O Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa assinala este ano o 15º aniversário de existência e a secretária-geral faz um balanço muito positivo do desenvolvimento do organismo. No entanto, Xu Yingzhen reconhece que é preciso trabalhar mais na promoção do trabalho desenvolvido pelo Fórum para que sejam conhecidas “oportunidades” e informações sobre cada país. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, a secretária-geral do Fórum indicou ainda que a cooperação entre os países-membros vai além da economia e dos números pelo que se deve apostar na promoção da vertente cultural

 

Inês Almeida

 

–  O Fórum Macau assinala o 15º aniversário este ano. Que balanço faz desta década e meia de existência?

– O balanço pode resumir-se a uma frase: temos resultados muito notáveis, principalmente em áreas como a cooperação entre os governos que está cada vez mais estreita. O governo chinês tem mantido relações bastante estreitas com os governos de todos os países membros e, em 2017, São Tomé e Príncipe integrou oficialmente o Fórum Macau. Isto simboliza uma unificação do Fórum. Além disso, o valor das trocas comerciais, importação e exportação entre a China e os Países de Língua Portuguesa registou também uma subida em flecha. No ano de 2002, antes do estabelecimento do Fórum Macau, o valor das trocas comerciais era de apenas de seis mil milhões de dólares americanos mas em 2017 este número cifrou-se 117,6 mil milhões de dólares americanos. Em relação ao valor do investimento directo da China nos Países de Língua Portuguesa, em 2003 era de apenas 5,6 milhões de dólares americanos mas em 2017 este número subiu para 5,699 mil milhões de dólares. Os números de que estamos a falar são apenas relacionados com o investimento directo da China nos Países de Língua Portuguesa. Se somarmos todos os investimentos entre a China e os Países de Língua Portuguesa, este valor atinge 50 mil milhões de dólares americanos. Além disso, outro resultado bastante notável prende-se com as áreas de cooperação. Na primeira Conferência Ministerial, as áreas de cooperação eram apenas sete, mas até à V Conferência Ministerial passaram a ser 20. Além disso, o Fórum Macau tem um impacto cada vez maior e as Províncias e Municípios do Interior da China têm cada vez mais conhecimento sobre os Países de Língua Portuguesa e o Fórum Macau. Também promovemos a construção da plataforma de Macau e podemos dizer que Macau tem um impacto cada vez maior, tendo promovido o desenvolvimento de várias indústrias e sectores como convenções e exposições, turismo ou importação de produtos alimentares.

 

– Quais foram os principais pontos positivos e negativos destes 15 anos?

– Em relação aos pontos positivos, já mencionei vários resultados obtidos ao longo dos 15 anos. O Fórum Macau é um mecanismo que tem a Língua Portuguesa como elo de ligação. Os membros estão espalhados pelos quatro cantos do mundo. Uma das características dos países membros do Fórum Macau é terem culturas e legislações bastante semelhantes, por isso, através dessas bases podemos encontrar em conjunto necessidades ou áreas de cooperação similares. Além disso, Macau possui as suas próprias vantagens e é por estas razões que se pode tornar numa plataforma de prestação de serviços entre a China e os Países de Língua Portuguesa.

 

– E os pontos negativos? O que ainda está por fazer?

– Falta troca de informações. O papel do Fórum Macau é ser uma plataforma e como podemos permitir que as outras partes concretizem a cooperação são informações bastante importantes. O Fórum Macau tem delegados dos Países de Língua Portuguesa e representantes do governo chinês e assim forma-se uma equipa. Além disso, os representantes da China têm um profundo conhecimento do seu próprio país mas têm de conhecer bem as necessidades das outras partes. Espero que no futuro as partes possam trocar mais informações no Fórum e mais concretas, para que possam cooperar com essas empresas e disponibilizar-lhes informações. Há também falta de divulgação e promoção. Temos de fazer mais trabalho no âmbito da divulgação e promoção para que mais pessoas tenham conhecimento sobre o Secretariado Permanente do Fórum Macau para que saibam que temos condições e recursos para serem aproveitados. Temos de envidar esforços neste âmbito. Por exemplo, em 2017, São Tomé e Príncipe integrou o Fórum Macau, isso deve permitir que mais empresas conheçam melhor São Tomé e Príncipe e essa é uma vantagem para nós. Além disso, o delegado do Brasil também está a acompanhar as nossas visitas e actividades. Este também é um dos nossos melhoramentos. Portanto, tanto na divulgação do Fórum como na disponibilização das informações estamos a melhorar.

