Passados 18 anos da transferência de soberania, é “bom que a população de Macau” sinta a presença portuguesa como “dinamizadora”, salienta Luís Ortet em entrevista à TRIBUNA DE MACAU. Da sua vertente de autor, o português radicado em Macau há largos anos lançou em 2016 o projecto Extramuros – um “local de encontro” entre as culturas chinesa e portuguesa que, de resto, também se encontra noutros lugares e iniciativas. Frisando que a comunidade lusa está em Macau “de corpo e alma”, Luís Ortet vê um futuro promissor na continuidade dessa cultura desde que continue a agir como tem feito na era da RAEM. Já enquanto investigador, Luís Ortet está dedicado a desenvolver dois campos de pesquisa: um relacionado com os pressupostos culturais e semânticos subjacentes à língua chinesa, e outro que explora as diferenças, mas também as semelhanças inesperadas, entre os conceitos da filosofia tradicional chinesa em comparação com os da filosofia clássica grega. Ambos serão desenvolvidos em livros, já que parte tem vindo a ser publicada em artigos

 

Catarina Almeida

 

-Lançou o projecto “Extramuros” com o intuito de estabelecer pontes com a cultura chinesa. Que pontes são essas que precisam de ser criadas ou fortalecidas?

-Quando cheguei a Macau, ao fim de dois/três meses, percebi que para a minha maneira de ser seria impossível viver em Macau sem aprender Chinês. Não vim a prazo, de certa maneira mudei-me para cá. Tive sorte. Comecei a aprender Chinês com um professor (…) muito interessante e que começou a tentar explicar-me a lógica subjacente à língua chinesa que é muito diferente da lógica ocidental (…) de maneira que fui encontrando contrastes entre as ideias subjacentes às várias expressões da língua. Por exemplo, um lago natural é, traduzido à letra, um lago do céu. Um porto natural é um porto do céu, isto é, traduzindo o carácter tian como o céu para nós. Para eles, esse tian tem uma semântica muito mais alargada: pode querer dizer céu mas também Natureza, tudo aquilo que o Homem não controla. Fui acumulando muita informação e comecei a descobrir alguns paralelismos entre a filosofia tradicional chinesa e a filosofia clássica grega. Pelo que o Extramuros é um local de encontro entre chineses que se querem explicar e falar da sua cultura com ocidentais, e ocidentais que estão interessados na cultura e língua chinesa – na generalidade os colaboradores do Extramuros sabem Chinês, em maior ou menor grau. Essa é a base: um ponto de encontro entre culturas que está a acontecer em várias áreas, na Arquitectura, Direito e muito na Arte. Por exemplo, acho fantástico os Salões de Outono da Fundação Oriente. Toda a gente sabe que eles vivem com um espartilho orçamental bastante grande e, no entanto, a utilização das verbas está a ser muito boa, não só em termos de afirmação da arte portuguesa, lusófona, etc, mas também da chinesa. O Salão de Outono faz parte do calendário dos artistas chineses de Macau. Fico muito contente porque já fizemos o primeiro aniversário e temos coisas novas a lançar em 2018. Vejo o Extramuros apenas como um dos movimentos de encontros entre culturas que acontecem de maneira natural, um dos quais o Festival Literário, de que gosto muito. Já assisti a sessões fantásticas com escritores nacionais e com a casa cheia de chineses. É bom que a população de Macau, sobretudo a mais educada e mais exigente, sinta a presença portuguesa como dinamizadora.

 

-Após 1999, para alguns, pairava a ideia de que a presença portuguesa em Macau tinha um fim anunciado. Há uma evolução positiva nas relações entre as duas culturas?

