Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa o espaço do Canídromo chegou a ser, provisoriamente, utilizado como prisão devido à chegada a Macau de muitos refugiados do conflito entre os dois países, nem todos bem intencionados. A TRIBUNA DE MACAU recorreu ao Arquivo Histórico para recordar melhor esta fase da história de uma infra-estrutura cujo desenvolvimento teve vários altos e baixos. Para a memória ficam todas as suas valências

 

Inês Almeida

 

A abertura de um Canídromo em Xangai, em 1928, e a sua crescente popularidade levou a que se começasse a pensar que um espaço do mesmo género teria sucesso em Macau. Foi assim que, em 1931, Fan Che Pang, um empresário do território, se aliou a investidores norte-americanos e chineses para fundar o “Macau Canine Club” e inaugurar o Canídromo.

As primeiras corridas de galgos realizaram-se na Ilha Verde, no espaço aí construído. A inauguração foi um acontecimento importante a que não faltaram os panchões e uma orquestra feminina americana com um vistoso uniforme.

A edição do jornal “A Voz de Macau” de 1 de Janeiro de 1932 conta que o espectáculo estava agendado para as 21:00 e previa-se uma grande afluência de público, pelo que foi preparado um serviço especial de camiões que partiam do antigo Leal Senado de cinco em cinco minutos, além de um serviço de restaurante que servia jantar por duas patacas e meia. Quem estava inscrito como sócio podia levar dois convidados. Outras pessoas deveriam pagar uma pataca para acesso ao recinto dos sócios e quarenta avos para o local destinado ao público em geral.

Porém, o entusiasmo do público foi desvanecendo, ou porque as noites eram demasiado frias, embora a organização dispusesse de braseiras, ou, provavelmente, devido ao preço das entradas, muito elevado para o nível médio de vida, levando a que a organização das corridas de galgos entrasse em crise, acabando por fechar as portas.

Em 1938, o espaço que nunca conseguiu atingir um sucesso comparável ao de Xangai, acabou por encerrar. Mas tal não significa que tenha ficado vazio ou caído em desuso. A TRIBUNA DE MACAU foi ao Arquivo Histórico para reavivar o que sucedeu ao Canídromo após o encerramento provisório no final da década de 30.

Em 1937 rebentou a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Apesar de existirem conflitos entre as duas nações desde 1931, a guerra em larga escala começou em Julho de 1937 e terminou apenas com a rendição do império japonês aos Aliados em Setembro de 1945. O choque foi motivado sobretudo pela intenção de anexação de territórios chineses por parte do Japão. Isto levou a que milhares de pessoas oriundas da China Continental fugissem para Macau.

João Botas, que escreveu o livro “Macau 1937-1945: os anos da guerra”, recorda que o Canídromo “foi um dos vários espaços utilizados em Macau para albergar milhares de pessoas que se refugiaram no território, fugindo da guerra, a maioria oriunda da China”. “Nesse período de tempo as corridas foram suspensas e sob as bancadas foram instalados dormitórios, cozinhas, refeitórios”, destacou à TRIBUNA DE MACAU.

Páginas amareladas, corroídas pelos anos, letras negras, por vezes esborratadas, redigidas à máquina de escrever, guardadas em microfilme, contam outras histórias desse tempo, referindo, por exemplo, a altura em que as autoridades quiseram utilizar os antigos canis do Canídromo como prisão.

Uma carta dirigida ao chefe da repartição central dos Serviços de Administração Civil, datada de 8 de Dezembro de 1938, carimbada pelo Comando da Polícia de Segurança Pública, e assinada pelo Comandante Carlos de Sousa Gorgulho lança a ideia que pretende fazer chegar ao Governador, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa.

No documento, escrito no Português da época, pode ler-se: “O acréscimo de população derivado do conflito sino-nipónico é enorme, trazendo como consequência paralelamente o número de vadios e mendigos que infestam as ruas de Macau. As rusgas feitas a vadios e mendigos levaram às prisões da polícia cerca de 670 indivíduos de ambos os sexos. Entre eles, encontravam-se cerca de 180 cadastrados. As prisões de toda a polícia e esquadras só comportam, no máximo, 50 pessoas. Por aqui se vê como uns locais para cerca de 60 pessoas tiveram de receber 670”.

Carlos de Sousa Gorgulho destaca, então, que “é apavorante o estado deplorável como se achavam alojados estes indivíduos”. “Dois dias depois destes factos houve necessidade de soltar, contra todos os princípios, indivíduos que nunca o deveriam ser, mas, as necessidades a isso obrigaram, enviando-os para a Lapa, os quais algumas horas depois voltaram a ser vistos em Macau”. No entanto, “há cerca de 200 indivíduos que carecem ser desde já alojados”. “Precisa-se de um local onde se possam alojar 200 a 300 indivíduos imediatamente e dentro da cidade, de modo a que possam ser ouvidos e interrogados diariamente”, indica.

