As ideias transmitidas por Roy Eric Xavier nos artigos denominados “Jogo Perigoso” foram recebidas com muito desagrado por várias figuras da comunidade macaense. Miguel de Senna Fernandes diz não levar os comentários “com um mínimo de seriedade” já que o professor não está a par das acções desenvolvidas após a transferência de soberania, referindo mesmo que “conhece tanto da comunidade macaense como eu dos índios da América”. Por outro lado, o provedor da Santa Casa da Misericórdia considera que os textos denotam uma preocupação que não devia ser apenas endereçada aos chamados “líderes da comunidade”.
Inês Almeida
As críticas dirigidas aos “líderes da comunidade macaense” por Roy Eric Xavier em dois artigos intitulados “Jogo Perigoso” foram classificadas como “perfeitamente irrelevantes” pelo presidente do Conselho Permanente para as Comunidades Macaenses, José Luís Sales Marques, que se escusou por isso a tecer comentários.
Já o presidente da Associação dos Macaenses (ADM), Miguel de Senna Fernandes, vai mais longe frisando que as críticas “não têm razão de ser”. “Não sei se Roy Xavier está em Macau, se percebe de Macau ou da comunidade macaense. Ele tem uma noção de macaenses com a qual não concordo e nem sequer dá a conhecer o que é, para si, ser macaense. Fala da diáspora e de muitas outras coisas, mas não levo as críticas com a mínima seriedade”, disse em declarações ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU.
O mesmo responsável considera que Roy Eric Xavier “não sabe o que a comunidade macaense tem feito desde a transferência de soberania” fazendo as suas considerações “de ânimo leve e gratuitamente”, pelo que estas “não devem ser levadas a sério”. “Ele conhece tanto da comunidade macaense como eu dos índios da América”, criticou.
O facto de o professor da Universidade de Berkeley caracterizar os líderes da comunidade como “culturalmente míopes incomoda um bocado e ainda agrava mais o descrédito”, lamentou Miguel de Senna Fernandes. “Se nos chama de culturalmente míopes, ele deve sofrer de hipermetropia, que é olhar as coisas de longe e ver mal. Seja como for, respeito as críticas, só que se nota um certo desconhecimento sobre aquilo que está a ser feito em Macau e que não está no segredo dos deuses”.
Questionado sobre o facto do professor considerar que os “líderes da comunidade” entendem que a preservação da cultura macaense se baseia “na ideia de que certas práticas conseguem ser passadas para as gerações mais jovens, por exemplo, o uso do português”, Miguel de Senna Fernandes contrapõe que “erradicar o elemento do português é um bocado complicado”. “Ninguém está a fazer um apelo ao uso da língua. O discurso da comunidade, e isso ele não sabe, não é o de que um macaense tem que falar português. O que a comunidade defende é que não nos esqueçamos da língua portuguesa porque, em última instância, é sempre um veículo de cultura”, frisou.
Por outro lado, recordando o III Colóquio da Identidade Macaense, realizado em Dezembro, Roy Xavier lamentou que os temas tenham sido semelhantes aos debatidos nas edições de 2012 e 2013, no entanto, Miguel de Senna Fernandes garante que a ADM não pretende “bater na mesma tecla”. “Isto [debater os mesmos temas] não é criticável. Denuncia uma certa preocupação da própria diáspora que quer sempre manter o seu elo de ligação a Macau, que não quer perder as suas raízes e tradições”.
Além disso, o presidente da ADM refere que Roy Xavier “nem sequer pôs os pés no colóquio, não assistiu, nem contactou com ninguém para começar a tecer essas críticas. Não posso levar com seriedade a sua posição e vou ter que dizer que ele deve sofrer de alguma carência de atenção”.
Comunidade “acarinhada”
Nos artigos, o académico de Berkeley advertiu que “no pior cenário possível, a incapacidade dos macaenses desenvolverem um programa que contribui para a recuperação de Macau pode levar a uma marginalização da comunidade a nível local e à volta do mundo”. Miguel de Senna Fernandes refuta a teoria, frisando que tanto a própria RAEM como o Governo Central chinês “acarinham a comunidade macaense e fazem tudo para que ela se mantenha, incluindo dar subsídios para desenvolver a cultura”. Além disso, “os próprios macaenses, sem deixarem de o ser, integram-se perfeitamente na sociedade” do território.
“A sua visão telescópica dos Estados Unidos, se calhar, é um pouco deturpada sobre a realidade da comunidade macaense. Não sei se ele se sente marginalizado ou não, mas da nossa parte não há marginalização nenhuma. O macaense, mesmo sem sair do seu círculo identitário, está tão integrado como qualquer chinês”, assegurou.
Ainda assim, Miguel de Senna Fernandes diz compreender os motivos que levaram Roy Eric Xavier a mencionar esta problemática. “Isso vem a propósito daquela noção de que a liderança macaense se preocupa muito com o uso da língua portuguesa, mas isso é um total disparate e só denota a falta de conhecimento que o professor tem. Não é possível fazer reflexões sobre a comunidade quando ele [Roy Xavier] não se sente integrado”.
Por sua vez, Francisco Manhão, presidente da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau, disse não ter gostado das ideias apresentadas por Roy Xavier, ressalvando que cada pessoa tem as suas visões. “Cada um tem a sua forma de pensar e diz o que quiser. Ele fala dos líderes da comunidade macaense, e eu não sou um líder, mas não entendo a realidade dessa maneira. Não gostei [das críticas], mas cada um sabe de si. Agora quero ver é se os líderes macaenses vão responder”, afirmou.
Também sublinhando que não se considera um líder da comunidade macaense, mas sim provedor de uma instituição secular de matriz portuguesa, António José de Freitas manifesta uma opinião ligeiramente diferente, vendo o artigo não como uma crítica mas um símbolo de preocupação. “Denota-se uma preocupação que acho que é de todos nós e que tem a ver com o contexto da própria comunidade macaense, por isso, não penso que esta questão seja apenas uma responsabilidade dos considerados líderes da comunidade”, disse, ao sustentar que essa reflexão deve ser geral, incluindo pessoas que, embora não tenham nascido em Macau, aqui estão radicadas.
Ainda assim, o provedor da Santa Casa da Misericórdia acredita que seria útil que o docente definisse o que entende por cultura macaense e apontasse medidas concertas que deveriam ser adoptadas com vista à sua preservação.
O JORNAL TRIBUNA DE MACAU também contactou Luís Machado, presidente da Confraria da Gastronomia Macaense, que no entanto preferiu não comentar as críticas de Roy Xavier.
Comentários inundam redes sociais
As críticas de Roy Eric Xavier também deram que falar nas redes sociais onde muitos membros da comunidade macaense se interrogaram sobre o nível de pertença a Macau do docente radicado nos Estados Unidos, havendo mesmo quem acredite que o professor só se enquadra num “conceito mais abrangente” de macaense. Outras pessoas consideram que o professor está apenas a tentar chamar a atenção. Apesar disso, no grupo de Facebook “Conversa entre a malta” também houve quem admitisse que o professor transmitiu ideias “difíceis de refutar”.