-Quando a administração portuguesa acabou e houve a transferência de poderes, muitos portugueses foram embora, a comunidade reduziu-se bastante. Houve uma espécie de paralisia, ninguém acreditava que viesse a crescer. Estava-se à espera que os jornais, mais tarde ou mais cedo, começassem a ter problemas. Aconteceu ao contrário. Começaram, a partir de certa altura, a chegar portugueses e quando houve a crise em Portugal ainda mais. A comunidade portuguesa tem sabido gerir bastante bem o espaço, com os seus diferentes órgãos de acção, começando pela comunicação social, quer a nível de jornais quer a nível da TDM, utilizando o máximo possível a liberdade concedida. Seria pensável que a TDM tivesse uma atitude defensiva e não ocupasse, por exemplo, o espaço do ‘Contraponto’. No entanto, acho que foi muito bom – não só a existência do ‘Contraponto’ na rádio – como sobretudo a passagem para a televisão. Se um dia o ‘Contraponto’ deixasse de existir seria notícia. Se tivesse seguido uma estratégia mais defensiva, se não existisse, era visto como sendo natural, pelo facto de sermos uma comunidade minoritária. A ocupação do espaço é extremamente importante e este encontro e intercâmbio cultural entre as comunidades de língua chinesa e língua portuguesa é o resultado normal: os pintores encontram-se uns com os outros, ainda que haja, como é natural, mais pintores chineses do que portugueses, mas têm feito coisas juntas. Tem acontecido não de uma maneira programada mas natural, porque nós, portugueses, estamos de corpo e alma em Macau. Uma das coisas boas que a governação portuguesa de Macau fez foi o programa de preparação de chineses [para estudar em Portugal]. Digo isto em retrospectiva porque dirigi jornais que criticaram o programa e enganámo-nos. Hoje, mesmo a nível do Governo, continuamos a ter gente que fala fluentemente Português. A Administração fala Português! Mas, da mesma maneira que se deu a oportunidade a cidadãos chineses de viverem em Portugal para estudar Português, pagos pelo Governo, porque não decidiu o Governo apostar e preparar alguns portugueses – os mais interessados – e durante dois/três anos pagar-lhes para estudarem, a sério, o Chinês? Isso foi feito em Hong Kong. Houve aí falta de ambição e estamos a pagar caro. Sinto muito isso nos jornalistas jovens que chegam. Não é fácil uma pessoa adulta aprender Chinês porque é uma língua muito diferente da nossa e que requer muito tempo.

 

-O Português é língua oficial até 2049. Esse é o calendário. O que será dos portugueses de Macau depois dessa data?

-Não tem que deixar de ser, necessariamente, pelo que se conhece da maneira chinesa de fazer as coisas. Já ouvi chineses de algum nível, em termos de conferências, etc, dizerem que a hipótese de continuar a haver, não igual, mas um certo grau de autonomia de Macau e Hong Kong não é uma ideia completamente fora. O futuro depende do que fazemos. Será um acto um bocado contranatura se a comunidade portuguesa continuar com a sua presença vibrante, não recuar, e lhe quiserem retirar ou diminuir o espaço que ocupa. Algo que a filosofia política chinesa, chamemos-lhe assim, não gosta muito. No caso de Hong Kong e Macau o conceito – e não que me identifique com o regime político chinês – ‘Um País, Dois Sistemas’ de Deng Xiaoping é brilhante: é uma maneira pragmática de resolver um problema não resolvendo. Isto é, como é que vamos integrar Hong Kong e Macau na China sem integrarmos? É uma maneira não evasiva de resolver os problemas e apostar no tempo. A ideia central é: claro que ninguém sabe o que irá acontecer nessa altura, mas na minha opinião não é obrigatório que a China venha a integrar Hong Kong e Macau sem qualquer grau de autonomia. Ou seja, “Um País, Dois Sistemas” pode não acabar nessa data, embora sob uma forma diferente. Tudo depende das circunstâncias, nomeadamente sobre como evoluirá a situação política de Hong Kong.

 

-Também porque o Português é igualmente uma língua da economia, da política de Macau e da China…

-…E da política de cooperação entre a China e os países lusófonos. O futuro está muito nas nossas mãos. Agora, deve-se acentuar o que se tem estado a fazer, tirar lições destes 18 anos de que vale realmente a pena ocupar os espaços disponíveis. Vai depender muito disso e a China vai saber jogar muito bem com a situação vigente. Não vejo a China a mandar todos os portugueses embora, não é muito o estilo.

