Depois de décadas de apelos à construção de um crematório no território, a população não se mostra agora favorável ao projecto, rejeitando a sua instalação no Cemitério Sa Kong da Taipa, perto das casas. A deputada Agnes Lam pretende levar o projecto a debate na Assembleia Legislativa

 

Viviana Chan

 

Desde que o Governo confirmou a intenção de construir um crematório na Estrada da Ponta da Cabrita, na Taipa, várias entidades e cidadãos vieram a público rejeitar o projecto. A deputada Agnes Lam pretende mesmo levar o projecto a debate na Assembleia Legislativa (AL).

Considerando que a construção do crematório pode custar mais de 300 milhões de patacas, sem contar com as despesas de reparação, Agnes Lam entende que a questão merece ser objecto de discussão profunda na AL. Num comunicado, a deputada citou ainda previsões indicando que, até 2031, o crematório poderá ter pouca procura (cerca de 12 corpos por dia), pelo que deve ser ponderado o valor económico da construção.

Por sua vez, em conferência de imprensa, a Associação Novo Macau assegurou que um grupo de moradores da zona visada já recolheu mais de mil assinaturas contra as futuras instalações, receando o impacto ambiental da emissão de gases poluentes. O condomínio Jardim Hoi Wan, o Edifício do Lago e o Colégio Anglicano de Macau ficam a menos de 500 metros do terreno em causa, onde actualmente já funciona um cemitério.

De acordo com o “All About Macau”, a Associação Novo Macau criticou o modo como o Governo promoveu a consulta pública sobre a construção do crematório, considerando que foi realizada “às escondidas”, tendo passado despercebido à maioria da população.

A TRIBUNA DE MACAU questionou a Direcção dos Serviços dos Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) sobre o projecto, uma vez que a planta de condições urbanísticas faz referência a um cemitério e instalações de apoio, mas sem especificar que se tratava de um crematório, algo que o organismo acabou por nos confirmar. O crematório deve ser construído dentro do Cemitério Sa Kong da Taipa, perto do Cemitério Hau Si, em frente ao “Taipa Hill Memorial Garden”.

O vice-presidente da Novo Macau, Sulu Sou disse que o crematório não é a única opção existente, sugerindo a adopção de “Promession”, uma forma de sepultamento em que os restos humanos passam pelo processo de liofilização, sendo considerado um método amigo do ambiente.

Na sexta-feira, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) realizou uma sessão para ouvir a opinião pública, tendo vários moradores manifestado receios de poluição. O Governo salientou que o projecto ainda está em análise, e portanto ainda não há um plano de construção definitivo.

Numa nota emitida no mesmo dia, o IACM justificou que, de acordo com a lei de Macau, o crematório só pode ser construído dentro de um cemitério. Os trabalhos de avaliação das condições dos cemitérios existentes começaram em 2017, incluindo uma avaliação ambiental e condições de transporte.

O Governo mencionou ainda que devido à existência da colina é criada uma divisão natural entre as instalações do crematório e os edifícios. Para além disso, como a localização é boa, os carros funerários percorrem um percurso mais curto e minimizam o impacto nos moradores.

O IACM assegurou que os equipamentos do crematório vão respeitar todos os padrões de emissão de gases poluentes e será usado gás natural como fonte de energia limpa.

Segundo os dados estatísticos, no ano passado, dos cerca de 2.000 serviços fúnebres, 1.600 dizem respeito a cremações em Zhuhai, número que duplicou em relação a 2007. Aliás, 75% do total de serviços é relativo ao uso do crematório. Nesse sentido, o IACM concluiu que a procura vai aumentar no território.