O presidente da Associação de História Oral de Macau e o Grupo de Salvaguarda de Lai Chi Vun estão de acordo sobre a defesa e consequente classificação dos estaleiros navais. Porém, o Grupo de Salvaguarda considera que o documento da consulta não transmite à população o verdadeiro valor histórico das construções, focando-se demasiado nas condições de segurança

 

Liane Ferreira e Rima Cui

 

Até 22 de Março encontra-se em consulta pública o documento de classificação dos estaleiros navais de Lai Chi Vun como bem imóvel. A iniciativa é vista como uma “situação sem precedentes” e um grande passo para grupos de moradores e defensores do Património, que viram a sua luta pela revitalização ganhar novo fôlego desde Abril de 2016. Os riscos de colapso das infraestruturas de construção naval voltaram a trazer à superfície os desejos de uma povoação que viu a tradição do mar deteriorar-se com o tempo.

“Em relação a Lai Chi Vun, penso que é uma situação sem precedentes, pois é a primeira classificação de um grupo de imóveis individualmente, desde a entrada em vigor da Lei de Salvaguarda do Património Cultural e foi de facto uma reacção das autoridades a pedidos da população”, disse Lam Fat Iam, presidente da Associação de História Oral de Macau, em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

Para o também académico do Instituto Politécnico de Macau, “é bom haver esta classificação, porque vai além dos estaleiros e envolve uma área marítima de 40 metros, tratando-se da primeira ligação entre o património cultural e áreas marítimas de Macau, graças ao alargamento da área de jurisdição em 85 quilómetros quadrados”.

“Por outro lado, esta parte de Coloane é uma zona de boa preservação do habitat ecológico de Macau. Se for classificada como construção do património cultural, transformar-se-á numa zona histórica costeira com um ambiente ecológico autêntico, que terá um grande espaço de desenvolvimento e aproveitamento”, destacou.

Para Lam Fat Iam, “a reparação dos estaleiros deve ser o princípio básico”, mas também é importante recolher opiniões dos moradores sobre o aproveitamento da zona.

“Lai Chi Vun possui um potencial diversificado, por isso é possível ser construído na zona um pavilhão de exposição sobre a cultura e a história da zona, um espaço de educação ou uma sala onde os profissionais de construção de embarcações possam mostrar as técnicas aos visitantes. Além disso, também seria bom criar um espaço cultural e criativo”, declarou o académico.

 

Documento não explica valor cultural dos estaleiros

Apesar da classificação ser um passo desejado, o Grupo de Salvaguarda de Lai Chi Vun, que em Março de 2017 apresentou uma petição com 670 assinaturas a pedir a abertura desse procedimento, encontra deficiências no documento de consulta.

À publicação “All About Macau”, o responsável do Grupo de Salvaguarda de Lai Chi Vun, Tam Chon Ip , afirmou que o documento não apresenta uma descrição profunda do valor cultural dos estaleiros, dando mais ênfase à segurança das estruturas. “Os residentes podem pensar que é apenas uma construção velha e perguntar porque é que queremos proteger? Isto pode acontecer porque o texto da consulta não explica claramente aos residentes esse valor”, afirmou.

Tam Chon Ip destaca que no documento de consulta são mencionados relatórios e dados dos Serviços de Assuntos de Marítimos e de Água (DSAMA) referindo que a situação de protecção dos estaleiros é má. Aliás, o texto indica que a DSAMA incumbiu o Laboratório de Engenharia Civil e o Centro de Investigação e Ensaio em Engenharia da Universidade de Macau de avaliarem nove estaleiros, tendo sido comprovados problemas de estabilidade, apresentando “condições de perigo para a segurança pública”.

Para Tam Chon Ip, a descrição pouco detalhada do valor da área, gera preocupações de que, devido aos danos, os estaleiros não passem na avaliação. “O actual documento de consulta parece ter amplificado os perigos da construção, levando a que a questão do valor cultural em si do local se tenha transformado num problema de segurança pública”, frisou.

“Aspectos como a estrutura espacial e a planta dos estaleiros podem ser usados para mostrar o património industrial de Macau”, declarou, advertindo que, se não forem preservados, os estaleiros irão degradar-se de dia para dia, podendo sobreviver um número limitado de estruturas. Além disso, “o interior pode não ser restaurado de acordo com o aspecto original e assim as características culturais próprias do local não serão protegidas”, além de que o planeamento da zona envolvente também pode afectar a preservação da paisagem cultural dos estaleiros.

Tam Chon Ip reitera que os estaleiros representam uma memória comunitária que pode ser transformada em recurso turístico, podendo também funcionar como ligação à comunidade. Assim,  espera que a consulta pública possa levar mais pessoas a compreender que, “ao querer proteger, não é simplesmente porque são os resquícios ou porque é bonito, mas porque a sua existência tem um valor cultural… temos de herdar esta força cultural”.

“De certeza que haverá diferentes vozes na consulta e nós respeitamos, no entanto, é necessário compreender a história e a cultura dos estaleiros e do complexo em si para que depois da optimização possamos saber como é que nos vamos conectar com o local”, disse.

No documento de consulta, o Instituto Cultural afirma que o valor cultural do local assenta na “sua relação com a paisagem circundante”, nomeadamente na ligação com a água e a colina. “A arte de construção naval é outro dos valores presentes nos estaleiros”, indica o IC, acrescentando que a indústria começou no início do final da Dinastia Ming, sendo uma das quatro principais indústrias tradicionais de Macau. Em desenvolvimento até à década de 90, “é um testemunho da história e das modificações da economia, como uma das artes tradicionais de Macau”.

 

Incluir Património Intangível no Plano do Centro Histórico

O documento de consulta do Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico “mostra que as autoridades já têm orientações básicas sobre a gestão e protecção do Centro Histórico”, considera Lam Fat Iam, presidente da Associação de História Oral de Macau. Em declarações a este jornal, salientou que o conteúdo da consulta é mais concreto do que no passado, com planos macro e micro e apresentação de um limite para construção. Por outro lado, o docente do IPM observa que, por estarem em causa muitos conteúdos, é preciso dar tempo ao público para perceber as informações. “O Instituto Cultural deve fazer mais resumos, apresentando a essência do documento. O Governo deve resumir e apresentar os principais corredores visuais a serem protegidos”, afirmou. “Apesar de falarmos frequentemente do património cultural intangível, o documento peca por não apresentar notas sobre as culturas, estilos de vida e costumes tradicionais de quem vive perto dessas construções. Embora não seja exigida pela UNESCO, o Governo deve mencionar essa matéria”, destacou, por outro lado.