No dia em que se comemora a Mulher, a TRIBUNA DE MACAU apresenta experiências de carreira e vida de quatro agentes das Forças de Segurança. Numa área em que a ideia de masculinidade e da força do Homem pode ser dominante, elas são exemplo de determinação e de trabalho sem medo, por vezes sob uma aura de dúvidas, mas não de discriminação. Wong Choi Peng, ex-segunda comandante do CPSP fez parte do primeiro grupo feminino da corporação, em 1974, quando os olhares curiosos que viam o grupo de 40 mulheres a treinar representavam o oposto da actualidade. Por sua vez, a chefe Rosemere da Costa, que ajudou a dar à luz um bebé num táxi, fez parte do grupo de protecção de individualidades. Já a subinspectora Ieong Heng Mui, da Polícia Judiciária, retém na mente os sequestros da conturbada década de 90. No caso da inspectora alfandegária Chang I Wa, o drama de uma jovem de 16 anos apanhada com droga marcou a sua carreira. Estas quatro agentes presenciaram mudanças na sociedade e na conjuntura política, bem como a abertura das Forças de Segurança ao sexo feminino, enquanto na sua vida privada tentavam equilibrar os dois mundos
Liane Ferreira
Actualmente reformada, Wong Choi Peng foi 2ª comandante do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) depois de ter feito parte do primeiro grupo de polícias femininas de Macau composto por 44 mulheres. Inicialmente, estavam inscritas centenas.
“Era uma aspiração de infância. Via o uniforme e pensava que era muito elegante e prestigiado. Para além disso, podia disparar, dirigir o tráfego e investigar crimes. É um trabalho muito activo”, começa por contar à TRIBUNA DE MACAU, notando que, por ser uma carreira da Função Pública, também oferece benefícios e remuneração atractiva.
Entre a família e os amigos não houve estranheza quanto à sua decisão, porque pensavam ser um emprego como outro qualquer.
Wong Choi Peng
Das suas memórias, recorda que “no início, as pessoas olhavam com curiosidade”. “Se calhar, os cidadãos duvidavam que as mulheres pudessem fazer o mesmo trabalho que os homens. Ainda me lembro quando treinávamos na Penha e muitas pessoas olhavam com curiosidade”, conta, confessando que custou mais a habituar-se ao trabalho por turnos.
“Nunca me senti discriminada [nas Forças de Segurança], muito pelo contrário as pessoas oferecem-se para ajudar. Os homens são normalmente mais fortes, por isso, são usados para certas situações. Para resolver assuntos que não necessitam de tanta força, mas de um maior nível de atenção ao pormenor entram as mulheres, que também ajudam a solucionar os problemas de forma mais pacífica”, diz a ex-comandante.
Wong Choi Peng sublinha que não é só a polícia que enfrenta perigos, mas todas as profissões. “Quando entrei para a polícia, havia casos em que não me sentia segura, por exemplo quando acompanhávamos as presas ao hospital. Elas ficavam num quarto com cidadãs normais e nós só podíamos ficar de plantão à porta. Preocupava-me que fossem fugir e se perdesse a prisioneira haveria um processo disciplinar. Hoje, as presas ficam num quarto isolado”, explica.
O episódio que mais a marcou prende-se com a cerimónia de transferência de soberania. “Trabalhava no departamento de recursos e na administração, por isso, era responsável por garantir que todos os polícias à meia-noite trocavam de distintivos nas fardas. Foi um momento que marcou muito a minha carreira”.
Rosemere da Costa
“Sinto realmente que a mulher tem o seu lugar na sociedade. Houve uma ascensão muito grande em várias profissões, não só na polícia, mas também em outras em que antes não trabalhavam, como na construção. Vemos que a mulher, hoje em dia, tem o seu valor”, declara, defendendo que pode haver um equilíbrio entre a carreira e a vida privada.
A ex-comandante entende ser necessário desfrutar do convívio familiar e aproveitar as actividades organizadas pela polícia nesse âmbito, para que as famílias compreendam as envolvências do trabalho e se atinja um equilíbrio entre as partes.
“O meu marido apoiou-me sempre e em muitas ocasiões substituiu-me em alturas importantes da vida dos meus filhos. Ele é muito compreensível e fazia o papel de mãe”, confessa, destacando que no tempo livre preferia falar e estar com os filhos em vez de dormir.
Para as jovens que desejam crescer profissionalmente recomenda em primeiro lugar que gostem da profissão, sejam leais e trabalhem com toda a sinceridade. “Como a sociedade avança muito rápido é preciso estar sempre a aperfeiçoar as capacidades”, frisa.
Da Migração à protecção dos VIP
A chefe Rosemere da Costa é a oficial de carreira de base mais antiga do CPSP. Começou como instruenda em 1989 e tomou posse como polícia no ano seguinte.
