Alguns membros do Conselho para o Desenvolvimento Económico levaram à discussão a possibilidade de Macau vir a importar “croupiers” para fazer face a uma eventual quebra no desempenho do sector do jogo. A política do Governo é de que só locais podem desempenhar essas funções, mas segundo o chefe da Secção de Recursos Humanos do Conselho, Vong Kok Seng, se a indústria continuar a crescer ao ritmo actual, o mercado local “terá dificuldade em satisfazer a procura”

 

Catarina Almeida

 

A eventual alteração da política para os “croupiers” – profissão que apenas pode ser desempenhada por locais – já esteve em discussão, não obstante a posição do Governo sobre esta matéria ser sempre a mesma. Em 2013, Chui Sai On assegurou que durante o seu mandato nunca será alterada a política de que só os locais podem assumir o cargo de “croupier” nos casinos.

Ainda assim, o tema surgiu em debate durante a reunião plenária do Conselho para o Desenvolvimento Económico. Criado em 2007, o organismo consultivo presidido pelo Chefe do Executivo, abordou ontem, pela primeira vez, o tema após a sugestão de alguns membros, disse Vong Kok Seng, chefe da Secção para o Estudo das Políticas de Recursos Humanos.

“Nesta reunião, [o Secretário para a Economia e Finanças] ouviu as opiniões dos membros que falaram sobre o tema da importação de trabalhadores por exemplo de croupiers, porque se o sector do jogo, no futuro, sofrer algumas mudanças e haver menos oportunidades de emprego, será que vai afectar estes ‘croupiers’?”, questionou Vong Kok Seng, à margem da reunião.

Do ponto de vista do responsável, a importação de “croupiers” poderá responder a uma eventual quebra das receitas do jogo, pelo que, caso surja a necessidade de concretizar despedimentos, esses funcionários poderão ser os primeiros a ter de sair da empresa, ao invés dos locais. “Se forem demitidos, como será o destino destes trabalhadores? Será que o sector do jogo tem de pensar nestas situações? Temos muita procura destes trabalhadores mas o próprio sector também tem as suas dificuldades. Se algumas pessoas entrarem nesta carreira por motivos salariais, como será o seu futuro se já tiverem entrado no mercado? Por isso, agora que há mais procura pelos ‘croupiers’ será que o Governo vai ponderar importar trabalhadores do sector do jogo?”, frisou, indicando que o Secretário para a Economia e Finanças, que também esteve presente, não se pronunciou sobre as sugestões.

No final do segundo trimestre deste ano, o sector das lotarias e outros jogos de aposta empregava 56.271 trabalhadores a tempo completo (mais 1% do que no mesmo período de 2017), dos quais 24.062 eram “croupiers”, cujo número subiu 0,3%.

“É sabido que há uma grande procura por ‘croupiers’. Por isso, alguns membros referiram, que durante o processo de desenvolvimento e expansão da indústria do jogo a procura por croupiers tenderá a aumentar, de tal forma que o mercado laboral local terá dificuldade em satisfazer a procura”, estimou Vong Kok Seng.

No passado, o presidente da direcção da Associação de Pequenas e Médias Empresas de Macau, foi uma das vozes favoráveis à importação deste tipo de mão-de-obra. Stanley Au defendeu o recrutamento de não residentes para desempenharem funções de “croupiers”, ainda que sob o pretexto de que os residentes merecem ocupar cargos superiores.

Já em 2014, Steve Wynn, na altura presidente da Wynn Macau, defendeu que as limitações à importação de mão-de-obra já estavam a criar “incertezas” no Mercado. A empresa planeava na altura novos projectos de jogo a abrir nos anos seguintes e, nesse contexto, apontava dúvidas sobre a capacidade do território encontrar trabalhadores suficientes.

Ora, para Vong Kok Seng, “será uma boa ideia definir uma percentagem de ‘croupiers’ que poderão ser importados, o que significa que iria relaxar a procura. E se a indústria do jogo apresentar quebras, que impliquem despedir pessoal, esses croupiers importados serão os primeiros a sair”, rematou.

