António da Conceição Júnior apresentou ontem a obra “Quotidianos”. O livro que pretende ser revolucionário, embora a esperança de mudar o cenário cultural de Macau seja pouca

 

Salomé Fernandes

 

Foi em tom de alguma angústia que se deu ontem a apresentação da obra “Quotidianos”, de António da Conceição Júnior. O livro, somatório de 43 textos publicados ao longo de dois anos, aborda temas que preocupam o autor enquanto cidadão. “Estamos a ser governados e dirigidos pela mediocridade. E somos nós, os lusofalantes, aqueles que poderíamos emprestar alguma contemporaneidade e lucidez a Macau, que não somos aproveitados. Pelo contrário, somos esquecidos”, disse o autor na sessão de lançamento.

As dificuldades na tradução impossibilitaram a publicação da obra em chinês, para além do português. “Traduzir só não chega, é preciso interpretar. E é aí que tudo falha, porque acabam por ser totalmente literais”. Revelou, no entanto, que o seu sonho “era ter o ‘conversas do chá e do café’ traduzidos para chinês”.

O Cônsul-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, Vítor Sereno, descreveu o autor como “uma figura que ao longo das últimas décadas deu um forte apoio a este Macau multicultural, e para o diálogo entre Portugal, RAEM, e a República Popular da China”. “É um homem reconhecido pela sua verticalidade e por dizer sempre aquilo que pensa”, disse no evento, onde esteve também presente o Cônsul-Geral do novo posto em Cantão, André Cordeiro.

Um dos pontos de preocupação de António da Conceição Júnior sobre a cidade enquanto espaço cultural e social relaciona-se com o turismo. “Penso que os cidadãos estão a ser substituídos pelos turistas. E isto sucede normalmente nas cidades, ou nos países, sub-mundistas. Dou-lhe o exemplo de países virados exclusivamente para o turismo, que é o caso da Tailândia”, explicou em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

De acordo com António da Conceição Júnior, falta na RAEM qualidade urbana. Questionado sobre a existência de uma cultura específica de Macau, respondeu que “existiu, hoje está dissolvida por uma coisa chamada mercantilização da vida de Macau”, acrescentando tratar-se da “velha história da família que vai ver a avó e estão todos a ver o telefone”.

Mas, a esperança em atingir um equilíbrio entre as várias partes parece extinguir-se. “De certa forma é uma causa perdida. Perante o poder financeiro, do dinheiro, dos casinos que não estão tão virados para a população mas antes para os consumidores – que quase nunca são a população – é uma causa perdida. Contra milhares de milhões pouco se pode fazer”, comentou o escritor, que ainda assim se compromete a continuar a tentar lutar por ela.

O ideal, seria uma governação “com carga ideológica bem definida”, “um pensamento estruturado” que António da Conceição Júnior lamenta não encontrar. Assim, o seu livro não pretende ser literatura tanto quanto um texto interventivo.

“Interessa-me a literatura que chamo de intervenção, como a do António. Porque isso é que me parece mais importante para hoje, para nós e para Macau”, disse o apresentador da obra, Luís Sá Cunha. O investigador definiu como pilares das várias acções do autor ao longo dos anos “a introdução permanente da sabedoria dos clássicos chineses e o culto da cidade”.

Também Luís Sá Cunha deixou o aviso. “Ser um centro de lazer e turismo mundial não é assim”, frisou. “Quotidianos deu-me uma angústia”, disse, explicando que “não se pode fazer nada de qualidade em nós e na cidade se não tiver um grande fundo cultural. E isso falha em Macau”.

Para além disso, sublinhou que “o poder é conservador”. “Todas as revoluções culturais que se deram tiveram de ser clandestinas. Porque tem medo da crítica pública, há sempre conservadorismo e uma certa falta de ousadia”.