O desenvolvimento económico dos últimos 19 anos foi caracterizado por um crescimento exponencial após a liberalização do jogo que fez “disparar” os visitantes e as receitas públicas. Os números falam por si: se em 2001 a RAEM recebeu quase 10 milhões de visitantes, em 2018, esse valor foi ultrapassado em apenas quatro meses

 

Inês Almeida

 

Actualmente, “a economia continua a registar melhorias com uma baixa taxa de desemprego e estabilidade financeira, e verifica-se um aumento da qualidade de vida da população”, garantiu Chui Sai On na apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) para 2019. Esta postura é manifestamente distinta da de Edmund Ho que, ao assumir a posição de primeiro Chefe do Executivo da RAEM, teve de dar resposta a problemas numa economia que atravessava “tempos difíceis”. “Volvidos mais de 10 meses desde a criação da RAEM, a economia começa a ver a luz ao fundo do túnel”, defendeu na apresentação das LAG para 2001.

“É como se fosse uma pessoa a recuperar de uma doença longa e que ainda se encontra muito fraca. A atmosfera de movimentação e animação intermitente do mercado não traduz o surgimento imediato de uma recuperação global contínua. A possibilidade de sobrevivência de alguns sectores de actividade e a exploração ainda difícil de outros são situações que persistem”, alertou o então Chefe do Executivo.

No mesmo ano, a Assembleia Legislativa aprovou o orçamento para 2001, avaliado em 13,52 mil milhões. Desde então, a evolução foi substancial: a despesa prevista para 2019 é de 103 mil milhões.

O ano de 2001 foi um ponto chave para a liberalização do jogo e para a evolução da economia. O Governo decidiu conceder três licenças de exploração do jogo e a 7 de Dezembro ficaram concluídos os trabalhos de aceitação das 21 propostas.

Foi a partir daí que a economia floresceu. Em 2001, o Produto Interno Bruto (PIB) fixou-se em 54,72 mil milhões. Este ano, só no terceiro trimestre atingiu 106,60 mil milhões. Para tal contribuíram vários factores. O aumento das receitas do jogo foi apenas um deles. Em 2002, as receitas brutas dos casinos cifraram-se em 22,18 mil milhões, mas dois anos depois, com a liberalização de facto do sector, quase duplicaram para 41,38 mil milhões, valor muito distante do apurado nos primeiros 11 meses deste ano: 276,27 mil milhões.

 

Visitantes sempre em alta

Para tal contribuiu também a subida do número de visitantes. Em 2000 entraram 9,16 milhões de pessoas. Ao contrário do que acontece actualmente, em termos de local de origem Hong Kong dominava com 4,95 milhões de visitantes. Do Continente vieram 2,27 milhões de pessoas e de Taiwan 1,31 milhões.

Só nos primeiros quatro meses de 2018 contabilizaram-se 11,5 milhões de visitantes, mais do que o total de 2000. Entre Janeiro e Outubro deste ano, o fluxo turístico ascendeu a 28,96 milhões. Mais de 20,5 milhões de pessoas vieram da China Continental, 5,05 milhões de Hong Kong e 885,8 mil de Taiwan.

Por sua vez, as estatísticas referentes às excursões e à ocupação hoteleira mostram que no ano de 2000 chegaram à RAEM, através de agências de viagens, 1,49 milhões de pessoas. No final do ano, a taxa de ocupação hoteleira foi de 57,57% e havia 9.201 quartos disponíveis. As unidades hoteleiras receberam 2,68 milhões de hóspedes no cômputo geral do ano.

Os mais recentes números de 2018 contam uma história muito diferente: nos primeiros 10 meses chegaram à RAEM, através de excursões, mais de 7,28 milhões de pessoas. A maioria veio da China Continental (5,66 milhões).

No final de Outubro existiam 116 hotéis e pensões, com um total de 39.000 quartos, 63% dos quais em unidades de cinco estrelas. Nos 10 primeiros meses, alojaram-se 11,64 milhões de pessoas nos hotéis, correspondendo a uma taxa de ocupação de 90,4%.

 

Crescimento que ninguém antevia

O “boom” económico nos últimos 19 anos atingiu uma dimensão que ninguém adivinharia no início da RAEM, acreditam economistas.

“A economia mudou radicalmente porque se alterou o contexto em que ela operava. A estrutura de base continua a ser o jogo, agora, o facto de Macau ter podido começar a contar a partir da recessão de 2002/2003 com um número crescente de visitantes da China, alterou completamente os parâmetros de operação da economia”, defendeu José Isaac Duarte em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

Questionado sobre se, logo de início, devia ter havido investimento noutras áreas, o economista apontou que “as questões do investimento por decreto não funcionam”. “A RAEM tem uma especialidade muito particular que resulta de uma decisão política de manter o jogo legal na China apenas aqui e isso é uma vantagem”. “A grande máquina de fazer dinheiro é o jogo e os sectores-satélite associados ao imobiliário. Fora destes sectores não se vê, à partida, nenhuma actividade que seja tão atractiva em termos do seu potencial”, acredita José Isaac Duarte.

“Agrava a situação que todos os sectores que não sejam estes, hoje são confrontados com dois bloqueios brutais, o da força laboral e o dos custos do imobiliário. Não é fácil abrir novos negócios, apostar em novas tecnologias ou ideias, tendo uma situação em que dois recursos que são fundamentais, como o espaço e mão-de-obra, estão a níveis proibitivos para as pequenas empresas. A solução acaba por ser ficar sempre dependente de apoios estatais e outros que vêm do orçamento”, entende o economista.

Nos primórdios da RAEM, antecipava-se uma melhoria económica, embora não tão expressiva. “A situação era antecipável em termos da sua expansão, foi por isso que os operadores internacionais vieram para cá. Se não lhes tivessem sido dadas garantias de que havia possibilidade deste desenvolvimento, eles não tinham vindo. Havia muita coisa que era previsível, outras que não eram. Temos andado sobretudo a reboque dos acontecimentos”, acredita José Isaac Duarte, ressalvando que ninguém adivinhava que a economia cresceria com esta dimensão.

Por sua vez, José João Pãosinho fala de um crescimento “excepcional” da economia, devido à liberalização do jogo e à política dos vistos individuais. “Acresce a este facto que, no período da transição, temos a Ásia mergulhada numa crise profunda, a crise das dívidas asiáticas, que começou coma Tailândia, depois a Coreia do Sul e a Malásia. Quando é feita a transição, é exactamente o ponto baixo da economia local”, começou por referir o economista.

“Se alguém disser que previu, em 1999 ou em 2000, que o crescimento atingiria estes níveis, não estará certamente a ser totalmente exacto porque julgo que apanhou toda a gente de surpresa, incluindo as autoridades que tomaram estas decisões”, considerou.