Parque conta com cerca de 5.000 dragões de Komodo
Parque conta com cerca de 5.000 dragões de Komodo

Os dragões existem e são facilmente vistos por quem se deslocar a Flores, na Indonésia. O Parque Nacional de Komodo tem cerca de 5.000 destes animais que, apesar de poderem ser perigosos, também precisam de protecção contra nós, humanos

 

A oeste de Flores, um grupo de ilhas na Indonésia conhecido pela vida marinha e actividades como mergulho, o animal que mais atenção desperta encontra-se por terra. O Parque Nacional de Komodo é remoto, mas depois de avião de Denpasar para Labuan Bajo e uma viagem de barco, a chegada ao destino permite vistas invulgares. Na área do parque nacional, os dragões de komodo podem ser vistos em três ilhas principais, Komodo, Rinca e Padar, bem como em duas mais pequenas, Gili Motang e Nusa Kode. É em Rinca que o barco atraca, depois de uma hora a cortar o mar de azul translúcido. Mas antes dos komodos, os primeiros avisos que se avistam pedem para ter cuidado com os crocodilos. Acabam por ser os únicos que não conhecemos, depois de múltiplos encontros com veados, macacos e dragões. A mala do ranger que lidera o grupo diz “hogwarts”, e de facto o que se vê tem um toque de magia.

“Os locais têm uma lenda a que chamam ‘o dragão e a princesa’. A princesa mística casa com um homem da aldeia e têm dois filhos. Um rapaz que é uma criança, e uma rapariga que é um komodo fêmea. O rapaz mora na vila, e a rapariga, como é um animal, mora na floresta. Os anos foram passando até que um dia o rapaz estava a caçar um veado, e se depara com um dragão de komodo também interessado em comer o veado. Por isso o rapaz quer matá-lo para comer o veado, até que chega a mãe princesa e pede para não fazer isso, porque o animal é a sua irmã gémea”, descreveu Agus, que é ranger há seis anos.

Parque Nacional de Komodo foi declarado Património Mundial da UNESCO em 1991

Lançou-se na profissão porque precisava de um trabalho, mas para além do dinheiro procurava fazer algo que o apaixonasse, e como a comunidade dele trabalhava muito na região sentiu essa ligação. Apesar disso, considera que “esta história foi criada para ajudar a proteger a espécie”. “Na Indonésia é muito comum usar histórias para educar, dá muito bom resultado”, sublinhou.

De facto, se a zona se tornou parque nacional em 1980 não foi por existirem rivalidades entre humanos e este bicho invulgar, dado que consideram ter ascendentes comuns. “Mas antes caçavam ilegalmente os alimentos dos komodos, como veados, o que trazia problemas”, explicou Agus. Um problema agravado pelo facto da espécie ser canibal. Cada komodo fêmea pode pôr entre 15 a 30 ovos de cada vez, fazendo vários buracos na terra embora só os coloque num para distrair os olhares alheios. O risco é de que os restantes membros da espécie comam os ovos. Este fenómeno pode também acontecer depois de o ovo chocar. “Cerca de 70% a 100% dos bebés nascem, mas sobrevivem muito poucos”, indicou Agus.

Quando nascem, os dragões recém-nascidos sobem às árvores, onde ficam mais protegidos dos komodos que os aguardam no chão, mas isso torna-os mais vulneráveis a águias. Têm ainda de passar pelo desafio de sobreviver quando se tornam demasiado grandes para comer apenas ovos e pequenos lagartos, o que os força a iniciar a vida no chão de forma mais activa. São solitários, carnívoros e canibais. Mas o conforto eleva-se entre estas características, permitindo também que sejam por vezes vistos em grupo.

Inicialmente calmos, quando nos aproximamos começam a percorrer o ar com a língua. É assim que sentem odores, e parece que adivinham andar comida por perto.