 

– A que nível é que considera haver falta de informação?

– Temos de permitir às pessoas conhecer mais as oportunidades e as informações dos países, as políticas, quais são as áreas de cooperação e os projectos disponibilizados. Por exemplo, quando organizamos actividades no Interior da China, os nossos delegados fazem apresentações, preparam vídeos, isto tudo mostra que se esforçaram bastante para que mais pessoas possam conhecer os seus países. Mesmo assim, os empresários do Interior da China pretendem saber mais sobre os projectos em concreto.

 

– No ano passado S. Tomé e Príncipe juntou-se ao Fórum Macau. Que impacto teve essa entrada?

– A integração de São Tomé é uma unificação do Fórum Macau e permite que os empresários chineses conheçam mais outro país de Língua Portuguesa, o seu mercado, as oportunidades de investimento e também as políticas. Na perspectiva de São Tomé e Príncipe, permite também ao país, através do Fórum Macau, conhecer o Interior da China.

 

– Não há o risco de as relações económicas se tornarem unilaterais, no sentido em que a China está disposta a investir e os países lusófonos procuram alguém que o faça?

– Não é um desenvolvimento unilateral porque toda a cooperação é benéfica para ambas as partes. Embora nesta fase, muitos Países de Língua Portuguesa pretendam que a China invista e que este investimento possa trazer mais postos de trabalho e também receita de impostos, além de promover o desenvolvimento económico do país, para quem faz o investimento também há lucros. No futuro, quando a cooperação se tornar mais amadurecida, se calhar os Países de Língua Portuguesa também poderão deslocar-se à China para fazer investimentos.

– No âmbito das actuais relações económicas, qual é o papel de Macau?

– O papel de Macau é de plataforma. Através das suas vantagens próprias, porque historicamente tem relações com os Países de Língua Portuguesa, Macau pode promover a cooperação entre a China e esses países. Neste momento, Macau está a tornar-se numa plataforma de convenções e exposições e de prestação de serviços às pequenas e médias empresas, além de serviços financeiros. Também tem um portal onde está a disponibilizar essas informações. É através dessas plataformas que pode promover a cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Em relação à formação de talentos, Macau também está a envidar muitos esforços como formação de bilingues e ao apoiar os Países de Língua Portuguesa prestando acções de formação aos funcionários e às autoridades.

 

– No futuro, que papel deverá Macau ter? Passa por um contínuo investimento nesta vertente da formação?

– Macau tem as suas próprias condições como plataforma. Por exemplo, pode-se tornar numa plataforma de turismo, prestação de informações económicas e intercâmbio pessoal ou formação de talentos. Também se pode focar no empreendedorismo jovem ou na área financeira.

 

– Tendo em conta que o foco do Fórum Macau já vai um pouco além das questões económicas, quais devem ser as prioridades nos outros sectores?

