O director clínico do Centro Hospitalar Conde de São Januário acredita que a criação do curso de medicina pela Universidade de Ciência e Tecnologia é “um passo gigantesco” e será benéfico para o sistema de saúde do território uma vez que será Macau a definir a qualidade dos médicos que cá exercem funções. Esta licenciatura, acredita Mário Évora, vai funcionar em regime de complementaridade com a Academia de Medicina também já aprovada
Inês Almeida
É “um passo gigantesco e um marco na história da medicina de Macau” o facto do Governo ter “concretizado dois projectos: a Academia e o curso de Medicina, acredita o director clínico do Centro Hospitalar Conde de São Januário, referindo-se à criação da Licenciatura em Medicina e Cirurgia pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (UCTM).
A licenciatura e a Academia de Medicina “são dois instrumentos que vão realmente permitir que Macau estabeleça o nível de medicina que quer e a qualidade dos médicos que quer ter”, defendeu Mário Évora em declarações à TRIBUNA DE MACAU. “É um marco na história médica de Macau. Foi um passo muito importante”, insistiu.
Para o optimismo do médico contribui também a escolha do director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Fausto Pinto, para integrar o corpo docente deste curso, segundo adiantou o Ponto Final. “O professor Fausto Pinto tem vindo a Macau através da minha associação [de Cardiologia de Macau]. Ele é cardiologista como eu, e foi através das nossas actividades que entrou em contacto com o professor Manson Fok. Ele [Fausto Pinto] está disponível para colaborar com Macau neste projecto, naturalmente que está à espera de saber um plano mais concreto”, ressalvou.
Seja como for, Mário Évora considera que a longo prazo a licenciatura beneficiará o sector da saúde local. “Neste momento, que médicos temos a trabalhar em Macau? São médicos que vêm de diferentes origens e mesmo da China vêm de diversas faculdades, são pessoas com culturas médicas assimétricas. Não estou a dizer se é melhor ou pior, mas não há uma uniformidade ou padrão determinado por Macau. Temos de aceitar o que vem”, apontou Mário Évora. A existência da licenciatura e da futura Academia “vai permitir que seja Macau a determinar o nível de medicina que quer para si”, o que “por si só é um passo muito grande para a população”.
Questionado sobre se há algumas especialidades em particular em que seria benéfico investir, o director clínico do hospital público considera que ainda é cedo para perceber isso. “Vai depender. Estamos a falar de um projecto que vai dar frutos a longo prazo, só daqui a alguns anos. Vai depender das necessidades que houver nessa altura. Neste momento, estamos a falar da formação base de médicos, de criar médicos com boa qualidade que depois serão encaminhados para as especialidades conforme for considerado necessário”.
De qualquer modo, refere Mário Évora, essa área já está mais relacionada com a Academia Médica que funcionará em regime de complementaridade com a Licenciatura “segura e inevitavelmente”. “A academia é para regulamentar e verificar a qualidade, os requisitos para que uma pessoa possa ser considerada especialista em Macau, o que até à presente data não acontecia”.
A título de exemplo, o clínico explicou que “no sector privado fazem actos médicos que são de uma especialidade específica, como ortopedia ou cirurgia plástica, porque têm experiência neste campo, não estava regulamentado”. “A partir da existência de uma academia médica só poderão exercer actos médicos de determinada especialidade os indivíduos que forem reconhecidos como sendo especialistas daquela área. Dá outra segurança aos pacientes saber que estão entregues em mãos que são supervisionadas por uma instituição credível”.
Muito trabalho pela frente
Questionado sobre se 50 vagas seriam demasiadas para um território com as dimensões da RAEM, o director clínico do hospital público diz ter confiança no estudo de viabilidade que foi feito. “Se está projectado neste sentido, quero acreditar que há uma lógica baseada nalguma projecção ou estudo que faz sentido”, afirmou.
Apesar das boas expectativas, Mário Évora alerta que ainda há muito trabalho pela frente. “Parabéns, o Governo apoiou o curso de medicina, a publicação em Boletim Oficial é a legalização formal do curso e abre apenas a porta a um caminho que terá de ser feito e tenho uma expectativa positiva mas vamos todos ver como é que vai ser feito e a qualidade como vai ser feito”.
“Há todo um trabalho, seguramente o mais importante, que vai ser feito a partir de agora”, apontou Mário Évora, destacando que este processo tem a ver com a estrutura do curso, “professores, modelos de ensino, em que referências médicas a nível internacional” se baseiam. “Não vamos inventar a roda. Isto terá de ser feito com base em referências. Falei numa delas, credível e sólida, o professor Fausto Pinto, da medicina portuguesa. Pelas conversas que tenho ouvido, haverá outras universidades envolvidas no projecto”, referiu.
Contribui para o projecto também o facto de ele ser dirigido por Manson Fok. “É o dínamo desse projecto e uma pessoa conceituada do ponto de vista científico, ligado já há alguns anos ao ensino. Isso cria em mim a expectativa e a confiança de que seja um projecto sólido, bem pensado, que não é feito em cima do joelho”, defendeu o director clínico do hospital público.
O canal inglês da TDM anunciou que as propinas da Licenciatura em Medicina e Cirurgia deverão fixar-se em 55.000 patacas anuais para residentes de Macau e podem ser atribuídas bolsas aos estudantes com melhor desempenho.
“Acho que agora conseguimos atrair estudantes tendo por base o nosso currículo, que podem ver, também os nossos professores que têm padrões internacionais, e temos reconhecimento de mais de 20 universidades que estão dispostas a ajudar-nos com o nosso currículo e, assim, vamos enviar os nossos estudantes para o exterior como parte da sua formação”, indicou Mason Fok em entrevista à estação televisiva. A UCTM espera admitir os primeiros estudantes no Outono.



