem e também já me mostrei disponível para ajudar a desenvolver um curso/programa que pelo menos transmita conhecimento de ciência e biologia como um passo em direcção ao ensino médico-veterinário. Não há uma escola de medicina em Macau. Não é possível formar-se em Macau em veterinária e gostava que isso fosse concretizado.
-Nesse contexto, como é que os centros veterinários garantem a contratação de pessoal adequado?
-É muito difícil porque os médicos são, normalmente, especializados em determinada área. Estudaram muito para chegar onde estão, têm família e vir para Macau implicaria mudar toda uma vida, seja a partir de onde for. A mudança é muito drástica e, nesse sentido, tentamos atrair médicos recém-formados que, mesmo estando interessados, acabam por pedir sempre altos salários. No final de contas, é sempre uma questão de dinheiro. Quanto mais alto for o salário proposto, mais rápido será contratar médicos. É muito difícil, e nem sempre é viável ter um veterinário-especialista [a tempo inteiro] a um grande custo porque na maioria das vezes não há o retorno.
-Na proposta inicial de revisão da Lei de Controlo Sanitário Animal e Médico-Veterinária, o Governo obrigava os veterinários a falar as duas línguas oficiais, mas após várias críticas acabou por ceder, passando a aceitar o Inglês. Viu esta mudança com bons olhos?
-Dissemos logo que seria impossível até porque cerca de 70% dos nossos clientes falam Inglês e é nessa língua que comunicamos. Mesmo que tivessem definido outras línguas como requisito mínimo, o Inglês teria de estar sempre presente nesse rol. Terem chegado à conclusão que seria melhor decidir nesse sentido foi óptimo.
-O Executivo propôs a forma de reconhecimento de universidades de medicina veterinária para registar os médicos em exercício na RAEM. É a escolha mais acertada?
-É muito importante. Há determinadas universidades, em todo o mundo, que todos os anos formam veterinários mas nem todas cumprem os requisitos básicos. Nesse sentido, não se pode considerar que todos esses médicos sejam devidamente qualificados para exercer se a universidade ou instituição de ensino superior onde se formaram adopta os métodos padronizados – e não é que a culpa seja, neste contexto, do profissional propriamente dito. Noutros países, os veterinários são escolhidos de acordo com as universidades reconhecidas pelo mérito e padrões de ensino que aplicam. Aqui, o Governo segue uma série de universidades – tal como já é feito em Hong Kong – para que os veterinários lá formados possam trabalhar no território. A questão é que há uma obrigatoriedade, ou seja, os diplomados são escolhidos tendo em conta certo número de universidades e faculdades que nalguns casos estão aquém dos padrões. Mas pelo menos já há essa selecção, embora [à luz da proposta] alguns médicos tenham de deixar de exercer porque a universidade onde se formaram não é reconhecida pelas autoridades locais.
-Essa futura lei, apesar da demora, abrirá caminho para um maior reconhecimento da profissão?
-Sim. Precisamos que o Governo de Macau nos reconheça como médicos veterinários profissionalmente qualificados. Por exemplo, não podemos prescrever medicação porque não estamos registados e também não existe nenhum conselho de veterinários. Os únicos que estão registados trabalham para o para o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) e que podem administrar as vacinas e executar trabalhos a título oficial. Se compararmos com a grande maioria dos países esta prática não é normal. Todos os veterinários estão, à partida, registados embora acredite que isso vá ser diferente com a nova lei.
-Como é que medicam os animais que requerem esse tratamento? Este é um dos principais pontos da proposta face às dificuldades em adquirir medicamentos…
-A maioria dos medicamentos que as clínicas de Macau têm não podem ser comprados cá, por isso, temos de importar. Só que para entrar em Macau é um problema. Fiquei muito contente que pelo menos com esta proposta o Governo esteja a tentar resolver a questão. Não podemos confiar o nosso trabalho em medicação duvidosa. Há medicamentos que podem ser comprados cá porque estão registados mas vêm de países cuja produção é de baixa qualidade.
-Desde que começou a trabalhar na RAEM, há mais de 10 anos, notou uma melhoria do serviço médico-veterinário?
-Os padrões do tratamento veterinário estão melhores também porque há mais competição no sector o que por si só nos motiva a ser melhores. Se o nosso equipamento e a equipa médica forem melhores, o serviço também será. Fico feliz por saber que estou a ‘competir’ com médicos muito bons, com grandes profissionais.
-Deveria haver mais fiscalização?
-Deve haver uma maior restrição e o Governo deve ser mais exigente com todos os médicos veterinários e inspeccionar as próprias clínicas com base em determinados padrões. Mas entendo que seja esse o caminho que se quer seguir com a nova lei na medida em que, por exemplo, para que o espaço seja classificado como hospital precisa de ter pelo menos três médicos, logo, já é feita uma distinção e atribuídos determinados serviços. Com a nova lei as clínicas poderão fazer as cirurgias e os hospitais também, mas têm de estar abertos 24 horas.
-Manifestou o desejo de abrir um hospital em Macau. Mantém essa vontade, tendo em conta que o vosso espaço na Taipa está aberto durante 24 horas?
-A primeira clínica que abri em Macau, em 2006, já fechou porque a alargámos para centro. Ao alargar o espaço oferecemos um serviço que se equipara a um hospital. A questão é que, como não há ainda a lei em causa, não sabemos a dimensão necessária para viabilizar a classificação para hospital. Seja como for, o próprio conceito soa melhor e acabaremos por mudar. Estamos a trabalhar num novo espaço, próximo do ‘Royal Veterinary Center’, que será maior e estou a ponderar expandir um pouco por todo o território. Na clínica da Taipa fazemos todo o tipo de cirurgias durante o dia e os animais podem ir embora à noite. Temos três médicos e colaboramos também com alguns profissionais de Hong Kong que, de vez em quando, trabalham connosco.