 

Aperfeiçoar recursos humanos

Outra matéria em cima da mesa durante a reunião de ontem prendeu-se com as políticas gerais relativas aos recursos humanos. Segundo Vong Kok Seng, o Governo deve definir políticas a “longo prazo” que se coadunem melhor com as “necessidades de desenvolvimento de Macau porque os recursos humanos são muito importantes para os diferentes sectores”, nalguns dos quais há, inclusive, escassez. “Nalguns sectores com muita falta de recursos humanos, [o Governo deve considerar] importar adequadamente trabalhadores e esperamos que esta medida de importação possa ser aperfeiçoada”, disse, numa referência ao regime de introdução de quadros de alta qualidade que será objecto de estudo pela Comissão de Desenvolvimento de Talentos.

Para o chefe da Secção de Recursos Humanos, é necessário “criar algumas condições de desenvolvimento através da importação de recursos humanos melhorando algumas condições como, por exemplo, o prazo de contratação” que, actualmente, balança entre um a dois anos. “Por norma, o tempo para contratar pessoal do exterior implica um a dois anos. Mas nalgumas áreas profissionais é necessário mais tempo […] porque alguns – de alto nível profissional – têm de se despedir dos actuais empregos para vir para Macau, com um contrato de um a dois anos o que não é suficiente” para que considerem a proposta.

Por outro lado, alguns membros defenderam a aposta em “condições para que os patrões possam melhor “incentivar os trabalhadores a participarem em formações e assim formar trabalhadores qualificados, multi competentes que se consigam adaptar à mudança de sectores, bem como satisfazer à procura dos recursos humanos nos diversos sectores”, explicou Vong Kok Seng.

Foi também referida a necessidade de apoiar os jovens locais por forma a que consigam desenvolver as suas carreiras. “O melhor é dar algumas oportunidades para obterem experiências nas suas carreiras, para participarem em diferentes trabalhos e assim estarem mais preparados quando entrarem no mercado de trabalho”, disse.

“Pedimos ao Governo para prestar mais atenção aos sectores onde mais faltam recursos humanos como por exemplo quadros bilingues e medicina tradicional chinesa, motoristas, alguns trabalhadores da construção civil e também sectores de serviços que também têm muita falta de pessoal. Esperamos que o Governo possa tomar mais atenção a esta matéria, e determinar algumas medidas benéficas em relação a esta matéria”, concluiu.

 

Cloee Chao alerta para potenciais conflitos entre casinos e trabalhadores

Para a presidente da Associação para os Direitos dos Trabalhadores do Jogo,  a sugestão de importar “croupiers” tem como objectivo “evidente provocar conflitos entre os casinos e os trabalhadores”. “Essas sugestões são disparates porque o Chefe do Executivo, Chui Sai On, já tinha prometido o princípio da não importação de ‘croupiers’. Por isso, é óbvio que as pessoas que falaram disto têm outra intenção de transmitir palavras ao próximo Chefe do Executivo”, disse Cloee Chao, à TRIBUNA DE MACAU. Na perspectiva da dirigente associativa, mesmo que a intenção de abrir caminho para a contratação no exterior vise garantir que, em caso de constrangimento financeiro da indústria, sejam os não-residentes a sofrer em primeira instância os despedimentos, “muitos antigos ‘croupiers’ que tiveram de deixar o posto devido a diversas razões […] ainda não conseguiram voltar a fazer o mesmo trabalho”. “Apesar de alguns casinos abrirem vagas de recrutamento de ‘croupiers’, o número foi muito limitado e apenas poucas pessoas acabaram por ser admitidas”, afirmou. Aliás, para Cloee Chao, a falta de mão-de-obra local não se coloca porque “se um casino abrir uma feira de emprego, com certeza que entre 2.000 e 3.000 residentes vão concorrer a essa oportunidade”.

 

R.C.