O “Desfile de Moda da Grande Baía” teve lugar ontem, no Venetian, no qual participaram duas designers locais. Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, Jane Chan e Connie Wang falaram sobre os projectos que apresentaram nesta edição e os seus processos de criação. Wang apontou o que distingue os artistas de Macau, enquanto Chan deixou alguns conselhos para jovens designers

PEDRO MILHEIRÃO

Ontem, realizou-se o “Desfile de Moda da Grande Baía”, uma das oito apresentações do Festival de Moda de Macau, que encerra amanhã. O Jornal TRIBUNA DE MACAU falou com Jane Chan e Connie Wang, as duas representantes de Macau, acerca das colecções que exibiram no Venetian. No final das apresentações, Chan disse ter ficado com “boas sensações”, “muito orgulhosa” e com “vontade de fazer ainda melhor”. Wang, por sua vez, sentiu-se “muito honrada por representar Macau”, num evento que considerou ser “uma experiência muito boa”.

Jane Chan, cuja marca “MC Sports” se especializa no desenho de equipamentos desportivos, explicou que, para este ano, as roupas foram inspiradas em eventos como o Grande Prémio de Macau, o Festival do Dragão Embriagado ou no xadrez chinês. “Em todas as peças quero inserir histórias, para poder criar uma ligação com o meu público”, afirmou.

A colecção da “C/W Collective”, da autoria de Connie Wang, baseou-se no conceito das “flores”. “É sobre o processo de florescer e desvanecer. Representa as nossas vidas porque nascemos bebés, crescemos e depois envelhecemos. Nalgumas peças da minha colecção podem ver o florescimento, em que a flor cresce lindamente”. “Usei muitos materiais especiais, duros e moles, e formas para criar um contrate, que se pode ver quando o modelo veste a peça e se move. Os tecidos criam muitos movimentos diferentes”, disse. “E depois podem ver as franjas das peças de ganga que representam o envelhecimento. É o círculo da vida”.

No que diz respeito ao processo criativo, ambas realçaram a importância da herança cultural de Macau, apesar de abordagens distintas. Chan realça o design gráfico e a ergonomia das roupas. “Compreender o corpo humano ajuda-nos a criar [peças] confortáveis e práticas e com bom aspecto”. Os próprios cortes das roupas têm de ter em conta os movimentos do corpo. “Usamos materiais funcionais, condutores, leves, menos pegajosos e ecológicos”, nota a artista. Além disso, “muitas das peças são impressas digitalmente, o que as torna mais vibrantes”.

“Seguimos as tendências mundiais para os produtos de desempenho, para nos mantermos inovadores. No design visual, incorporamos elementos culturais de Macau e da Grande Baía, para conferir mais história aos produtos”, observou a designer. “Inspiramo-nos na cultura sino-portuguesa, como os azulejos portugueses e a arquitectura local. Fazemo-lo sempre. Usamo-los muito nas fardas de basquetebol e de futebol. Mas para este evento, não. Focámo-nos só no desporto”, notou Chan.

Por seu turno, e pela sua experiência em “design espacial”, Connie Wang acredita que “a construção tem de ser prática e, ao mesmo tempo, vestível, muito geométrica e desconstruída”. “Uso muitos conceitos de arquitectura nos meus designs”, explicou. Wang também cria muitas maquetes durante o processo de concepção: “Preciso de pensar muito durante a criação. Faço muitos testes porque, como se vê, os meus designs são algo complexos”.

Para Connie Wang, o que distingue os artistas locais daqueles de outras regiões chinesas é o facto de “Macau ser uma cidade pequena e muito especial”. “Usamos muito a cidade como conceito de design. Frequentemente, vêem-se designers a usar a arquitectura, padrões, elementos portugueses, cores e o que acontece ao nosso redor. É muito diferente do design de outras regiões”, rematou.

Em relação ao crescimento da cena da moda na Grande Baía, Jane Chan destaca os designers de Hong Kong e Guangdong, que “são muito fortes”, e aconselha os artistas de Macau a “tirarem partido do turismo e da economia de propriedades intelectuais”. “Encontrem o posicionamento certo, continuem a aprender e foquem-se nos produtos para permanecerem competitivos. Não pensem demasiado no mercado”, vincou.

“Os jovens designers devem encontrar o seu ponto de partida. Para nós, foi criar uniformes e fardas desportivas. E construímos a partir daí. Recomendo também aprender a colaborar e a usar plataformas de vídeos curtos para promover os seus designs”, concluiu Chan.

A decorrer em paralelo com a 30ª “Feira Internacional de Comércio e Investimento de Macau”, o Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau e o Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento esperam que o festival “demonstre a influência crescente de Macau na indústria da moda, melhore a visibilidade dos seus designers e gere novas oportunidades de negócio para marcas locais”.