A celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, assinalado ontem, contou com uma sessão na Escola Portuguesa, a qual “transportou o público numa viagem poética e musical por muitos recantos da lusofonia”, segundo uma nota do estabelecimento de ensino. No evento “Clepsidra de Sonhos: A Saudade e o Futuro na Voz da Lusofonia”, participaram vários alunos, que declamaram poemas de Camilo Pessanha ao som da guitarra portuguesa e de música tradicional chinesa

VÍTOR REBELO

 

O átrio interior da Escola Portuguesa de Macau (EPM) encheu-se ontem de alunos de vários anos de escolaridade, pais e professores, para uma sessão que assinalou o Dia Mundial da Língua Portuguesa. “Clepsidra de Sonhos: A Saudade e o Futuro na Voz da Lusofonia”, uma celebração com duração aproximada de 45 minutos, “transportou o público numa viagem poética e musical por muitos recantos da lusofonia”, pode ler-se numa nota da EPM.

A cerimónia abriu com a professora Lia D’Alte a declamar “A Minha Língua”, de Cristina Semblano, um poema que cruza Coimbra com a favela, Timor com Goa, a morna com o samba, afirmando o idioma como “arquipélago e continente”.

Seguiu-se uma leitura dramatizada de excertos de Clepsydra, de Camilo Pessanha, pelos alunos de teatro da EPM, ao som da guitarra portuguesa e de música tradicional chinesa – uma evocação directa de Macau, onde o poeta viveu e escreveu. Um dos momentos especiais foi a interpretação bilingue (português e mandarim) de “Ao Longe os Barcos de Flores”, pelas alunas Cátia Pinto e Mariana Antunes.

O evento prosseguiu com o poema “Caminho I” de Pessanha – “Embebido em saudades do presente” – fundido com o medley “Saudade” (Daniel Filipe) e “Onde anda você” (Vinicius de Moraes/Toquinho), numa actuação conjunta da professora Cristina Street com os músicos da Casa de Portugal.

Depois, os estudantes do 12º ano interpretaram a canção “Terra” de Edmundo Inácio, uma reflexão sobre a pátria em Macau. A partir daí, “o futuro entrou em cena” com o grupo Orff em “Vamos pôr o mundo a mexer”, onde percussão corporal e ritmo construíram a língua que ainda vai nascer.

O encerramento ficou a cargo da Tuna da EPM e dos alunos do 2º ano que cantaram e dançaram “Respirar” dos irmãos Calema, num “hino à resiliência, à positividade e à abertura ao mundo, características tão próprias dos povos de expressão portuguesa”, sublinha o texto da autoria da professora Paula Pinto, coordenadora do departamento de Línguas.

Ao promover esta iniciativa, a EPM “demonstrou que a língua portuguesa está viva, é dinâmica e pertence às novas gerações”, prossegue a nota, acrescentando que “num mundo cada vez mais interligado, falar português é ter acesso a uma comunidade de mais de 260 milhões de pessoas, a uma herança literária riquíssima e a um património cultural imaterial que atravessa oceanos”.

Ao colocar os alunos no centro desta celebração – como intérpretes, declamadores, músicos e bailarinos – a EPM “forma não apenas falantes competentes, mas verdadeiros embaixadores da lusofonia no coração da Ásia”.

Do poema de abertura ao último acorde, “Clepsidra de Sonhos” transformou o átrio interior do estabelecimento de ensino num ponto de encontro entre “a saudade que se guarda e o futuro que se constrói em português”. A sessão foi aberta a toda a comunidade e proporcionou momentos de convívio, onde não faltou a degustação da gastronomia lusófona.

A celebração deste dia foi para a escola “muito mais do que uma efeméride”, constituindo uma “afirmação de identidade e um compromisso com o futuro”, envolvendo toda a comunidade escolar, desde os mais pequenos do 1º ciclo até aos alunos do secundário, passando por professores e parceiros institucionais como a Casa de Portugal.

O Dia Mundial da Língua Portuguesa foi instituído pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e reconhecido oficialmente pela UNESCO em 2019. “Mais do que uma data simbólica, esta é uma oportunidade para afirmar o português como um dos idiomas mais globais do planeta” – o mais falado do hemisfério sul, língua oficial em nove países distribuídos por quatro continentes, sem esquecer Macau, “onde a língua mantém um estatuto de relevância cultural e histórica”.

Com mais de 260 milhões de falantes nativos, “o português é hoje uma língua de ciência, de diplomacia, de comércio e, sobretudo, de criação artística”, menciona o comunicado.

“Cada país, cada região, cada comunidade acrescenta à mesma base linguística um sotaque, um ritmo, uma maneira própria de sentir o mundo”. “É essa pluralidade que se celebrou ontem dia 5 de Maio: não uma língua única e uniforme, mas um arquipélago de vozes que, falando português, conta histórias diferentes e, no entanto, próximas”, sustenta.

A EPM, onde o português é língua oficial ao lado do chinês, “assume um papel fundamental na promoção e difusão da língua portuguesa”, frisa, adiantando que num território que foi o último reduto europeu na Ásia e que hoje se afirma como “ponte natural entre a China e os países lusófonos”, o estabelecimento de ensino “mantém viva a chama da língua de Camões e de Pessanha”, formando gerações de alunos bilingues que “carregam consigo o melhor destas duas culturas”, conclui.