A Universidade de Ciência e Tecnologia foi autorizada a criar a primeira Licenciatura em Medicina e Cirurgia do território que disponibilizará 50 vagas, no primeiro ano. Médicos ouvidos pela TRIBUNA DE MACAU contestam esta aposta que consideram pouco útil tendo em conta a realidade local. Rui Furtado defende que seria melhor apostar em “negociar condições especiais” para estudantes locais fazerem a sua formação nesta área em Hong Kong. Por sua vez, Fernando Gomes acredita que a procura se esgotará em “três ou quatro anos”

 

Inês Almeida

 

O Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura aprovou a criação, na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (UCTM), de uma Licenciatura em Medicina e Cirurgia, a primeira do género no território. O despacho publicado em Boletim Oficial indica que o curso tem a duração de seis anos e será leccionado em chinês e inglês, em regime de aulas presenciais. O último ano da licenciatura será ocupado com a frequência de um estágio clínico.

À TRIBUNA DE MACAU, a UCTM indicou que no primeiro ano em que o curso será ministrado vão ser disponibilizadas 50 vagas. De acordo com dados do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior, (GAES), que cita números do “Subsídio de Aquisição de Material Escolar a Estudantes do Ensino Superior”, no ano lectivo 2017/2018 havia 510 estudantes de Macau a frequentar licenciaturas em Medicina no exterior. A maioria estudava na China Continental. Outros destinos comuns incluem Hong Kong, Reino Unido, Irlanda, Estados Unidos e Austrália.

Números fornecidos também pelo GAES a este jornal mostram que este é o valor mais elevado de estudantes a frequentar licenciaturas em Medicina fora de Macau, pelo menos desde 2013. No ano lectivo 2013/2014 contavam-se 350 alunos que tinham saído da RAEM para estudar Medicina, número que cresceu para 380 no período seguinte. Em 2015/2016 havia 410 estudantes a frequentar este género de curso no exterior e contam-se mais 40 no ano lectivo terminado em 2017.

No entanto, médicos ouvidos por este jornal colocam um ponto de interrogação na necessidade de criar uma Licenciatura em Medicina e Cirurgia tendo em conta sobretudo as dimensões e características do território mas também a proximidade de regiões como Hong Kong que disponibilizam uma formação semelhante.

“Acho que [o curso] não é necessário. É um desperdício tendo Hong Kong aqui por perto e sendo Hong Kong um centro de excelência de formação médica em todos os campos”, defendeu Rui Furtado em declarações à TRIBUNA DE MACAU. Para o clínico, “se a ideia fosse efectivamente formar médicos e se houvesse uma responsabilidade da administração, facilmente se conseguiria chegar a acordo com as universidades de Hong Kong para terem condições especiais para receberem estudantes de Macau”. “Isso nunca foi feito e eu isso defenderia sempre porque acho que Macau tinha direito a ter os seus próprios médicos”, afirmou.

No fundo, acredita o clínico, “saía infinitamente mais barato formar os médicos nas universidades de Hong Kong, mesmo a preços normais, pagando como estudante de fora, do que abrir uma faculdade em Macau”.

“Um curso de Medicina não é um curso de História ou de Direito que se faz com professores. As instalações são as que estão, e os cursos vivem da qualidade dos professores. Um curso de Medicina vive dos professores, instalações, possibilidades de técnicas que podem oferecer e outra coisa muito mais importante e difícil de arranjar: os doentes”, defende Rui Furtado.

Mais concretamente, explica o médico, “para se ensinar Medicina é preciso ter doentes e é preciso ter um leque de patologias que permite ensinar medicina”. “Macau não tem um milhão de habitantes sequer. Arranjar patologias para ensinar acho complicado com a população existente”. Por outro lado, “a qualidade obtida não vai ter reconhecimento por entidades idóneas que avaliem o curso, mas vamos ver”. “Estou a falar no abstracto”, ressalvou.

 

A importância da prática

Relativamente ao ano de estágio previsto para o final do curso, Rui Furtado aponta que a prática já tem de vir de anos anteriores. “Um curso de Medicina tem dois anos que são essencialmente teóricos mas depois tem uma série de anos que são práticos, com cadeiras feitas com doentes e médicos preparados para fazerem o ensino dessas matérias. Onde é que há isso em Macau? Será no Hospital Universitário? No Centro Hospitalar Conde de São Januário? No Kiang Wu? Talvez tenham todas as capacidades técnicas para fazer isso, mas do que conheço não sei se terão”, questiona Rui Furtado.

Por sua vez, Fernando Gomes tem “sérias dúvidas” em relação à necessidade deste curso. “Em termos de população, é preciso ter docentes em número suficiente, o que não temos”, alertou o médico.

Tendo em conta que a licenciatura já está criada, Fernando Gomes deseja “o melhor”, porém, acredita que ela “não tem nexo”. “Um curso de Medicina é caríssimo. Vão abrir quantas vagas? Em três ou quatro anos esgota-se a necessidade local”.

A título de exemplo, indicou o que aconteceu com a formação de profissionais de medicina tradicional chinesa. “Há uns anos a UCTM formou médicos de medicina tradicional chinesa aos pacotes e 90% estão desempregados”.