“Para resolução deste caso, propõe este Comando a utilização dos antigos canis do Canídromo, que depois de pequenas reparações, podem ser utilizados com enormes vantagens para esse fim. Poder-se-ia fazer daquele local um campo de concentração debaixo do controlo da Polícia de Segurança Pública, que seria responsável pela administração, disciplina, asseio, etc”, refere o documento datado de 1938.

Para o Comandante, este “é o único processo para se resolver imediatamente este assunto que urge, devido ao estado deplorável dos presos nas acanhadas prisões do Comando da Polícia de Segurança Pública”.

 

Um assunto urgente

Por fim, Carlos de Sousa Gorgulho deixa “ao critério” do Governador “a resolução deste assunto” que julga “de urgente necessidade”. Caso Artur Tamagnini de Sousa Barbosa concordasse, foi também sugerido o envolvimento do director da repartição técnica das Obras Públicas na “útil obra social”.

É o chefe da repartição central dos serviços de administração civil, Luís de Menezes Alves, que faz chegar a mensagem à repartição técnica das Obras Públicas numa nota datada do dia seguinte, 9 de Dezembro. No canto superior esquerdo da carta enviada está a palavra “URGENTE”. Por baixo de uma transcrição da carta enviada por Carlos de Sousa Gorgulho, Luís de Menezes Alves escreve: “O assunto exposto é de urgente resolução e parece-me de aceitar, por falta de melhor local e mais apropriado, mas vossa excelência resolverá”.

Ainda no mesmo dia chega o aval de Artur Tamagnini de Sousa Barbosa ao Comandante da Polícia de Segurança, numa carta assinada pelo chefe da repartição central dos serviços, Luís de Menezes Alves. Também esta mensagem vem marcada como “URGENTE”, no canto superior esquerdo.

“Comunica-se que o Governador concordou com a sugestão de se aproveitarem os canis do Canídromo para prisões enquanto não se arranjar local mais apropriado para este fim. Nesta data foi enviada igual comunicação para o chefe da repartição técnica das Obras Públicas para que preste a sua valiosa colaboração”. Também esta carta termina com a expressão que determinava obrigatoriamente o final de todos os documentos oficiais durante o período do Estado Novo: “A Bem da Nação”.

 

O renascer das corridas

Em Julho de 1961, o então Governador Jaime Silvério Marques aprovou o diploma legislativo que regularia a concessão, através de concurso público, da exploração dos jogos de fortuna ou azar, nessa altura já legalizados. O “site” da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos refere que logo no mês a seguir um chinês de nacionalidade indonésia, Cheung Kuan Pau, obteve autorização para a reorganização das corridas de galgos. A concessão foi concedida por um período de oito anos.

Assim, depois de 25 anos de interrupção das corridas de galgos, em 1963, são publicados pela repartição provincial dos Serviços de Administração Civil os Estatutos do Canídromo Clube de Macau. Um ano antes, tinha sido registada a empresa que o gere. “Certifico que a Macau (Yat Yuen) Canidrome Company Limited fica registada no dia de hoje em Hong Kong”, refere um documento que aponta como data oficial do registo o dia 1 de Novembro de 1962.

“A companhia constitui-se para os fins de condução de negócio de corridas em todos os seus ramos, particularmente o planeamento e preparação de quaisquer terrenos para a realização de corridas de galgos, de obstáculos, ou de quaisquer outras espécies; Para a evolução e passagem em revista de tropas ou para qualquer espécie de desportos atléticos”, indica o documento assinado em Hong Kong a 30 de Outubro.

A empresa ficou incumbida de “construir uma tribuna principal e outros ‘guichés’, acomodações para galgos e outros animais, canis, recintos para exercício dos animais, salas para refrescos e outras construções, edifícios e facilidades, quer de carácter permanente, quer temporário”, além de “adquirir, manter, alimentar, treinar, vender e transaccionar galgos entre outros animais”.

No início do seu funcionamento, o capital social da sociedade era de cinco milhões de dólares de Hong Kong, dividido em 500.000 acções de 10 dólares cada.

A 21 de Fevereiro do ano seguinte, 1963, foi dirigida uma carta ao governador, António Adriano Faria Lopes dos Santos, referindo que “Frederick Hui, na qualidade de presidente do Canídromo Clube de Macau, que se pretende fundar nesta Província, com sede no Campo 28 de Maio, tendo elaborado de harmonia com as disposições legais vigentes os estatutos que hão-de reger a vida da referida colectividade, vem submetê-los a apreciação, requerendo a sua apreciação”.

A 5 de Março, a secção permanente do conselho do Governo deu parecer favorável à aprovação dos estatutos do Canídromo. A publicação dos estatutos em Boletim Oficial aconteceu a 16 de Março de 1963, destacando que o Clube, cuja actividade se desenvolve principalmente tudo quanto se relaciona com corridas de galgos, tem os seguintes fins: “promover, difundir e desenvolver a prática de corridas de galgos em Macau, cooperar em tudo quanto se relaciona com as corridas de galgos, promover e organizar para recreio dos seus sócios saraus, reuniões e qualquer forma de diversão permitida em outras organizações congéneres”.