“Queria aguardar até haver um curso de enfermeira, mas um dia peguei no jornal e vi um anúncio das Forças de Segurança de Macau (FSM). Nesse dia fui-me inscrever, assim, de repente. Nunca tinha pensado em ser polícia, mas naquela altura o hospital não abria cursos todos os anos e eu não consegui esperar tanto”, conta a chefe, assumindo o desejo de trabalhar para a sociedade e ajudar os outros.
Chang I Wa
Em segredo, inscreveu-se e passou os testes físicos e exames escrito e psicotécnico. “Queria que fosse surpresa”.
“Apareci fardada em casa e foi quando souberam. Deram-me os parabéns. Muitos amigos disseram que a polícia era muito rigorosa e trabalhava-se muito, mas eu gosto de trabalhar”, garante.
Quando ingressou nas FSM, eram 30 mulheres, 10 para a Polícia Marítima e 20 para o CPSP, com uma desistência pelo meio. Essas guardas iriam exercer funções nos postos fronteiriços que as autoridades queriam implementar nessa altura. Depois disso, os serviços de identificação do CPSP fecharam para dar lugar à Migração. Foi assim que foi trabalhar para o posto fronteiriço do Terminal de Passageiros do Porto Exterior e para as Portas do Cerco.
“As pessoas passavam mesmo pelas Portas e a polícia colocou dois guichés um de cada lado. A partir daí, começou a controlar-se as passagens. Residentes de Macau e de Hong Kong iam à China às compras, mas não havia circulação de chineses, porque o país ainda não tinha aberto as portas. Não há comparação possível com o número de pessoas que passam hoje”, destaca.
Com o desenvolvimento dos Serviços de Migração, juntamente com pedidos de residência de estrangeiros, começaram a ser contratadas mais mulheres. No entanto, os cursos para mulheres nas FSM não aconteciam todos os anos, situação que se alterou depois de 1990, mantendo um quadro masculino e outro feminino. Só depois do estabelecimento da RAEM é que foi criado um quadro geral, incluindo percentagens para agentes femininas.
Para Rosemere da Costa “nunca houve discriminação”. “Mas, assumimos que não somos capazes de fazer tudo. Os colegas oferecem-se para ajudar e nós também os ajudamos”.
“Também não senti discriminação da parte dos cidadãos, porque estes até colaboram mais com as mulheres. Quando aparece uma agente, as pessoas acalmam-se e respeitam muito, até mais do que aos polícias homens”, assinala.
Recordações de Chang I Wa
Asseverando que não sentia medo no trabalho da linha da frente, recorda que, quando integrou o grupo de protecção de individualidades, antes da transferência e durante os tempos conturbados da década de 90, não receou pela sua vida, mas sim pelas pessoas que protegia. “Andava sempre preocupada e com muito stress, porque podia haver um assalto de repente”, recorda a chefe, que na cerimónia da transferência foi responsável pela segurança do Presidente do México.
O caso que marcou a sua carreira aconteceu durante uma patrulha nos Três Candeeiros. “Recebemos uma chamada de um táxi parado com uma mulher prestes a dar à luz. Encontrámos o carro, onde o taxista estava em pânico. Perguntámos porque não tinham ido para o hospital e ele disse que a passageira não queria. O meu colega foi buscar um pano para tapar o táxi e perguntou-me se sabia o que fazer. Eu disse que não, mas entrei no táxi e tentei acalmá-la. No momento em que a ambulância parou, o bebé nasceu e coloquei-o nos braços da mãe”, conta com um sorriso.
A transferência de soberania foi outro marco importante, porque “de um dia para o outro mudou tudo, passou a ser tudo em chinês”. Nesse processo, os concursos internos para progressão na carreira deixaram de ser feitos em português. “Os cursos das FSM eram só em chinês para preparar oficiais da terra para a transferência”, refere.
“Sabia o que ia acontecer com a transferência, por isso estudei chinês e fiz o secundário. Mas não concorri, porque não tinha confiança suficiente. Embora soubesse chinês, não acreditava que conseguia passar nos exames de matemática, química e ciências que pediam. Por isso, não concorri mais e agora faz 25 anos que sou chefe”, afirma.
Em apenas seis anos, Rosemere da Costa subiu a chefe. Na primeira década de trabalho esteve solteira, casando depois dos 30 anos. O filho nasceu em 2003.
“Enquanto solteira, não tive problemas em subir na carreira. Quando fui mãe já não estava preocupada com as progressões, porque estava no topo da carreira de base. Para além disso, o meu marido também é polícia e percebia. Ele próprio também passava semanas sem vir a casa, porque trabalhava nas informações”, recorda.
