Faleceu ontem uma criança de quatro anos, que tinha sido internada terça-feira no Hospital Kiang Wu no seguimento de complicações decorrentes de uma gripe. É a primeira morte deste ano associada a gripe. Os Serviços de Saúde afastaram a possibilidade de erros nos procedimentos

 

Salomé Fernandes

 

Tinha quatro anos e três meses. A criança, que morreu ontem no Kiang Wu, deslocou-se três vezes à unidade hospitalar e na última ficou internada, não resistindo a uma síndrome hemolítico-urémica despoletada por complicações médicas originadas por uma gripe. A síndrome, explicou Lam Chong, chefe do Centro de Prevenção e Controlo de Doença dos Serviços de Saúde, é rara e a taxa de mortalidade ronda os 60%.

Este foi o primeiro caso de morte potenciado por uma gripe este ano, depois de entre Julho e Agosto de 2017 terem existido oito. A criança pertencia ao grupo dos 30% que não receberam vacina antigripal, que não integra o plano de vacinação obrigatório.

Os Serviços de Saúde (SSM) apelaram na conferência de imprensa aos pais para permitirem a vacinação das crianças, visto que “a maioria [da falta de vacinação desses 30%] foi por recusa dos pais”. E recordaram que ainda existem cerca de 14 mil vacinas disponíveis para os residentes, das 120 mil adquiridas pelo Governo. Os SSM também desmentiram boatos de que a escassez de vacinas no Interior da China possa afectar os residentes locais.

Foi no dia 19 de Janeiro que surgiram os primeiros sinais de febre e a menina de quatro anos recorreu às consultas externas do Hospital Kiang Wu para tratamento. Tendo em consideração o pico de gripe em Macau, os médicos realizaram um teste rápido cujos resultados foram negativos. Foi medicada e regressou a casa, com indicações para descanso.

“Um teste nunca funciona a 100%, e neste a taxa de sensibilidade [do reactor] é de apenas 30 a 40%”, explicou Kuok Cheong U, director do Centro Hospitalar Conde S. Januário, assegurando ainda que os médicos do Hospital Kiang Wu “fizeram todos os possíveis para ajudar a criança”.

No dia seguinte, a febre persistiu e foi-lhe detectada pneumonia no início do tracto respiratório superior, tendo sido novamente medicada e enviada para casa. “Não se fez segundo teste rápido porque de acordo com as orientações médicas, nem todas as pessoas necessitam de [o] fazer”, comentou Li Peng Bin, vice-director do Departamento de Administração Médica do Hospital Kiang Wu.

A criança deu entrada nos serviços de urgência dia 23, acompanhada pela família, e a doença progrediu muito depressa a partir do momento em que foi internada. Associada à gripe por influenza A, que na terceira ida ao hospital foi confirmada por um segundo teste rápido, teve hemorragia do aparelho digestivo e necessidade de hemodiálise, pelo que foi transferida para a unidade de cuidados intensivos.

Os SSM foram contactados e médicos especialistas do Governo estudaram também o caso, tendo Lam Chong assegurado que não houve erros de procedimento. Porém, as falhas do sistema imunitário potenciaram uma infecção por pneumococo, que por sua vez despoletou a síndrome hemolítico-urémica.

Apesar de este ano já terem sido detectados 39 casos de gripe colectiva em instituições educacionais, a escola onde a criança estudava registou apenas situações isoladas. Para além disso, Lam Chong explicou a invulgaridade da situação dizendo que “só 1,7% das pessoas de Macau apresentam influenza A”, pois a maioria é contagiada pela B.

A irmã mais nova da criança que morreu também se encontra sob acompanhamento do Hospital Kiang Wu, por lhe ter sido igualmente detectada gripe A. “Aconselhámos os familiares para a menina mais nova voltar ao hospital, já regressou, tirou raio-x e foi-lhe detectada pneumonia”, disse Li Peng Bin, frisando que se está a fazer uma “monitorização activa” do seu estado de saúde.