Uma errada substituição de botijas de gás terá estado na origem da explosão num restaurante no Bairro da Areia Preta que causou seis feridos e uma vítima mortal. O Ministério Público vai abrir uma investigação para apurar responsabilidades, mas, segundo o IACM, o restaurante cumpria os critérios mínimos de segurança para o armazenamento de botijas de gás. O Governo garantiu apoio às vítimas e seus familiares, bem como aos lojistas afectados
Catarina Almeida*
A explosão num restaurante localizado no Edifício Pak Lei do Bairro da Areia Preta que provocou seis feridos e uma vítima mortal, de 34 anos, terá tido origem na “falta de cuidado” durante a substituição de botijas de gás, motivando uma fuga de gás, revelou o Secretário para a Segurança. Aos jornalistas, Wong Sio Chak vincou ainda que “a investigação do caso será liderada pelo Ministério Público” para “apurar as responsabilidades, no sentido de se verificar se houve violação da lei”. Além disso, o Governo vai “dar todo o apoio necessário aos feridos e familiares da vítima mortal, e o pessoal do Instituto de Acção Social já está acompanhar a situação”, afirmou.
Além do Secretário, o Chefe do Executivo também se deslocou à zona do acidente onde deu instruções às autoridades de modo a garantir a segurança dos residentes. Chui Sai On visitou também as vítimas ao hospital e enviou uma carta de condolências aos familiares da vítima mortal.
À tarde, o líder do Governo convocou uma reunião interdepartamental para conhecer os relatórios dos secretários e serviços públicos competentes sobre a explosão, bem como para dar instruções sobre os trabalhos de acompanhamento e reforço da prevenção. Segundo uma nota oficial, as autoridades “pretendem reforçar o número de inspecções às lojas que usam gases inflamáveis e sensibilizar ainda mais o público para as medidas de segurança a adoptar na conservação e utilização de botijas de gás”.
No início da manhã, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) esclareceu que o sistema de segurança das botijas de gás do estabelecimento foi inspeccionado em Maio, não tendo sido detectado qualquer problema. “O estabelecimento possui a devida licença. Com os dados que temos, em princípio, apenas tem quatro [botijas] e está licenciado de acordo com a lei”, pelo que cumpre os requisitos legais de segurança, disse a administradora Delfina To Sok I, aos jornalistas, à margem de uma reunião na Assembleia Legislativa (AL), confirmando que “o acidente terá sido causado pelo uso deficiente do combustível”.
Chefe do Executivo, Chui Sai On, desloca-se ao local da explosão de gás no Edifício Pak Lei, junto à Estrada Marginal do Hipódromo
De acordo com as disposições legais actuais, as cozinha de estabelecimentos só podem usar quatro garrafas de gás liquefeito (cada uma com 13.5 kg). Segundo a Administradora do IACM, a última inspecção ao restaurante ocorreu a 9 de Maio e “estava tudo em conformidade”.
Para Delfina To Sok I a solução para prevenir que este tipo de acidentes não passa, necessariamente, por alterar a lei. Deve-se antes incentivar os proprietários dos restaurantes a estarem mais atentos aos procedimentos de segurança, considerou a responsável.
Em todo o caso, o IACM irá reunir-se com o Corpo de Bombeiros com o intuito de tentar apurar se o território dispõe de “tecnologias para fiscalizar se há fuga ou não de combustíveis”. “Mas não temos dados concretos para saber se podemos fazer mais”, assumiu, reiterando porém que “temos fiscalizações nesse âmbito”.
Já Lo Chi Kin, vice-presidente do Conselho de Administração do IACM, fez saber que desde a entrada em vigor do regulamento e Segurança dos Parques de Garrafas de Gases de Petróleo Liquefeitos (GPL) foram efectuadas 2.000 inspecções. Actualmente, o organismo conta com 100 fiscalizadores.
Por seu turno, o director dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes esclareceu que a explosão não causou impacto na estrutura do prédio, pelo que não há perigo. Segundo Li Canfeng, as obras de recuperação podem começar em breve. O Governo vai adiantar o montante necessário, mas irá exigir o reembolso assim que terminar a investigação.
Quatro feridos internados
Ao final do dia de ontem, estavam ainda internados para observação quatro feridos: uma pessoa com fractura do fémur que já foi operada e deverá ficar estável; outra com queimaduras de 2º grau em cerca de 25% do corpo que continuava nos Cuidados Intensivos; uma terceira que se mantinha num quadro clínico grave mas estável.
Segundo os Serviços de Saúde, um dos três feridos ligeiros, com contusões superficiais e concussão, acabou por ficar internado para ser submetido a cuidados de enfermagem e observação neurológica, estando estável. Os outros dois sofreram contusões superficiais e já receberam alta.
O acidente aconteceu depois das 22:00 de terça-feira, mas as operações prolongaram-se durante algumas horas. O Secretário para a Segurança deslocou-se ao local na noite do acidente e agradeceu ao pessoal de salvamento pelo “trabalho duro”. Antes disso, deslocou-se ao hospital público para onde foram encaminhadas as sete pessoas envolvidas (entre os 34 e 54 anos), incluindo a vítima mortal – residente que não conseguiu resistir ao “trauma visceral interno” e às “múltiplas fracturas graves” tendo sido declarada a sua morte já no hospital.
Durante a visita ao hospital, Wong Sio Chak garantiu total solidariedade e apoio às pessoas afectadas. Segundo uma nota do Gabinete de Comunicação Social, o governante sublinhou a “fraternidade nesta hora de dor e sofrimento por parte dos familiares e lamentou o sucedido e foi com a maior consternação que recebeu a notícia deste infeliz incidente”.
Já a Direcção dos Serviços de Economia informou os lojistas afectados pela explosão de que poderão pedir ajuda junto da sua Divisão de Apoio às Actividades Industriais e Comerciais, se tal for necessário, para a recuperação das suas actividades. “A DSE irá continuar a acompanhar de perto os estabelecimentos comerciais que estão a sofrer as consequências negativas da situação, proporcionando-lhes o auxílio apropriado”, refere em comunicado.
O Secretário para a Economia e Finanças, Lionel Leong, também manifestou condolências aos envolvidos e deu ainda instruções à DSAL. O organismo apelou aos responsáveis e trabalhadores dos estabelecimentos de restauração que actuem com a “maior cautela” na utilização das instalações e equipamentos de gás, nomeadamente “cumprindo as respectivas orientações e efectuando inspecções periódicas, no sentido de evitar a ocorrência de quaisquer acidentes”.
Por sua vez, o presidente da União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau, Chan Chak Mo, apelou a uma maior iniciativa das autoridades governamentais com vista a elevar a sensibilização junto dos proprietários destes estabelecimentos. “O Governo deve levar a cabo mais inspecções regulares e os donos devem estar mais sensibilizados em relação à segurança do gás butano ou até mesmo dos fogões. A manutenção regular é muito importante”, destacou à margem da reunião da reunião de ontem da 2ª Comissão da AL.
Para o também deputado, prevenir este tipo de acidentes não passa por elevar as multas até porque, segundo entende, a legislação já “é bastante rigorosa”. “As regras já são restritas na medida em que não podem ter mais do que três ou quatro botijas de gás… As multas já são suficientemente elevadas. Sempre que há uma falha à lei eles detectam. A solução passa por que os proprietários dos restaurantes estejam mais atentos e informados sobre as regras de segurança dos equipamentos”, concluiu.
* Com V.C.