Ieong Heng Mui 2
A chefe acredita que as mulheres têm sempre de escolher. “Actualmente, a sociedade dá muitas oportunidades e respeita a mulher, mas há sempre que escolher, mas ter um parceiro a apoiar é muito importante”.
“As mulheres fazem parte da sociedade. Como mães e domésticas também são importantes, mas a sociedade respeita e dá valor àquelas que querem ingressar e contribuir para a comunidade”, salienta.
Educação reforça papel da mulher
Com cerca de 25 anos nos Serviços de Alfândega (SA) e na extinta Polícia Marítima e Fiscal (PMF), Chang I Wa é inspectora alfandegária, exercendo funções de graduada de serviço nas Portas do Cerco.
“Quando era jovem, passava pelo posto fronteiriço e encontrava o pessoal das Forças de Segurança de uniforme e a fazerem um trabalho muito rigoroso. A boa imagem que tinha levou-me a apresentar a candidatura, mal acabei o secundário. Por acaso, vi um aviso de recrutamento num jornal e falei com a família e amigos e todos me apoiaram”, revela a agente.
Enquanto instruendos precisavam de fazer exame para escolher a unidade das FSM e a PMF foi a primeira escolha. Nove meses de treino e formação com aulas de tiro, primeiros socorros e Direito. Além disso, foi preciso um estágio em todas as unidades orgânicas. Depois da criação dos SA passou a ser verificadora alfandegária e chegou a subinspectora.
“A vida é dura, nomeadamente no treino físico, e estas exigências são elevadas. Mesmo assim, existem critérios diferentes para homens e mulheres na avaliação física”, frisa, acrescentando que as áreas de trabalho têm sido alargadas, incluindo a protecção da propriedade intelectual.
Apesar disso, gosta sobretudo do trabalho de primeira linha porque tem mais oportunidades de lidar directamente com as situações do quotidiano da cidade.
No início da carreira, Chang I Wa notava que “as pessoas achavam estranho as mulheres estarem a desempenhar as mesmas funções que os homens”. Todavia, foram sempre educados.
Além disso, “há uma boa colaboração com os colegas”. “Não acho que exista discriminação sexual, chega mesmo a haver alguns benefícios por ser mulher”, afirma, concordando com a ideia de que ambos os sexos devem trabalhar em conjunto.
Treinos de defesa pessoal do CPSP em 1975
“No controlo alfandegário pode-se encontrar um caso em que a pessoa está muito alterada e os homens com um carácter mais forte podem piorar a situação. Se passar para uma mulher, o caso pode ser tratado de uma maneira mais suave, mais calma e a pessoa pode mesmo receber melhor a abordagem da polícia”, exemplifica.
Chang I Wa admite que é preciso apoio interno para enfrentar e suportar eventuais problemas no serviço. Isso aconteceu uma vez, porque alguém foi apanhado a transportar algo ilegal. Quando foi abordado, ficou muito zangado e ameaçou-a, mas com apoio dos colegas ficou tudo resolvido. “Não é preciso sentir-se medo”, destaca.
Ao recordar a carreira, Chang I Wa fala emocionada sobre um episódio ocorrido em 1994. “Nunca me esqueci de um caso nas Portas do Cerco. Nessa altura, havia muitos toxicodependentes que iam a Zhuhai comprar drogas. Uma das vezes, encontrei uma adolescente de 16 anos que ia frequentemente comprar cocaína. Falei com ela e disse-lhe que era tão jovem e não valia a pena estar a gastar tempo tão precioso nisso. Além do mais não podia desapontar os pais. Anos mais tarde, encontrámo-nos na rua, e ela reconheceu-me. Disse-me: ‘muito obrigada pelas suas palavras deixei o vício, tenho um bebé e um bom trabalho’”, relembra.
Casada, com filho e filha, admite que já teve de abdicar de tempo com a família para progredir na carreira nos SA. “Eles compreendem. Sabem que tenho de trabalhar por turnos, como no Natal, e que não consigo estar sempre presente. Por outro lado, são eles que me dão estímulo e coragem e nesse momento o cansaço deixa de existir”.
“Para mim, o trabalho e a família podem existir em simultâneo. Trabalho é trabalho, mas é mesmo preciso tanto tempo no trabalho? O mais importante é organizar o tempo, prefiro descansar menos para brincar e falar com eles. Educá-los”, refere a agente, para quem “querer é poder”. “Quando se tem interesse num certo campo, temos força e energia para caminhar nessa direcção”, destaca.
Chang I Wa vê em Macau e nas FSM que o “papel da mulher é cada vez mais importante e tal deve-se à formação e às mudanças na sociedade”. “Antigamente, a mulher ficava em casa por falta de educação e de oportunidades, mas agora trabalha e precisa de enfrentar as mesmas dificuldades. Nós, mulheres, temos de equilibrar entre a profissão e a vida privada”.