Ficou também definido que “o Clube é inteiramente alheio a qualquer actividade política ou religiosa e, bem assim, a qualquer forma de actividade relacionada com a gerência, serviços, receitas, despesas e escrituração comercial da empresa que actualmente explora as corridas de galgos”.

Este contrato foi posteriormente revisto em 1965, 1976, 1979, 1988 e 1999, aquando da transferência de soberania. A concessionária comprometeu-se sempre, além do pagamento de uma renda anual, a proceder a um plano de investimento no recinto e a participar, ao longo do período da concessão, em obras de fomento e de carácter social.

As corridas de galgos iniciaram-se a título experimental a 8 de Agosto de 1963, com 300 cães encomendados na Austrália. A Yat Yuen foi a primeira empresa deste género a estabelecer-se no Oriente. A inauguração oficial das corridas e do, ao tempo, moderno totalizador de apostas australiano aconteceu a 28 de Setembro de 1963, pelo então Encarregado do Governo, Tenente-Coronel Carlos Armando Mota Cerveira.

Foram sobretudo cidadãos de Hong Kong a acorrer às corridas e apostas. O jornal “Notícias de Macau” refere na edição de 30 de Setembro desse ano que estes visitantes conseguiram encher todos os hotéis do território. As deslocações entre Macau e Hong Kong eram facilitadas pelas viagens extras de dois barcos que faziam habitualmente o percurso, o Tai Loye e o Fatshan.

 

História com ponto final

A última corrida de galgos na pista do Canídromo teve lugar a 30 de Junho deste ano. João Botas acredita que o encerramento do espaço, marcado para hoje, “significa o fim de um ciclo”. Para a história deve ficar tudo, “o bom e o menos bom”. “É mais uma marca de Macau que desaparece, como tantas outras, sendo que no caso não me parece uma perda significativa”, indicou o autor do blogue “Macau Antigo” numa resposta à TRIBUNA DE MACAU.

“As corridas de cães eram apenas uma das valências do espaço que espero que continue a ser, remodelado se possível, o recinto desportivo para múltiplas modalidades. Pessoalmente, tenho boas memórias do espaço já que ali joguei futebol e conquistei, juntamente com o resto da equipa, alguns títulos, quer ao serviço de clubes, quer da selecção do Liceu”, recordou.

A actividade do Canídromo chega hoje ao fim depois de durante vários anos serem promovidas iniciativas e petições “online” para o efeito, assinadas por centenas de milhares de pessoas, dentro e fora de Macau. Os principais motores destas acções foram associações de defesa dos direitos dos animais que viam o Canídromo como a “pior” pista de corridas do mundo.

 

CRONOLOGIA

 

1931 – Fan Che Pang, um empresário de Macau, alia-se a investidores da China e dos Estados Unidos para inaugurar o Canídromo

 

1938 – Canídromo fecha portas. No final desse ano, devido ao acréscimo de população que chega a Macau por consequência da II Guerra Sino-Japonesa, o Comando da Polícia de Segurança Pública sugere ao Governador a utilização dos antigos canis do Canídromo para prisões

 

1940 – Inaugurado o Campo 28 de Maio, com capacidade para 2.200 pessoas

 

1962 – No dia 1 de Novembro, é oficialmente registada a Macau (Yat Yuen) Canidrome Company Limited

 

1963 – As corridas de galgos iniciaram-se, a título experimental, no dia 8 de Agosto. A inauguração oficial deu-se a 28 de Setembro

 

1988 – O contrato de concessão é revisto tendo em conta que a actividade não tem registado “o desenvolvimento verificado noutras modalidades”.

 

2010 –  A quebra das receitas das corridas de galgos acentua-se.

 

2016 – Concessão das corridas é prolongada até 20 de Julho de 2018

 

2018 – Canídromo encerra portas em definitivo a 20 de Julho, com o término do prazo do contrato de concessão

 

A invasão dos “indocumentados”

No final de Março de 1990, o Canídromo também esteve no centro das atenções pelo facto de cerca de 40 mil pessoas se terem ali concentrado, no âmbito de uma gigantesca operação de legalização de imigrantes, após manifestações de milhares de indocumentados que exigiam cédulas de identificação. “O clima de tensão bem evidente durante largas horas, de início no centro da cidade e depois junto à fronteira, foi-se esbatendo com o correr da manhã, à medida que os clandestinos iam sendo registados pelas autoridades que montaram ‘quartel general’ nos campos do Canídromo e da Polícia, onde acabou por se concentrar a grande maioria dos indocumentados que desde terça-feira à rua para exigirem a atribuição de cédulas de identificação policial”, indicava a edição de 29 de Março de 1990 do Jornal de Macau. A concentração de clandestinos nas ruas tinha começado dois dias antes, após as Forças de Segurança de terem anunciado a intenção das autoridades de legalizar os pais em situação irregular de cerca de 4.200 menores que em Janeiro do ano anterior tinham recebido documentos de identificação, numa iniciativa conhecida por “Operação Dragão”. A notícia espalhou-se rapidamente, levando muitas famílias de clandestinos não contempladas no plano de legalização a exigirem igualdade de tratamento.