 

-Há vozes que apontam no sentido de que a aposta no Português não é suficiente.

-Macau é uma parte da China e a versão oficial da China é o Mandarim. No entanto, vamos à rua – e neste momento já há muita gente a falar Mandarim – mas continua-se a falar Cantonês. O Português não está muito desfavorecido em comparação com o Mandarim. As pessoas falam em Cantonês porque é a língua natural. Há duas vertentes possíveis, a do Governo da RAEM – se bem que não percebo bem o que tem em mente porque há uma componente privada e semiprivada. Por exemplo, o Instituto Politécnico de Macau (IPM) está com uma política muito interessante e proactiva pela China dentro. Tem-se feito muito, mas a nível da Administração e da Universidade dá ideia que as coisas não estão muito bem arrumadas. É diferente do IPM. O presidente do IPM sabe e gosta da língua portuguesa, tem feito uma aposta concreta de fazer de Macau uma plataforma em termos de língua portuguesa na China. É uma área que vai depender muito do que as várias entidades forem fazendo.

 

-Os portugueses têm consciência do seu papel em Macau?

-É uma pergunta um bocado difícil e prefiro responder dizendo que é bom que tenham. As coisas foram acontecendo sem as pessoas perceberem, os jornais tornaram-se estabilizados financeiramente como nunca foram e os restaurantes portugueses… quem diria que haveria mais agora?!? Depende de nós e há razões suficientes para as comunidades portuguesa e lusófonas continuarem a apostar com força – veja-se as atitudes da Casa de Portugal, Festival de Lusofonia… Estes 18 anos mostram que compensa às comunidades ocuparem todo o espaço que encontrarem.

 

-Tem desenvolvido estudos sobre a relação entre a cultura chinesa e a grega clássica. Qual foi o ponto de partida destas investigações e onde se encontra essa relação?

-No final dos anos 80, o Rogério Beltrão Coelho – na altura estava no IC onde dirigia, com a esposa Cecília Jorge, uma espécie de gabinete de projectos especiais que publicava livros sobre a cultura chinesa – e fui convidado a escrever para essa colecção um livro sobre as crenças e superstições chinesas (“As Mil Faces da Lua”). Tive uma grande vantagem porque nessa altura não havia Internet – um dos maiores amigos e inimigos dos jornalistas – pelo que tive de usar como fonte principal a realidade. Trabalhava no Gabinete de Comunicação Social (GCS), ainda antes de escrever o livro, e reparei que o Hotel Lisboa [o antigo] tinha aquele design um bocado estranho e falei com alguns colegas que me disseram que era uma coisa do feng shui. No Largo do Senado havia bastantes adivinhos, fui falar com eles e entrei em contacto com um Mestre de feng shui que me fez uma visita guiada e explicou-me a simbologia toda (também publicada no “As Mil Faces da Lua”). As pessoas não sabem mas aquele alpendre que existe à entrada do Hotel são as asas de um morcego e há umas luzes vermelhas que serão as garras, isto porque a palavra [em chinês] rima com outra que quer dizer sorte e fortuna. A gaiola não é completamente fechada porque a ideia, dizia-me o mestre de feng shui, é não prender os jogadores para que deixem o dinheiro [no casino] e para depois voltarem. Ele tinha muito sentido de humor.

 

-Entretanto começou a trabalhar no livro…

-Escrevi o livro, fiz um levantamento dos vários tipos de crenças e a certa altura comecei a acumular muita informação nomeadamente sobre a “astrologia” chinesa (entre aspas porque não há nenhuma astrologia chinesa, o termo é errado) e cheguei à conclusão que por detrás de tudo isso estava a teoria dos cinco “elementos” (é uma tradução incorrecta porque são cinco fases, mas a expressão já está consolidada) que é uma explicação sobre o funcionamento do universo. Por detrás dos signos – que é algo em que os mestres de feng shui não acreditam. Já falei com muitos [mestres] e eles dizem que é só um entretenimento, porque para dizer alguma coisa sobre a vida [pessoal] é preciso saber o ano, mês, dia e hora do nascimento. A partir desse momento usam a ciência antiga, o Bazi (sistema chinês de ‘adivinhação’ baseado no ‘estado da Natureza’ no momento em que cada pessoa ou entidade nasce). No fundo é o conceito a que os gregos chamavam katarche e que se encontra tanto na filosofia tradicional chinesa como na filosofia clássica grega, segundo a qual tudo o que nasce num determinado momento “absorve” o padrão do “estado da Natureza” (ou do cosmos) nesse mesmo momento.

