O artista que representou Portugal no Festival da Eurovisão este ano com uma máscara de colheres e que é conhecido pelas letras singulares, visitou a Ásia pela primeira vez para actuar no “This Is My City”. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, Conan Osiris confessou que se sentiu “normal” em Macau e apaixonou-se pelo público de Zhuhai

 

Sofia Rebelo

 

Conan Osiris estreou-se em Zhuhai e Macau, na quinta-feira e sábado, respectivamente, com espectáculos integrados no Festival “This Is My City”. Em entrevista concedida ao Jornal TRIBUNA DE MACAU antes de actuar na RAEM, o artista, que se apresenta como Tiago Miranda fora dos palcos, afirmou que “não tinha grandes expectativas” sobre os dois concertos.

“As pessoas estavam olhar para mim ontem, mas eu sentia que me estavam a validar. Estavam interessadas de uma maneira positiva. E eu pensei: Uau, eu posso ser normal aqui”, em Macau, contou, divertido. “Apercebi-me que muitas das referências estéticas que tenho são efectivamente normais aqui, como um carro cheio de peluches” ou “a maneira como as pessoas aqui misturam as cores e as usam”.

Ao contrário de Lisboa, e de outros sítios onde actuou ao longo deste ano, Conan Osiris sentiu em Macau que “ninguém parava a sua vida para olhar e julgar”. “Toda a gente estava tranquila, as pessoas são educadas e isso é muito inspirador”. “Senti-me em casa aqui. Senti que não era tão maluco como, às vezes, as pessoas me fazem sentir. Aqui senti que não estou assim tão desfasado da normalidade”, reforçou.

O cantor português também saiu de Zhuhai “apaixonado” pelo público, descrevendo o concerto com uma experiência “super surpreendente”. “À medida que nos começámos a libertar, junto com o público, foi uma conversa sem língua e sem linguagem que conseguimos levar até ao fim e onde nos acabámos por entender bem mutuamente. Adorei”, confessou.

Antes do espectáculo nas Oficinas Navais nº2, o músico preferia manter expectativas “humildes”. “Embora haja aquela relação com Portugal não sei como é que está essa relação com Portugal ou a língua portuguesa aqui. Então tenho a mesma posição humilde que tinha em Zhuhai: se não aparecer ninguém é o que eu estou à espera; se estiver bastante gente, logo vemos como é que se vai desenrolar”.

Sobre Macau, Conan Osiris achava que “iria ser mais ‘fake’ por causa da história dos casinos”. “Mas não. A cidade tem vida própria, identidade, história e uma calma que me transmitiu autoconfiança”.

O músico, que afasta rótulos quanto ao seu estilo musical, salientou que utiliza “um instrumento muito específico” – o Koto – que “nunca tinha pensado o quão familiar poderia ser para esta zona do mundo”. “As pessoas estão à espera que seja uma coisa mais ocidental, e depois não é. Fica ali no meio e por isso, acabam por apanhar essa familiaridade”, disse, acrescentando que acaba por “ter mais referências asiáticas do que por exemplo jazz ou country”.

“Nos anos 80 a minha mãe ia todos os fins-de-semana ver filmes de Bollywood e eu acredito que isso de alguma forma passou para mim, porque me identifico muito com as músicas. Deve ter ficado no meu código genético”, explicou entre risos. O nome artístico tem também inspiração asiática, uma vez que vem da personagem principal da série de animação japonesa “Future boy Conan”.

 

Contrariar o “negativismo”

Conan Osiris esteve nos holofotes do grande público português quando participou no festival da canção com a controversa música “Telemóveis”, do álbum “Adoro Bolos”. O tema, que ascendeu ao topo da tabela do Spotify e conta com mais de quatro milhões de visualizações no YouTube, foi a primeira música portuguesa a não ser qualificada para a final da Eurovisão, gerando uma onda de opiniões sobre a música e o artista.

“A Eurovisão foi o ponto de viragem, mas acredito que se eu não tivesse feito o trabalho de casa bem feito não iria conseguir manter-me à tona tanto tempo. Ninguém chega a lado nenhum só com uma música. (…) Foi um momento que marcou, sem dúvida, mas foi o meu background que cimentou essa explosão”.

“Em Portugal há sempre o preconceito de que ‘ele não vai chegar a lado nenhum’, um certo negativismo”, apontou, reconhecendo por outro lado que também “há aquelas pessoas que dizem ‘não ele não vai desaparecer assim tão facilmente’”.

As pessoas a que se refere são apresentadores e artistas portugueses, como “por exemplo o Herman, uma referência da minha infância”. “De repente estou no programa delas, porque acham que o que faço é pertinente e interessante”. Recentemente, a “Rita Pereira deu-me os parabéns e eu fiquei a pensar ‘This is a big thing’, ela sabe quem eu sou”, recordou.

“Este ano, que já parecem dois, actuámos um pouco por todo lado, em Oslo, Madrid, São Paulo”, e além do “crescimento profissional tem sido também pessoal”, salientou. “Tudo tem que ter o seu ritmo para construir uma base estável, porque não consigo funcionar de outra forma. Estou sempre muito envolvido em tudo”, assegurou.

“Quando comecei a trabalhar fazia tudo sozinho inclusive as músicas, que não eram feitas para tocar ao vivo porque eu nunca pensei que isso fosse acontecer”, assumiu o cantor, que agora diz que “quando as faço, já as imagino em palco e em todo o processo técnico e logístico.”

Conan Osiris é autor, compositor e intérprete de músicas como “Celulitite”, “Borrego” e “100 Paciência”. Usa a rede social Instagram para partilhar “ideias e inspirações com as pessoas”, porque acredita que a plataforma “pode ser mais do que só fotos”. Regressa agora a Portugal para os ajustes finais do concerto agendado para 12 de Dezembro no Coliseu de Lisboa.