Em 2025, a Associação de Reabilitação Fu Hong prestou serviços a aproximadamente duas mil pessoas, de acordo com Jacinta Chau, gestora dos projectos da instituição. Recentemente, o Jornal TRIBUNA DE MACAU visitou a “Creative Art House”, um centro dedicado ao desenvolvimento artístico e à exposição de trabalhos de arte dos utentes da Fu Hong, que foi reinaugurado em Outubro do ano passado, na Rua Cinco de Outubro

PEDRO MILHEIRÃO

No ano passado, a Associação de Reabilitação Fu Hong serviu cerca de duas mil pessoas, de acordo com Jacinta Chau, gestora de projectos do grupo associativo. O Jornal TRIBUNA DE MACAU foi conhecer a “Creative Art House”, um centro de artes situado na Rua Cinco de Outubro, que foi reinaugurado em 2025, com o propósito de potenciar e divulgar os talentos artísticos dos utentes da Fu Hong. Segundo Jacinta Chau, a Fu Hong tem, em média seis utentes, por dia a praticar artes no centro de artes.

No ‘hall’ de entrada, duas prateleiras exibem múltiplas lembranças criadas pelos utentes da associação ou inspiradas pelos seus trabalhos. Os ‘souvenirs’, que reaproveitam ilustrações dos utentes, incluem broches, bases de copos, marcadores de livros e ímanes, entre outros artigos, à venda a partir das 20 patacas. Mais do que gerar lucros, a venda dos produtos serve para divulgar os talentos artísticos dos utentes, explicou Jacinta Chau, ao destacar uma colecção de candeeiros de mosaicos turcos. “Muitos deles têm dificuldades em termos de comunicação verbal, mas conseguem expressar-se através da arte”, continuou a responsável pelo centro.

Quem entra na sala principal é recebido por um par de quadros originais, cada um retratando um “deus-guardião”, um amarelo e outro azul, aludindo “às divindades protectoras que se encontram frequentemente nas entradas de muitos templos orientais”, descreveu a gestora, antes de ser interrompida pela chegada de um dos utentes.

Destacando as cores atípicas das duas figuras, Jacinta Chau contou que os utentes tiveram liberdade de escolher as tintas. “Costuma haver alguém a orientar, mas deixamo-los expressarem-se livremente”, contou. Estes são também os únicos quadros originais expostos no centro. “Por norma, fazemos cópias dos desenhos e das pinturas e preservamos os originais”, de modo a proteger os trabalhos do clima húmido de Macau, esclareceu.

Ao lado de um pequeno bar, que apenas funciona para servir bebidas durante eventos com maior afluência, estão expostas 12 cópias de traçados algo caricaturais de fotografias de sítios emblemáticos de Macau. São retratos do Largo do Senado, das Ruínas de São Paulo, da Rua dos Ervanários ou da Rua Cinco de Outubro, onde se situa o centro, entre outros locais.

O autor, conhecido como “0.38”, “fazia estes desenhos e deitava-os fora. Durante muito tempo, ninguém fazia ideia de que ele era capaz de fazer isto”, recordou Jacinta Chau, acrescentando que foram descobertos por acaso quando uma funcionária deitava o lixo fora. O artista, Leong Ieng Wai, chegou inclusive a ser convidado pelo Instituto Cultural, em 2015, para participar no Festival de Artes de Macau.

“Pega numa fotografia e começa a desenhar”, disse a responsável do centro, descrevendo o processo que acontece num único ‘take’ e a caneta, que inspirou o cognome do artista. Usando uma fotografia como referência, “assim que começa, não pára até acabar”. “Nunca pediu dinheiro. A única coisa que ele quer quando está a desenhar é uma coca-cola”, partilhou Jacinta Chau.

Na parede do lado oposto, estão dispostas reproduções em três dimensões dos decalques fotográficos, elaboradas pelo utente que chegara momentos antes. Imediatamente por baixo, diferentes interpretações em barro de “A Hong”, a mascote da Fu Hong, preenchem a prateleira. “É como se fosse a divindade da Fu Hong. Posteriormente, tivemos de pintar o cabelo [das várias figuras] com as cores do arco-íris, para ser mais inclusivo”, anotou Jacinta Chau.

Num corredor que separa a sala de exposição da zona de workshops, a Fu Hong tem quatro fornos de olaria, doados por algumas das operadoras de jogo. “Normalmente só usamos esta”, apontou a responsável para um dos mais pequenos. “Fazem disparar a conta da electricidade”, justificou.

Nas traseiras do edifício, duas utentes trabalhavam nos seus projectos, na companhia de um auxiliar e de duas estátuas inspiradas nos dois deuses que guardam a sala principal. A primeira costurava, enquanto a segunda colava mosaicos turcos num novo candeeiro, para somar à colecção destacada na entrada.

Para além de “desenvolver os talentos dos utentes, através da pintura, da modelagem”, entre outros trabalhos plásticos, e divulgar esses trabalhos, a “Creative Art House” servirá também para organizar workshops, em colaboração com outras associações.