 

-Mera coincidência?

-Em termos de história das ideias é curioso. Segundo a ideia deles é possível especular sobre o que será a vida da pessoa vendo e analisando o estado da Natureza no momento em que a pessoa nasce, uma vez que a vida humana é um fenómeno da Natureza. Há uma certa conjuntura na Natureza em cada momento e todo o fenómeno que comece – dentro desse conceito do katarche – absorve um bocado do equilíbrio da Natureza. Eles só acreditam nisso, e combinam com a leitura do rosto, das mãos e utilizam o feng shui – que é um conceito interessante porque não são fatalistas, dizem antes que não se pode mudar uma série de coisas. Tem regras científicas (antigas), é baseada nas quatro Estações, e os gregos também fizeram isso, como refere Aristóteles no livro “Da geração e a corrupção”. São regras muito claras, até porque a diferença do que dizem os diferentes mestres não é muito grande, ao contrário do que acontece no Ocidente – a tradição da ‘astrologia’, em referência a Cláudio Ptolomeo que influenciou bastante a ideia que chegou até nós sobre a ‘astrologia’ (não tem nada a ver com a ideia que presentemente se tem do que é a “astrologia”, ou seja as “previsões” baseadas nos “signos de nascimento” de cada pessoa. A astrologia dos gregos clássicos não era baseada nos “signos” mas sim nos planetas do sistema solar e nas estrelas). Almanaques e festas à parte, os mestres são muito rigorosos.

 

-A base das relações entre as culturas chinesa e grega vai além dessa área?  

-O estudo, livro e a investigação sobre as crenças nos signos e no sistema chinês Bazi foi o que me conduziu, e depois fui ter a uma área mais larga: as diferenças e os aspectos comuns entre a filosofia tradicional chinesa e filosofia clássica grega. Por exemplo, há textos atribuídos a Hipócrates – fundador da Medicina Ocidental – sobre a natureza do Homem. Comecei a ler e percebi que era Medicina Tradicional Chinesa. Aquele conceito de ligar o funcionamento dos quatro humores (algo em que o Galeno pegou anos mais tarde e que dominou a medicina ocidental da Idade Média até à Revolução Científica) com as quatro estações – sendo que os chineses também funcionam nessa base. Ou seja, descobri um paradigma, sendo que o próprio Aristóteles no livro sobre a geração e a corrupção também liga os quatro elementos às quatro estações do ano. Dos livros que li até agora ninguém fala nisto, descobri por puro acaso e, por isso, há 20 anos que decidi investigar este campo.

 

-Está em que fase da investigação?

-As ideias centrais já tenho. Estou numa fase menos adiantada do que a [investigação] referente aos pressupostos culturais e semânticos subjacentes à língua chinesa porque, sobre essa, já escrevi. Será mais transformar em livro aquilo que já saiu, nomeadamente, na Revista Macau sobre o carácter (e radical) chinês xin, que tanto significa “coração”, o lado emocional das pessoas, como “mente”.

 

-É curioso porque, na semântica ocidental, o conceito é totalmente diferente…

-Há aquele ditado do cientista e pensador francês do século XVII, Blaise Pascal de que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Isso é muito curioso porque há muita gente que não sabe que, entre os gregos, começou-se a discutir onde ficava a mente em termos corporais. Havia duas escolas de pensamento: uma que dizia que era na cabeça (por exemplo Platão) e o superinteligente Aristóteles que dizia que a mente era no coração, utilizando um método de análise da realidade: olhavam à sua volta, pensavam, e elaboravam teorias.