– O nosso nome é Fórum para a Cooperação Económica e Comercial e é óbvio que os nossos trabalhos vão continuar a ser concentrados na promoção da cooperação económica e comercial. As áreas da economia e comércio são bastante latas. Pode abranger infra-estruturas, capacidade produtiva, turismo, cooperação marítima, todas essas áreas. Além da parte comercial, o Fórum Macau dá grande atenção à área da cultura, porque o que é mais importante na cultura é a ligação entre as pessoas e entre os povos. Isto é uma base para a cooperação. Por exemplo, desde o ano 2008, o Fórum Macau tem organizado a Semana Cultural. Além disso, também nos focamos na cooperação dos recursos humanos. O nosso Centro de Formação foi estabelecido em 2011 e, até ao momento, já organizámos 36 colóquios que formaram mais de 900 autoridades e funcionários dos Países de Língua Portuguesa. Além disso, através do Secretariado Permanente, o Instituto de Formação Turística também fornece formação para os funcionários dos Países de Língua Portuguesa na Ásia, em África, na área do turismo.

 

– Como é que estão os trabalhos de implementação do Centro de Intercâmbio Cultural entre a China e os Países de Língua Portuguesa e de Base de Formação de Quadros Bilingues?

– Esta é uma das 18 medidas anunciadas na V Conferência Ministerial que é de estabelecimento de Macau como plataforma, mas na verdade esses trabalhos estão mais relacionados com o Governo da RAEM. Pelo que sei, a criação do centro de intercâmbio está a acontecer de forma activa. O Instituto Cultural está a planear organizar várias actividades relacionadas com a China e os Países de Língua Portuguesa. Quando à sede de formação dos talentos, podemos ver que na Universidade de Macau (UM) já está em funcionamento o Centro de Ensino e Formação Bilingue Chinês – Português e também o Instituto Confúcio. Para além disso, o Instituto Politécnico de Macau (IPM) tem organizado cursos para formação de tradutores e de professores. Em Fevereiro deste ano a UM, o IPM, a Universidade de Ciência e Tecnologia, a Universidade Cidade de Macau e a Universidade de São José integraram uma aliança de formação de bilingues. Pode-se dizer que estão em andamento estes trabalhos.

 

– Quais são os benefícios deste investimento?

– Tanto o Centro de Intercâmbio Cultural como a Sede de Formação dos Talentos Bilingues podem impulsionar um intercâmbio no âmbito da cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa em Macau e permite que os povos das partes conheçam melhor a cultura, a arte. É um entendimento mútuo entre os povos. Em primeiro lugar, para atrair a atenção de uma pessoa ou de um país, o mais importante é permitir que conheça a cultura porque quando uma pessoa pretende conhecer um país, a primeira coisa que se vai tocar é a cultura. Por exemplo, quando os nossos delegados se deslocam aos municípios do Interior da China para fazer apresentações, através de vídeos que preparam, isso permite que os empresários chineses conheçam os recursos turísticos, a cultura desses países. Para uma pessoa que não conheça o país, quando se fala do Brasil, o primeiro pensamento é o futebol. A cultura pode liderar o conhecimento que as pessoas têm de um país. No caso dos turistas, quando se fala de Macau, a primeira coisa de que se lembram é a gastronomia, são as paisagens maravilhosas. Este conhecimento permite estreitar os laços entre as pessoas e pode servir de base para, no futuro, poderem aprofundar o conhecimento sobre uma região ou um país. Quando falamos de cooperação económica e comercial não é só números. Quando uma pessoa faz negócio com outras, para que ele se concretize, têm de gostar umas das outras e isso tem a ver também com a cultura. Por isso, o intercâmbio cultural permite estreitar os laços entre as pessoas.

 

– A questão do empreendedorismo tem também sido importante para o Fórum Macau. Deve ser fomentado em alguma área particular?

– Isto está relacionado com a criatividade dos jovens. Depende do que eles quiserem fazer, mas neste momento há jovens que estão a ter um contacto com Portugal. As áreas são bastante abrangentes. Hoje em dia, a internet está muito desenvolvida, por isso, os jovens empreendedores podem aproveitá-la para desenvolver os seus negócios. Também há, por exemplo, design, vestuário. É uma questão de os jovens escolherem as áreas que pretendem desenvolver. Os produtos das indústrias e multimedia são várias áreas que os jovens estão interessados em desenvolver.

