José Augusto Duarte e Vítor Sereno (esq.)
José Augusto Duarte e Vítor Sereno (esq.)

Já existe substituto para Vítor Sereno, que deverá sair da posição de Cônsul-Geral em Macau apenas daqui a seis meses, avançou o Embaixador José Augusto Duarte. Com uma rede consular maior, dada a aproximação da abertura do Consulado de Cantão, a diplomacia portuguesa parece apostada em focar-se nas questões económicas e abandonar as políticas para instâncias internacionais

 

Salomé Fernandes

 

Na primeira deslocação que fez à RAEM enquanto Embaixador de Portugal na República Popular da China, José Augusto Duarte afirmou que o Cônsul-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong “ainda vai ter muitos meses aqui pela frente”. Embora sem adiantar uma data final, “diria que são seis meses”. Apesar desta extensão, dado que se considerava que Vítor Sereno abandonava a posição este Verão, o seu substituto já está definido, mas o nome ainda não é conhecido.

Por outro lado, o Consulado de Cantão, que está a cargo do Cônsul-Geral André Sobral Cordeiro deve abrir numa “questão de dias”. Os preparativos finais são apenas do foro logístico, estando já todas as autorizações emitidas. José Augusto Duarte afirmou ainda que “adoraria que Portugal tivesse consulados em mais cidades, o país tem uma dinâmica fantástica”, mas de momento o enfoque será em dotar os já existentes com “recursos humanos e materiais”. Ou seja, uma aposta na consolidação e não na expansão.

Reconhecendo que “a China não é apenas distante, é intimidatória”, o diplomata acredita que a Embaixada pode ter um papel em apoiar as empresas que queiram entrar nesse mercado. A dimensão geográfica, humana, a separação linguística são factores “intimidatórios”, mas José Augusto Duarte afirma que, depois de criadas as condições legais para exportar mais produtos para os quais não existem acordos, se pode “trazer os empresários, dar-lhes a devida preparação, informação, estabelecer contactos, fazer lobby”.

Mas ainda há caminho a percorrer entre Portugal, a China e Macau. “Temos uma relação estável, um excelente entendimento institucional. Convém que agora se materialize em coisas tangíveis que beneficiem ambos os povos”, disse o embaixador, acrescentando que “neste momento podemos ir mais além porque o entendimento é excelente e as trocas comerciais/de investimento não têm progredido ao ritmo que é o bom entendimento institucional”.

Em falta está um maior envolvimento da sociedade civil portuguesa no aproveitamento dos mecanismos já existentes ao nível institucional, como sucede em Macau. “O Estado tem de fazer aquilo que lhe compete que é criar as condições mas a sociedade civil tem essa mesma ambição e desejo de se dar a conhecer, de exportar, de comercializar. Não é fácil porque fisicamente somos muito distantes. Há uma enorme distância que separa Portugal da China e da RAEM. A distância física conta”, comentou.

Frisando a vontade de projectar mais os criadores artísticos e culturais portugueses na RAEM e na China, o representante de Portugal indicou que “se vingarmos aqui vingaremos certamente naquela que é a projecção da geoeconomia do século XXI”. “Quem tem sucesso aqui tem uma competitividade e robustez que projecta para a globalização cultural e económica a que estamos a assistir. Criar as condições legais é o primeiro passo mas nunca será o último”.

Apesar disso, não é a China mas sim a União Europeia a prioridade diplomática de Portugal. “É obviamente da maior importância para nós porque é em Bruxelas que aprovamos legislação que depois vai ser transportada para Portugal e condiciona a nossa vida económica”, notou José Augusto Duarte. A China marca presença nos restantes países de topo, não apenas pelo seu poderio económico mas também por ser membro do Conselho Permanente das Nações Unidas.

 

Tensões devem resolver-se “nas instâncias próprias”

O projecto “Uma Faixa, Uma Rota” está sob debate também com as autoridades chinesas, mas “foi bem acolhido por todos os chefes de Estado europeus”, sublinhou o embaixador. No entanto, têm sido levantadas preocupações. Quando visitou a China em Janeiro deste ano, o Presidente francês Emmanuel Macron disse que a nova Rota da Seda não pode ser apenas num sentido, apelando à reciprocidade.

A iniciativa “que é meritória do ponto de vista político e económico”, pode “suscitar alguns debates à ordem do comércio internacional, à globalização”, disse o embaixador. No entanto, conta com o debate com as autoridades chinesas para se atingir o interesse comum.

“Neste momento estamos no meio de algumas tensões criadas de forma unilateral pelo Presidente dos EUA na área comercial. Esta questão acaba por ser aflorada também. Mas é um debate que está em curso”, afirmou. O embaixador indicou ainda que “esses debates se fazem nas instâncias próprias, há organizações internacionais criadas pela sociedade internacional para isso”, afirmou. No que respeita a trocas comerciais, a União Europeia tem insistido em que as divergências entre os Estados Unidos e a China nas taxas alfandegárias sejam resolvidas através do mecanismo de disputa da Organização Mundial do Comércio.

Quanto à tentativa de defesa de Portugal dos seus interesses económicos, José Augusto Duarte mostrou-se positivo quanto aos resultados, nomeadamente em relação à inclusão de Sines na rota Atlântica, que considera que seria mutuamente benéfica.

“Se Sines estiver ligado à ‘Uma Faixa, Uma Rota” significa que [Portugal] está ligado por mar mas pode também estar ligado por terra, por caminhos de ferro. Significa que a nossa economia pode sair beneficiada com isso porque temos uma posição estratégica única na Europa de facilitação de ligação ao continente americano e africano e por terra também há toda esta massa continental euro-asiática”, explicou. O interesse estratégico em ficar conectado à iniciativa seria, porém, em toda a área das infra-estruturas e não apenas em Sines.

 

Celebrar Portugal com outro som

As comemorações de Portugal em Pequim vão assumir este ano um formato diferente, com o agendamento de um concerto da Orquestra Barroca da Casa da Música do Porto na China. “A celebração do dia de um país numa capital é um momento muito especial. Porque temos boa parte da administração do Estado que nos recebe lá, temos convidados estrangeiros que competem connosco, amigos vários, imprensa e geralmente fazemos um cocktail”, comentou o embaixador.

Este ano, procura-se aproveitar essa congregação de figuras políticas para “invocar o passado e criar inspiração para o presente”. Isto porque no fim do século XVII o imperador chinês Kangxi teve um conselheiro português vindo de Macau que o introduziu a esse género musical. “Ao invocar Kangxi e Tomás Pereira estamos a invocar uma época áurea do nosso entendimento e do entendimento entre seres humanos. Conquistamo-nos uns aos outros pelo capital de sedução”, referiu José Augusto Duarte.