Enfrentar década de violência sem medo
Wong Choi Peng já como 2ª Comandante
Corria Setembro de 1990 quando Ieong Heng Mui se juntou à Polícia Judiciária (PJ). “Na altura, trabalhava como funcionária administrativa, houve um concurso público na PJ e pensei que podia tentar. Acabei por ser seleccionada”, começa por contar a actual subinspectora.
“Era muito jovem, tinha 21 anos e os meus pais deram-me espaço para desenvolver a carreira que queria. Não acharam estranha a escolha, disseram que dependia de mim”, diz. Convencida de que o trabalho não ia ser aborrecido, queria experimentar outra coisa para ver o que se adequava a si.
Isso veio a confirmar-se pelo simples facto de ter 27 anos de carreira na PJ e poder continuar a desenvolver trabalho em diferentes áreas. Mas há outro motivo: “Quando era criança via a polícia na televisão, no telejornal e pensei sempre que tinha uma imagem muito positiva”.
Na sua juventude, muitos colegas da escola secundária ingressaram nas Forças de Segurança e isso deu um impulso extra a Ieong Heng Mui para escolher esse caminho.
Depois de passar o exame e a entrevista, teve de fazer o curso de investigador, organizado pela polícia. “Quando comecei éramos quatro homens e quatro mulheres. Antes de nós havia outras duas agentes do sexo feminino na área de investigação criminal, mas que já não faziam trabalho da linha da frente”, contou.
Antes da PJ, Ieong Heng Mui tinha trabalhado num escritório, pelo que percebeu que era tudo muito diferente. “Era uma aventura e podia aprender muito”, afirma a agente, que começou a carreira num período de elevada criminalidade violenta no território.
“Na década de 90, havia muitos crimes na cidade e eu trabalhava na linha da frente. Quase não tinha tempo para dormir e quando o telefone tocava tinha de ir imediatamente. Era assim com quase todos os colegas”, lembra.
Questionada sobre um caso que a tenha marcado pessoalmente, a agente preferiu generalizar situações de sequestros, com que se deparou amiúde.
“Os sequestros eram muito frequentes, por isso participei em muitas acções em que era necessário resgatar pessoas”, afirma, admitindo que nessas alturas não pensava na morte nem tinha medo. “De facto, não pensamos nisso, de ter medo de morrer. Quando surge um caso temos de o resolver rapidamente. Como polícia temos de enfrentar essas situações, é a nossa responsabilidade”.
A subinspectora salienta que “em primeiro lugar, o trabalho na PJ exige espírito solidário, companheirismo e camaradagem”. “Além disso, existem casos que envolvem mulheres e as investigadoras são necessárias. Mesmo alguns investigadores do sexo masculino também dão apoio”, garante.
Rosemere da Costa
“Temos de trabalhar muitas horas seguidas, às vezes estamos 40 a 50 horas na PJ, por isso, as relações entre sexos têm de ser boas. O mesmo se passa com as relações com as chefias, porque o objectivo é resolver o caso”, salienta Ieong Heng Mui. “Não notei discriminação dentro das FSM. Mesmo no caso dos criminosos, depende de como são. Se não gostarem da polícia não interessa se é homem ou mulher”, nota, com num sorriso.
A agente explica que, durante as investigações, “há sempre muitos agentes a dar apoio” e no curso de educação física normalmente as mulheres treinam em pares. “Na investigação, é sempre necessário força física, por isso a percentagem de homens e mulheres depende das situações e da evolução social, mas hoje em dia na PJ já existem mais mulheres na investigação criminal”.
Com mais de duas décadas num trabalho exigente, física e mentalmente, Ieong Heng Mui viu-se a braços com uma filha e um equilíbrio difícil de atingir.
“Sei que perdi momentos da vida dela. Este tipo de trabalho precisa do apoio da família. Quando ela era criança tive de pedir ajuda à minha família para cuidar dela. Tive de lhe dizer: ‘a mãe tem uma operação, por isso não tem tempo para te fazer companhia’”, revela, garantindo, no entanto, que não mudaria a escolha feita.
“Não me arrependo. Estudei Direito na faculdade e pensei que a PJ também poderia ajudar a aumentar os meus conhecimentos e enquadra-se na área que estudei”, acrescenta.
Para a agente, ambos os sexos têm capacidades diferentes, mas é em conjunto que funcionam melhor. “A investigação é um trabalho de ajuda mútua, na força física os homens são mais fortes, mas as mulheres reconhecem detalhes mais rapidamente. É um trabalho de equipa. Para resolver um caso não basta uma pessoa”, ressalva.