Ranger Agus, Komodo

A sua capacidade para cheirar até uma distância de 4km foi o que levou a organização a fazer uma pergunta invulgar às mulheres do grupo na reunião de preparação: “Estão com a menstruação durante a viagem?”. Dificilmente se associa esta questão a motivos de segurança, mas os komodos ficam agitados com o cheiro a sangue e um encontro próximo pode correr mal. Têm 54 tipos de bactéria na sua saliva, que podem causar a morte às presas. Dependendo do tamanho da refeição, podem ficar entre três dias a uma semana a digerir – e não há sobras.

O polícia florestal – Abdul Rahman, que trabalha há 30 anos no parque, explicou existirem em Rinca 1.500 komodos, sendo no total cerca de 5.000. Fala-nos de um carpinteiro cuja perna foi amputada para prevenir a propagação do veneno, e da morte de um cidadão de Singapura. Apesar dos receios que os ataques a humanos possam causar, estes não são frequentes, até porque os visitantes são obrigados a ir em visita com os rangers.

 

O impacto do aumento turístico

Descendentes de lagartos gigantes, a ciência assume que os komodos têm uma presença invulgar na zona do parque por ser isolada, explicou o ranger Aguis. Não só não têm predadores como a biodiversidade aí existente permite que monitorizem as presas e tenham comida em quantidade abastada. A maior preocupação começa a ser, porém, o turismo.

Abdul Rahman explica que no ano passado registaram-se cerca de 70.000 turistas, o que representa um aumento de mais de 100% em comparação com há cerca de cinco anos. A maioria deles é da Europa, mas o mercado chinês tem crescido, sendo que a partir de Maio as reservas mostram que deverão visitar diariamente o parque 100 turistas chineses. Para além disso, a passagem de15 cruzeiros pelas ilhas vai aumentar essa pressão.

Polícia Florestal Abdul Rahman, Komodo

“É bom para dinheiro, mas para o parque não tanto, prejudica os animais. O nosso governo começou agora a falar no assunto, e no futuro pode vir a ser definido um limite máximo, que acho que devia ser de 3.000 por mês”, disse Abdul Rahman, acrescentando ser negativo “não apenas para os komodos, mas também os outros animais. Precisam de descansar”. Se houver um decréscimo das outras espécies, a cadeia alimentar altera-se. “Os dragões de komodo precisam de comida, senão comem-se uns aos outros. É preciso um equilíbrio entre o turismo e a diversidade do parque”, frisou.

Do aumento de 70% a 80% nas receitas obtidas anualmente, que actualmente rondam os 27 mil milhões de rúpias da Indonésia, metade disso deve reverter para os salários dos rangers, que recebem por cada visita que guiam. O restante, é entregue ao Governo. Uma margem de lucro significativa considerando que Abdul Rahman indicou que a manutenção do parque acarreta custos anuais de apenas 44 milhões de rúpias (cerca de 26 mil patacas). Espera-se um aumento de 70%. Os rangers são pagos por cada passeio.

Nos últimos cinco anos, a mudança tem sido dos turistas, que aumentou provavelmente mais de 100%. 1.500 entrada, 500 do governo, “observação da vida animal” mais 10%, e 5.000 “treking”. Do dinheiro que se recebe, cerca de 50% vai para os rangers e o resto para o Governo: 27 biliões de receitas.

O Cônsul-Geral da Indonésia em Hong Kong e Macau, Tri Tharyat, acredita que a sustentabilidade do turismo “é um ponto muito importante”, mas desvalorizou as preocupações apresentadas pelo polícia florestal. “Neste momento não creio que o número de turistas que vêm à ilha de Rinca tenha atingido a capacidade máxima, mas claro que poderá ser implementado um número máximo de quota. Tenho a certeza que o Governo o está a considerar”, indicou, acrescentando que “disseram-me que na época alta recebem diariamente cerca de 300 pessoas, o que tem acontecido ao longo dos últimos dois anos e não houve relatórios a mencionar mudanças no ecossistema dos dragões de komodo”.

 

S.F.