Nos primeiros nove meses deste ano, a Air Macau perdeu quase 70 mil passageiros face a igual período de 2016, sofrendo uma quebra inédita desde 2011. Com a oferta e a procura em declínio, a transportadora corre o risco de fechar o exercício anual com prejuízos, contrariando um ciclo de sete anos consecutivos de lucros
Sérgio Terra
Pela primeira vez desde 2011, a Air Macau registou descidas nas componentes da oferta e procura no período compreendido entre Janeiro e Setembro, o que naturalmente teve reflexos negativos no volume de passageiros transportados. Dados inscritos num relatório da Air China, accionista maioritária (66,9%) da transportadora local, deixam em aberto um cenário potencialmente ainda mais cinzento: tendo em conta que o segmento do transporte aéreo representou 99% das receitas totais no primeiro semestre, a Air Macau poderá estar perto de fechar o exercício financeiro de 2017 com prejuízos, após sete anos consecutivos de lucros.
Nos primeiros nove meses do corrente ano, a Air Macau transportou cerca de 2,04 milhões de passageiros, o que representa uma quebra de 3,31% comparativamente aos 2,11 milhões contabilizados em igual período de 2016, revelam os dados mais recentes a que o Jornal TRIBUNA DE MACAU teve acesso e que não incluem registos financeiros relativos ao terceiro trimestre. No intervalo de um ano, a companhia perdeu assim cerca de 69.800 passageiros, a uma média de quase 7.800 por mês.
O desempenho da transportadora no capítulo do transporte aéreo vai em sentido contrário ao do Aeroporto Internacional de Macau, que registou um aumento global de 6,5% para 5,86 milhões de passageiros entre Janeiro e Outubro, impulsionado sobretudo pelas companhias “low-cost”, cuja quota de mercado subiu para 36% fruto de um acréscimo de 33% nos clientes.
Apesar de uma recuperação ténue no terceiro trimestre, com os passageiros a subirem 0,76% para 745.500 em termos homólogos, o resultado da Air Macau contrasta também com a tradicional tendência de melhoria na segunda metade dos calendários anuais. Em 2016, por exemplo, o número de clientes a bordo cresceu 24,4% entre Janeiro e Setembro, contribuindo decisivamente para que as contas evoluíssem de um prejuízo de 38 milhões de renminbis (46,3 milhões de patacas ao câmbio actual) no primeiro semestre para um lucro de cerca de 29 milhões de patacas no cômputo geral do ano.
Quebras na oferta e procura
De acordo com um relatório anterior da China, a transportadora de “bandeira” do território registou prejuízos de 15 milhões de renminbis (quase 18,3 milhões de patacas) na primeira metade de 2017, valor menos expressivo que, à partida, facilitaria a recuperação na segunda metade do ano. No entanto, para além do declínio absoluto nos passageiros, quebras noutros parâmetros operacionais poderão complicar a tarefa de uma empresa que tem assumido encargos elevados no processo de renovação da sua frota.
Embora a taxa média de ocupação dos voos tenha aumentado 0,76 pontos percentuais para 74% nos primeiros nove meses deste ano, os dados da Air Macau continuam a evidenciar descidas tanto na oferta como na procura. Até Setembro, o indicador RPK (“Revenue Passenger Kilometer”), que reflecte a procura de transporte aéreo multiplicando o número de passageiros pagantes pelos quilómetros voados, caiu 4,83%, enquanto o ASK (“Available Seat Kilometer”), ou seja a multiplicação do total de lugares disponíveis para venda pelos quilómetros voados, diminuiu 5,8%.
No primeiro semestre de 2017, a Air Macau, cuja frota integrava no final de Junho 18 aeronaves com uma idade média de 7,8 anos, obteve receitas de 1.404 milhões de renminbis, o que representa um acréscimo de 8%, com o tráfego aéreo a valer 1.354 milhões (mais 7,12%).
Entre 2005 e 2009, a Air Macau acumulou perdas superiores a 600 milhões de patacas, mas desde então obteve sempre resultados anuais positivos. Com o “fantasma” dos prejuízos de volta ao horizonte, a manutenção desse ciclo positivo está agora dependente das contas do último trimestre de 2017.



