Num balanço do Congresso que assinalou o meio milénio de Camões, Felipe Saavedra falou numa série de parcerias e projectos para o futuro. Entre eles, a criação de um Centro Interpretativo sobre Luís de Camões em Macau e a “a constituição de uma biblioteca de estudos camonianos na cidade”. O organizador, que coordena a Rede Camões na Ásia & África, defendeu ainda um roteiro de turismo cultural centrado no poeta luso, e apelou a que Camões se torne num “símbolo” do território
Catarina Pereira
Os 500 anos do nascimento de Luís de Camões assinalaram-se em Macau, com o Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, organizado pela Rede Camões na Ásia & África. Num balanço sobre os frutos destes dois dias da iniciativa, o organizador, Felipe Saavedra, falou em parcerias, propostas que vão ser feitas e iniciativas que pretendem concretizar – tudo para dar mais visibilidade ao poeta luso.
Desde logo, Felipe Saavedra afirmou que a organização “envidará esforços para o estabelecimento de um Centro Interpretativo sobre Luís de Camões em Macau” e “suscitará a compra de importantes edições antigas das obras de Camões”. Algo que, frisou, a Universidade de Macau, parceira no Congresso, já iniciou, com a aquisição de uma edição de “Os Lusíadas”, de 1613. O objectivo é “a constituição de uma biblioteca de estudos camonianos na cidade”.
Por outro lado, a Rede Camões “convidou ao estabelecimento de um roteiro de turismo cultural com base numa Rede de Localidades Camonianas a constituir, com pontos principais em Macau, Goa, Ternate e a Ilha de Moçambique” e apelou a que Luís de Camões “seja símbolo e ‘marca registada’ de Macau, esteja, aos visível no espaço público e no turismo e marketing” do território.
Além disso, frisou que foram estabelecidas parcerias “muito importantes”, que serão mantidas no futuro, “nomeadamente quanto à realização dos próximos congressos na Ilha de Moçambique e em Goa, que se seguirão aos já realizados em Ternate e em Macau”. Por outro lado, explicou que será proposta a geminação entre a Gruta de Camões em Macau e a Casa de Camões na Ilha de Moçambique.
A iniciativa do Congresso, acredita Felipe Saavedra, “favorecerá o surgimento de uma escola de camonística na Ásia, apoiando particularmente os trabalhos de novos tradutores chineses”. Outra proposta pensada é a de sugerir aos detentores dos direitos a reedição de obras de Luís Gonzaga Gomes e de Graciete Batalha sobre Camões em Macau.
Felipe Saavedra indicou ainda que será prosseguida, com Zhang Weimin, “a tradução das obras de Camões para mandarim, até que a obra completa do poeta em verso e prosa esteja acessível ao público chinês”.
“Macau está medularmente presente na obra e na vida de Luís de Camões. Aqui viveu ele, a partir de 1563, o período mais fecundo do seu labor criativo. Foi este pequeno porto luso-chinês que lhe proporcionou a serenidade e o necessário distanciamento das situações procelosas que antes vivera, como as das expedições ao Mar Vermelho no início do seu périplo asiático, ou a da Guerra Luso-Ternatesa na qual ia perdendo a vida, e que estalou precisamente quando Camões foi enviado, possivelmente como punição, para as ilhas indonésias de Maluku, em 1556”, recordou o docente.
No território, o poeta “veio encontrar não a guerra, mas o amor da bela Dinamene, não a efervescência e as intrigas da corte vicerreinal de Goa, mas um emprego bem remunerado: a provedoria dos defuntos e ausentes”. O organizador do Congresso sublinhou que Camões compôs assim “grande parte” de “Os Lusíadas”, bem como sonetos e outras peças literárias que vamos identificando como pertencendo ao seu período de residência nestas partes da China.
“Por sua vez Macau também não é, nem será, imaginável sem Camões como sua figura cimeira, o maior dos seus escritores e a maior das suas glórias. Desde muito cedo a cidade atraiu poetas e peregrinos que aqui vieram prestar homenagem à sua memória na Gruta de Camões”, apontou Saavedra.
O Congresso decorreu presencialmente na Fundação Rui Cunha, num dos dias, tendo contado com uma série de comunicações de várias partes do mundo, incluindo três de Macau, a cargo de Felipe Saavedra, Rui Pereira e José Carlos Canoa. Também “camonistas com obra muito sólida”, como Telmo Verdelho, Eduardo Ribeiro e Luiza Nóbrega, fizeram intervenções.
Uma das intervenções recordadas por Saavedra foi a de Zhang Weimin, que há mais de 40 anos vem traduzindo a obra de Camões para mandarim. O tradutor, que vive em Portugal, partilhou com o auditório alguns exemplos das dificuldades que enfrentou ao longo desse processo, e anunciou os trabalhos de que se ocupa presentemente, nomeadamente a tradução das odes de Camões, que também estão em curso de tradução para inglês por Spencer Low.
José Carlos Canoa centrou a sua apresentação da história da camonística em Macau nos trabalhos de Luís Gonzaga Gomes, personalidade carismática da comunidade macaense, e no seu papel pioneiro como primeiro tradutor de “Os Lusíadas” para uma língua oriental, neste caso o cantonês.
Já o historiador Eduardo Ribeiro, autor de “Camões em Macau – Uma Verdade Historiográfica”, falou sobre “A tradição e a historicidade da presença de Camões em Macau”, facto “indisputável e hoje inquestionado, do qual o Congresso celebrou também a passagem dos 460 anos”.