 

– O Fundo do Fórum está sediado em Macau desde Junho de 2017. O que foi conseguido com isso?

– A transferência da sede do Fundo do Fórum para Macau permite que ele possa estar mais perto tanto das empresas de Macau como dos Países de Língua Portuguesa e pode fornecer de perto os seus serviços. O Secretariado Permanente não é responsável pelos trabalhos do Fundo, portanto, não podemos adiantar mais.

 

– Quais são as prioridades do Fórum para o futuro?

– O nosso objectivo principal é alcançar as medidas anunciadas na V Conferência Ministerial. Somos um Secretariado Permanente e o nosso trabalho é concretizar os objectivos e as medidas anunciadas nas Conferências Ministeriais. Falando sobre os trabalhos concretos do Secretariado Permanente, o nosso principal objectivo é promover a cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e promover a cooperação na capacidade produtiva. Também vamos envidar esforços incansáveis para promover a cooperação entre Municípios e Províncias do Interior da China e a formação de talentos.

 

– Um maior envolvimento por parte do Brasil é algo que o Fórum procura?

– Em relação à participação do Brasil, como plataforma, podemos permitir que mais pessoas obtenham informações completas sobre esse país. Anteriormente, sem o delegado do Brasil acompanhar as nossas actividades, obviamente que as informações que disponibilizámos ou fornecemos eram incompletas. O Brasil possui um mercado bastante vasto e os empresários do Interior da China estão bastante interessados em conhecer mais. Por outro lado, na perspectiva do Brasil, o facto de o delegado acompanhar as nossas actividades, permite que possa conhecer mais sobre os trabalhos do Fórum Macau. Através da participação nas nossas actividades, o Brasil pode conhecer mais sobre a situação do Interior da China. Em Pequim há uma Embaixada do Brasil e consulados-gerais noutros sítios mas dificilmente os diplomatas brasileiros podem ir a todas as Províncias e Municípios para apresentar o país às cidades mais pequenas para que possam ter projectos de cooperação. Por exemplo, deslocámo-nos a Jiangsu e Hanhui, duas cidades da China. Durante a nossa deslocação passámos também pela cidade de Yangzhou e o governo local apresentou uma organização chamada “WCCO” dedicada à cultura dos canais. Durante a apresentação referiram que algumas cidades dos Países de Língua Portuguesa onde existem canais podem iniciar o desenvolvimento de cooperação com esta organização. Na verdade, naquela altura, não sabíamos que cidades dos Países de Língua Portuguesa tinham canais. O delegado do Brasil estava a acompanhar-nos nesta apresentação e ele é oriundo do Recife, que é conhecido como a Veneza do Brasil, e é um local onde há canais, por isso, trocaram bastantes opiniões. A participação dos delegados, muitas vezes, dá-nos surpresas e é bastante importante. Sem a participação dos delegados vamos perder alguma coisa. Depois destas actividades tive uma conversa com o delegado do Brasil e ele está bastante satisfeito com as nossas actividades.

 

– Como vê a participação portuguesa no Fórum Macau e a cooperação entre a China e Portugal?

– O papel de Portugal é bastante importante para o Fórum Macau. Há certas áreas que em Portugal estão muito desenvolvidas como a inovação. Através da sua participação, Portugal pode liderar a cooperação tanto com Macau como com o Interior da China, por isso, tem um papel de pioneiro. Além disso, houve também uma cooperação trilateral, entre a China, Timor-Leste e Portugal, feita também através do Fórum Macau. Esse tipo de cooperação é muito positivo e, no futuro, o Fórum Macau pode desenvolver-se. Além disso, nos últimos anos, há cada vez mais cooperação entre empresas da China e dos Países de Língua Portuguesa e cada vez mais investimento. É bem-sucedida a cooperação entre Portugal e o Interior da China. Há ainda empresários da China e de Portugal que estão a cooperar para fazer investimento no Brasil e isso também é bastante bom.