A dedicação profissional dos medalhados é também acompanhada de conselhos construtivos ao Governo, com Tang Kwong Yui, chefe de serviço na unidade psiquiátrica do hospital público a sugerir a criação de um sistema legal para a importação de especialistas do exterior por curtos espaços de tempo. Ngou Kuok Lim, Chio U Lok e Vong Se Peng, que integram outros serviços públicos, frisaram ontem a importância das equipas com que trabalham para a obtenção do reconhecimento
Salomé Fernandes
Entre as personalidades que hoje serão agraciadas com medalhas de dedicação encontram-se Tang Kwong Yui, Ngou Kuok Lim, Chio U Lok e Vong Se Peng. Desempenharam actividades em vertentes diferentes, mas cuja competência profissional valeu este reconhecimento. Em entrevista aos meios de comunicação, nem todos se limitaram a um discurso de agradecimento.
Evidência disso foram as sugestões dadas por Tang Kwong Yui, chefe de serviço na unidade psiquiátrica do Centro Hospitalar Conde São Januário. “Se pudéssemos mudar alguma da legislação, para ser mais flexível de forma a trazer pessoal, era muito importante. Ou então podemos ter outra lei para os deixar exercer durante períodos de tempo mais curtos. Seria útil para todo o sistema de Macau”, afirmou.
Para o profissional, que garante que sem saúde mental não há saúde, uma vez que o psicológico e o físico estão unidos, a falta de recursos humanos no ramo da psiquiatria é lamentável. “Há um número de turistas que vêm cá todos os anos e lidamos com um número elevado de pacientes, mas não há recursos adicionais para usarmos. É uma pena”.
Apesar das dificuldades no recrutamento de pessoal do exterior, Tang Kwong Yui, que se formou na Universidade Médica de Kaohsiung, já apoiou a vinda de mais de 10 profissionais de Taiwan para prestarem serviços em Macau. Algo que se torna necessário dada a ausência de uma Academia de Medicina que promova a formação de médicos a nível local. Por outro lado, os médicos que já se encontram no hospital público estão demasiado ocupados para conseguirem receber formação, mesmo quando querem aprender coisas novas.
Ngou Kuok Lim
Grandes necessidades na saúde foram originadas com o rápido aumento da população e o acolhimento de mais de 30 milhões de visitantes, apontou, indicando que o sector do jogo acaba por afectar tanto residentes como turistas. “Se uma pessoa investiu demasiado dinheiro no jogo também pode causar problemas. Nomeadamente porque perdeu o dinheiro e não tem coragem de enfrentar a família. No meu serviço encontro sempre este problema, quer de residentes quer de turistas. Precisamos de mais pessoal de saúde”, comentou.
Na base da sua justificação, está o facto do número actual de pessoal de saúde ainda não ter atingido os critérios da Organização Mundial de Saúde, já que em Macau há apenas quatro médicos por cada 10.000 utentes. O médico de 70 anos agradeceu ao Governo da RAEM a sua “importação” para Macau e o reconhecimento que agora lhe foi dado. O Executivo tinha justificado a sua selecção pela “competência e lealdade que mostrou no trabalho” bem como pela importância que dispensa aos pacientes e o domínio de boas técnicas de comunicação com os familiares dos mesmos.
Tang Kwong Yui acredita existir em todo o mundo alguma resistência a esta temática, havendo quem não aceite que tem um problema mental. Também por isso valoriza que actualmente o hospital disponha de um grupo de trabalho que sai para junto da comunidade de forma a descobrir casos de pessoas vulneráveis.
“Gostaríamos que todos soubessem que quem precisa de ajuda psicológica pode entrar a qualquer hora em qualquer centro de saúde, mesmo sem consulta, e se precisarem de ajuda imediata são referidos para o hospital. Em Macau nenhum utente psiquiátrico tem de esperar para receber apoio”, frisou.
Sublinhado o trabalho de equipa
Vong Se Peng
Ngou Kuok Lim, que ocupa o cargo de chefe do Departamento do Sistema Informático das Forças de Segurança de Macau fez questão de agradecer à sua equipa de trabalho, salientando que “esta imposição de medalha tem um significado muito essencial para nós e representa o impulso e motor, como um departamento de logística em matéria de apoio técnico, em prol dos cidadãos e do público de forma indirecta”.
Garantindo a continuidade no empenho aos trabalhos para dar contributos à sociedade, frisou que a prestação de um serviço contínuo nos postos fronteiriços e do bom funcionamento dos equipamentos exigiu “dedicação, abnegação e espírito de sacrifício, nomeadamente nos feriados e dias festivos”.
Entre os projectos que ajudou a desenvolver encontra-se o sistema para processamento dos pedidos de autorização dos trabalhadores não residentes, bem como o sistema de relatório imediato de incidentes no âmbito da protecção civil, que foi recentemente actualizado para “Plataforma de Comando para Resposta a Emergências”.
Também Vong Se Peng, que ingressou na Direcção dos Serviços de Economia (DSE) em 1990, agradeceu não apenas ao Governo mas também aos seus colegas e amigos. “Esta medalha é tanto uma afirmação do meu trabalho ao longo dos 30 anos na DSE como um reconhecimento dos serviços que a DSE tem prestado à pequenas e médias empresas. Acho que este reconhecimento não é só para mim mas também para os meus colegas que trabalham em conjunto para implementar as políticas definidas pelas autoridades”, frisou.
Em 2003 foi transferido para o Departamento de Desenvolvimento das Actividades Económicas, assegurando a execução de políticas como o Plano de Apoio a Pequenas e Médias Empresas, sendo que até ao presente tratou mais de 5.000 pedidos de apoio aos sectores industrial e comercial.
O Governo salientou também o seu “espírito de servidor e de grande profissionalismo” perante o volume de trabalho no decorrer do tufão “Hato” e dos apoios prestados posteriormente. “Enfrentei grandes dificuldades e pressão e precisei da ajuda da equipa”, reconheceu Vong Se Peng. Na altura, decorrido mais de um mês, a DSE recebeu mais de 21.000 pedidos de apoio.
Foi por zelo, diligência e rigor que Chio U Lok foi consagrado com a medalha de dedicação. O auxiliar da Direcção dos Serviços de Identificação (DSI) reconheceu que quando começou a trabalhar nunca pensou receber um prémio ou uma medalha. É responsável pela salvaguarda e recuperação dos arquivos e documentação, bem como prestação de serviços na linha da frente.
Chio U Lok
Entre os maiores desafios aponta o início da sua carreira, já que “na altura os processos não estavam tão ordenados como hoje em dia, em cada verso era preciso colar um autocolante para efeitos de registo, havia muitos processos e o volume de trabalho muito grande”. “Tem havido cada vez mais processos com o aumento do número de cidadãos e há também falta de espaço para suportar tanto trabalho e o arquivo”, declarou.
Uma das histórias mais marcantes surgiu assim, quando houve a necessidade da DSI mudar do Senado para o Edifício China Plaza, onde actualmente se localiza. “Eram muitos trabalhos a acumular ao mesmo tempo, para além dos trabalhos diários dentro do horário de expediente tínhamos também nos horários pós-laborais assegurar os trabalhos de mudança, transportar os processos. E todos os trabalhos, devido à confidencialidade e rigorosidade, foram árduos”, recordou.
No entanto, descreve que o “Governo inteligente” tem ajudado, ao evitar que todos os cidadãos tenham de ir para a fila para fazerem os seus pedidos, algo que requeria recursos humanos e tempo.



