Se o Executivo quiser, de facto, incentivar o uso de motociclos movidos a electricidade terá de pensar numa forma de baixar o seu custo ou conceder apoios à aquisição, uma vez que o preço elevado é considerado o maior obstáculo à sua compra. Os resultados são de um estudo da autoria de académicos da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau que defendem ainda uma maior aposta na educação ambiental direccionada para estes veículos, dada a falta de conhecimento verificada nas respostas dos condutores de motociclos
Inês Almeida
Ainda há um longo caminho a percorrer para incentivar a utilização de veículos mais ecológicos, em particular motociclos movidos a electricidade, cujo uso só aumentará quando se tornarem mais baratos ou o Governo conceder apoios à compra, referem as conclusões de um estudo efectuado por Lichao Zhu, Qingbin Song, Ni Sheng e Xiu Zhou da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (UCTM) a que a TRIBUNA DE MACAU teve acesso.
A investigação intitulada “Explorando o que determina a vontade de comprar e vontade de pagar por motociclos eléctricos usando o método CVM em Macau” concluiu que, embora muitos dos inquiridos estivessem dispostos a adquirir este tipo de veículos, essa vontade diminuía a partir do momento em que eram confrontados com o seu custo. “Aquando da compra dos motociclos eléctricos, os inquiridos prestavam mais atenção ao seu custo verdadeiro, como o preço de venda, custos de carregamento, reparação e incentivos fiscais, enquanto as características do produto como a velocidade e a capacidade de carga atraíram muito pouca atenção”.
Em termos mais concretos, “quando questionados sobre se estariam dispostos a comprar motociclos eléctricos, 66,8% dos inquiridos disseram que sim”. “No entanto, no que se refere à vontade de pagar por motociclos eléctricos, o volume de inquiridos que responderam ‘sim’ caiu para 45%”. A razão mais frequentemente apontada por aqueles que não estavam dispostos a pagar pelos veículos mais ecológicos prendia-se com o facto de considerarem que o seu salário actual é “insuficiente para cobrir os custos”.
A média de preço que os inquiridos estavam dispostos a pagar fixou-se em 1.135,5 patacas, indicam os académicos, sublinhando que este valor tinha maior propensão para aumentar tendo em conta questões de segurança, o nível de formação dos inquiridos, o número de anos que vivem em Macau e o salário auferido. Por outro lado, verificava-se uma tendência decrescente com o avançar da idade. O actual preço médio dos motociclos eléctricos ronda as 8.000 patacas.
Até ao terceiro trimestre de 2018 havia 74 motociclos ou ciclomotores eléctricos em circulação nas estradas de Macau, indicam dados da Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego.
Tendo por base as conclusões da investigação, os académicos sugerem que “o Governo e partes interessadas devem fazer mais publicidade e investir na educação para aumentar o conhecimento dos consumidores sobre os motociclos eléctricos”. No entanto, uma vez que inquiridos prestam sobretudo atenção aos custos associados a este tipo de veículos é preciso que a Administração e outras partes interessadas pensem sobre como “diminuir o custo dos motociclos eléctricos como primeiro passo para os promover”.
“O Governo pode providenciar alguns subsídios e políticas preferenciais como um ‘Fundo de Promoção dos Motociclos Eléctricos’ para reduzir a diferença de preço” entre os motociclos regulares e os eléctricos.
“Test drives” e mais educação ambiental
Além disso, os autores do estudo entendem que o Executivo deve dar o exemplo. “Ao mesmo tempo, o Governo devia assumir a liderança na compra de motociclos eléctricos como demonstração e melhorar a construção de infra-estruturas para motociclos eléctricos”. Por sua vez, os vendedores deste género de veículos têm de apostar mais na organização de actividades como lançamento de produtos e “test drives” públicos como forma de atrair potenciais compradores. Entre os conselhos deixados pelos académicos salienta-se ainda que os vendedores devem aperfeiçoar os serviços de reparação, manutenção e os que dizem respeito à “experiência” oferecida aos clientes.
Uma vez que os consumidores com maiores níveis de formação académica ou salários mais elevados serão mais propensos a adquirir motociclos eléctricos, “empresas e Governo devem alimentar atitudes positivas dos consumidores através de comunicação e campanhas que enfatizem a poupança”. “É ainda necessário enriquecer a educação elementar em protecção ambiental para criar hábitos de consumo ecológicos desde a infância”, acreditam os académicos da UCTM.
Neste âmbito, concluíram os académicos, no geral, os inquiridos tinham um conhecimento “relativamente baixo” sobre motociclos eléctricos. Embora a maioria soubesse que são veículos mais amigos do ambiente, poucos prestaram atenção a outras características como a duração da bateria, a segurança e os custos de manutenção e reparação. O preço de venda foi o primeiro tido em consideração. “Possíveis razões para a observada falta de compreensão relativamente aos motociclos eléctricos terão a ver com o facto de os condutores ainda não terem experiência com motociclos eléctricos e de o Governo não ter medidas eficientes para os promover”, defendem.
O estudo foi feito tendo por base as respostas a 413 questionários distribuídos a condutores de motociclos nos sete distritos de Macau. Entre o total de inquiridos, 29,1% defenderam que o seu salário actual é insuficiente para cobrir os custos associados aos motociclos eléctricos e 20,7% acreditam que as empresas devem ficar responsáveis por algumas das taxas cobradas aos consumidores.
Por outro lado, note-se que 14,9% dos condutores visados pelo estudo acreditam que “o Governo deve ser responsável pelos problemas da poluição atmosférica” e 10,1% “têm pouca confiança na capacidade de controlo da poluição atmosférica tendo em conta a política ambiental actual”. Ao mesmo tempo, 9,3% dos inquiridos acreditam que as emissões de escape e a poluição sonora dos motociclos que recorrem a combustíveis fosseis têm “pouco impacto” na sua vida.
O questionário que deu origem ao estudo tinha cinco partes diferentes. A primeira pretendia compreender a percepção dos inquiridos em relação às condições ambientais de Macau. A segunda permitia investigar o seu conhecimento sobre as características dos motociclos eléctricos, seguindo-se outra para identificar os factores que levavam um consumidor a adquirir um motociclo eléctrico. A quarta parte do questionário focava-se, então, a analisar a vontade de comprar e a vontade de pagar por um veículo eléctrico e a última era dedicada à sua informação pessoal, que permitia compreender se as suas características teriam potencial de afectar as decisões em termos de aquisição de veículos.



