Obra de Sales Lopes será lançada na terça-feira
Obra de Sales Lopes será lançada na terça-feira

A comida de identidade, tanto em Macau como por onde a diáspora macaense se estabeleceu, como uma porta aberta e de descoberta até às vivências sociais dos macaenses. Fernando Sales Lopes apresenta agora, em livro, um trabalho que concluiu em 2000 e que relata as vozes daquela altura histórica de Macau, quando o sentimento de “orfandade” era transversal entre a comunidade

 

Catarina Almeida

 

A gastronomia vista como porta aberta para algo mais profundo, a etnicidade e identidade da comunidade macaense. Em “Os sabores das nossas memórias: A comida e a etnicidade macaenses”, Fernando Sales Lopes transporta o leitor até uma época “importante” e “histórica” construindo um caminho que parte de todos os fascinantes sabores que marcam a diferença do macaense, da terra, passando pela vozes da diáspora.

A obra é apresentada na próxima terça-feira, mas a sua conceptualização remonta a 2000 – ano em que Fernando Sales Lopes concluiu toda a pesquisa e investigação que deu azo a esta obra, agora editada pelo Instituto Cultural. “Isto começou a ser feito ainda antes do ‘handover’, numa (…) altura em que a comunidade estava numa indefinição muito grande, tinha um sentimento de orfandade, sem saber o que ia acontecer no futuro”, recordou o autor ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Depois de alguns percalços pelo caminho, por atrasos do IC, com mais de uma década de história entretanto passada, é agora publicada uma obra que, ainda assim, não deixa de ter actualidade.

Para o autor, “a importância” real da “comida macaense como um traço mais mítico do que real na construção da etnicidade do macaense” é relatada no livro escrito em Português. “É uma leitura de determinado momento importante da vida de Macau e dos macaenses e serve para vermos hoje se as coisas funcionam assim ou de outra maneira”, apontou.

Exemplo disso, relatou, é o facto do macaense daquele tempo ser o mesmo de hoje por falar “em relação à comida macaense como uma coisa do passado. Uma coisa que os define, que é muito importante para a classificação da sua identidade mas é sempre uma remontando à avó, tia-avó, criada, mãe.. É sempre uma algo distante”.

Ao longo de 215 páginas, Fernando Sales Lopes reproduz e transmite o que pensavam e sentiam membros da comunidade, e pessoas com conhecimento da terra sobre as coisas que estavam a acontecer e como eram vistas naquele tempo. É assim que se desenrolam as palavras nesta obra, num ritmo “dinâmico” de vai e vem.

Além desse contacto directo que estabeleceu, a pesquisa que dá nome e contexto a toda a obra assenta também nos relatos, em primeira pessoa, dos que participaram naquele que se pensava ser o último Encontro de Macaenses no território. “Aproveitei essa altura para ter uma visão geral da própria diáspora macaense, ou seja, além de ouvir os informantes qualificados em Macau, as pessoas de Macau ligadas à comunidade e que lutavam pelas coisas da comunidade, acabei por aproveitar esse Encontro e lancei 450 inquéritos a toda essa gente da Austrália, Brasil, Canadá, Portugal, Hong Kong, de todo o lado, não só sobre a comida macaense mas também sobre a identidade”, explicou.

No fundo, através da gastronomia, Fernando Sales Lopes leva o leitor até às vivências sociais que a mesma evoca. A partir dela, descreve-se e recorda-se, agora, um troço da história da globalização inscrita na forma de ser e de viver de uma gente que não está apenas confinada ao território propriamente dito, mas que viajou e rumou para outras paragens nesse mundo fora. “É a comida macaense mas com a questão do género, dos hábitos alimentares, a importância da comida macaense como factor fundamental para se perceber o que é a etnicidade macaense porque através da comida sabemos, pouco mais ou menos, pela maneira como se utilizavam alguns pratos, a sua composição (…) e que nos indica uma certa origem étnica dos macaenses”, salientou o autor.

A obra será apresentada na Academia Jao Tsung – I, na Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, às 18:30.