-Como encara os benefícios e mais-valias da nova Lei de Protecção dos Animais?
-O Governo definiu que todos os animais com mais de 23 quilos são obrigados a usar açaime. Não sei se será a forma mais correcta de abordar a questão porque muitos animais precisam de ter a boca aberta para respirar […] mas alguns açaimes inibem que o animal abra a boca, o que acaba por ser muito perigoso porque podem sobreaquecer. Não me parece que seja a forma mais efectiva de controlar animais de grande porte, até porque, nalguns casos, são mais ‘bem-comportados’ e menos perigosos – a menos que sejam treinados em sentido contrário. Não sei os critérios que usaram para definir que o açaime tem de ser usado por animais com mais de 23 quilos… Em contrapartida, agrada-me a forma como estão a controlar as licenças, mas acredito que há espaço para fazer mais e melhor.
-Em que sentido?
-Deveria haver mais controlo e mais legislação em relação aos abusos de animais e quem pratica esses actos deveria ser severamente punido. Seria também importante avançar com leis muito severas contra o uso de animais para fins alimentares.
-Conhece essas práticas em Macau?
-Ouvi dizer, mas nunca vi. Segundo me contaram há espaços em Macau onde ainda é possível comer gato. Se for verdade esse tipo de actos tem de ser severamente punido. O Governo deveria seguir o exemplo das leis em Hong Kong embora não acredite que [este] seja um problema muito grande em Macau. Em Hong Kong, a polícia tem poder para ir às habitações e retirar os animais de pessoas que maltratam os animais. Macau deveria fazer o mesmo.
-Essas situações chegam-lhe até ao centro?
-Sim, temos clientes que trazem animais [dos quais não são donos] em condições terríveis e o meu primeiro instinto é comunicar esses actos às autoridades locais. Mas, como posso reportar se não sei quem os maltratou? E se reportar, os animais vão para o cuidado do IACM e se ninguém for ao encontro deles serão eutanasiados ou irão para as associações que terão de os colocar numa jaula. Sinceramente, não sabemos o que é o certo ou errado neste tipo de situações mas deveríamos ter ao nosso alcance qualquer tipo de lei que permitisse lidar com estes casos. Ou então poderíamos reportar junto do IACM que teria poder para ir até à casa do dono e inspeccionar, tentar perceber as condições em que os animais vivem. Estamos um bocado atrasados em relação à forma como outros países e regiões lidam com isto.
-Caminhamos na direcção certa?
-Pelo menos estamos a seguir esse rumo. As pessoas estão mais educadas e sensibilizadas sobre abusos e crueldade animal. As pessoas amam os animais. É sem dúvida muito melhor do que no passado.
-De que forma trabalha com associações de protecção de animais locais?
-Se um animal estiver ferido, as associações levam-no ao centro e ajudamos cobrando um preço especial. Temos um gato no centro que uma associação encontrou na rua ferido e está a ser tratado para depois ser adoptado. No primeiro andar temos imensos animais que retirámos da rua e agora fazem parte da nossa família porque ninguém os quer adoptar. Temos uma espécie de zoo (risos). Ainda assim, recentemente, tínhamos seis cães que educámos e alimentámos e acabaram por ser adoptados com a ajuda de associações que escolheram o dono ideal.
-A nova Lei de Protecção dos Animais teve grande impacto na redução de animais abandonados?
-Já não vejo tantos animais abandonados. Há efectivamente melhorias mas a questão é que os animais que já vivem nas ruas há muito tempo lutaram para conseguir ficar nesses espaços e, portanto, controlam a zona. O melhor é castrá-los e recolocá-los no lugar onde foram encontrados porque não será positivo se forem retirados para passar a viver numa jaula. E a verdade é que outro animal irá assumir o mesmo lugar. É uma espécie de estrutura em pirâmide. Em Hong Kong fazíamos muito isso. Chegávamos a castrar 25 animais por dia! Eram apanhados, castrados e colocados de novo no mesmo sítio. Seria ideal o Governo criar um programa de ajuda financeira aos veterinários locais para suportar as castrações, auxiliando as associações no processo de combate aos animais de rua.
-As associações de defesa dos animais deveriam ser mais apoiadas pelo Governo? Algumas ainda lutam por um espaço físico…
-Seria óptimo se o Governo disponibilizasse terrenos ou espaços para esse tipo de associações a título gratuito, ou se lhes cobrasse uma renda mensal simbólica para conseguir que os animais ficassem a seu cuidado. Um cão precisa de correr para soltar energia e, embora não tenha nada contra o trabalho das associações, antes pelo contrário, acho que deveriam talvez receber menos animais e controlar melhor os que têm à sua guarda.
-Como avalia o desempenho do Governo, sobretudo do IACM, neste campo?
-Tem sido proactivo, mas também porque está a ser “forçado”. Os cidadãos têm-se esforçado para passar uma mensagem e o Governo tem de responder, por isso, tem estado a fazer um bom trabalho. O mesmo se passa em relação às lojas de animais. É preciso ser mesmo muito bom para ter uma loja – e as leis vão ser restritas – porque há animais que são vendidos mesmo estando doentes. A longo prazo esses animais acabam por chegar às nossas mãos porque os donos percebem que algo está errado. Portanto, porque é que vendem estes animais se, logo à partida, estão doentes?! Isto tem de ser regulado.
-Circularam notícias de que iria processar o presidente da Anima na sequência de afirmações sobre os galgos. Como está esse processo?
-As acusações foram muito negativas tanto para a minha reputação como para a da clínica. De qualquer forma, os nossos advogados concordaram em resolver a questão fora dos tribunais. Está tudo bem e ficará resolvido.



