Uma cardiomiopatia dilatada derivada de hipertireoidismo grave provocou a morte de uma menina de quatro anos e cinco meses que chegou a ser diagnosticada com gripe A. Porém, Jorge Sales Marques garante que o vírus “não teve nada a ver do ponto de vista directo e indirecto” com o desfecho
Catarina Almeida
Uma criança de quatro anos e cinco meses faleceu ontem de manhã devido a uma cardiomiopatia dilatada secundária a hipertireoidismo grave, informou Jorge Sales Marques, responsável do serviço de pediatria e neonatologia do Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ). Segundo explicou, a “influenza não foi a causadora da morte”, aliás, “não teve nada a ver do ponto de vista directo e indirecto”, vincou Sales Marques.
A menina deu entrada nas urgências no passado dia 13 com “pés inchados e com dificuldades respiratórias”. “No mesmo dia, por suspeitas de ter um problema cardíaco de base fizemos uma ecografia que detectou uma dilatação muito grave do coração [chamada cardiomiopatia dilatada] e como não encontrámos uma causa aparente para esta situação fomos apurar o que se estava a passar e detectámos que […] a criança tinha o pescoço um bocado inchado que nos pareceu tratar-se de um aumento da glândula tireóide. E os resultados analíticos confirmaram tratar-se de um hipertireoidismo”, acrescentou Jorge Sales Marques.
A partir deste momento, a equipa médica avançou com os tratamento à base de medicação para a parte da tiróide e cardíaca. No entanto, “não houve uma evolução muito satisfatória e a partir do segundo dia começou a surgir febre. Como estamos na altura da gripe, pedimos um rastreio normal da Gripe A que foi positivo”, disse, reiterando, que a gripe “não teve rigorosamente nada a ver com a causa da cardiomiopatia nem na forma directa ou indirecta”.
A criança foi tratada à base de vários medicamentos, mas o estado clínico agravou-se com “alterações do estado de consciência”. Segundo Sales Marques, a menina acabou mesmo por ser entubada ao final da tarde de terça-feira e a ser administrada com Tamiflu (para tratamento da gripe A) mas o estado de saúde agravou-se ontem de manhã. “Entrou em paragem cardiorrespiratória, foram feitas manobras de respiração durante um período de tempo mais do que o habitual nestas situações e, infelizmente, a criança faleceu”.
De acordo com o chefe do serviço de pediatria do hospital público, os pais desta menina não sabiam que a filha tinha problemas de tiróide e de coração”. “O diagnóstico foi feito aqui, no hospital”, disse. Questionado, Jorge Sales Marques informou ainda que a criança fez duas doses de vacina contra a gripe: uma em Outubro, e outra em Novembro. “Apesar de tudo, sabemos que, mesmo tomando a vacina, temos a possibilidade de gripe, apesar do risco ser menor”, acrescentou.
“Esta criança tem um irmão que apresentou febre dois dias antes. O quadro da gripe provavelmente poderá ter vindo daí e não obrigatoriamente do internamento” até porque, frisou, a paciente “ficou em isolamento, ou seja, não ficou com mais nenhuma criança”.
Entre Setembro de 2018 e 15 de Janeiro, foram registados 27 casos de gripe complicados com pneumonia, em que 80% dos pacientes não tinham sido vacinados, disse Lam Chong, chefe do Centro de Prevenção e Controlo da Doença. Destes casos, continua internado o menino de quatro anos diagnosticado com encefalite derivada do vírus influenza. Actualmente, está “em fase de tratamento” de administração de medicamentos que irá durar “cerca de quatro semanas”, disse Jorge Sales Marques. “Tem havido uma evolução muito lenta do ponto de vista clínica, digamos que consegue neste momento ingerir líquidos – desde deite a canja – mas para já ainda é muito cedo chegarmos a uma conclusão sobre eventual sequelas que poderão vir deste problema grave.
Em relação às duas outras crianças, ambas internadas no Hospital Kiang Wu, com encefalite ligeira e gripe complicada para pneumonia, os respectivos estados clínicos são ‘estáveis”.
O hospital público está a registar uma taxa de ocupação de camas 95% o que obrigou mesmo a suspender algumas operações às cataratas. Em média, são feitas 40 operações por semana. Segundo a equipa médica do hospital, algumas operações estão a decorrer noutros locais através de aquisição de serviços.



