A película sul-coreana “Clean Up” arrecadou o galardão de Melhor Filme do Festival de Cinema de Macau. Fazendo um balanço geral positivo de todos os filmes, os membros do júri garantiram que não foi difícil escolher os premiados da noite de sexta-feira
Inês Almeida
Chegou ao fim, na sexta-feira, a terceira edição do Festival de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau (IFFAM, na sigla inglesa), que culminou na escolha de “Clean Up” para Melhor Filme. Em poucas palavras, o realizador Manki Kwon agradeceu a toda à equipa envolvida no projecto e assegurou que “receber o prémio foi uma surpresa”. “Esperamos voltar”, disse ainda.
Para o cineasta, o orçamento figurou como o maior obstáculo para este filme sul-coreano. “Não tínhamos muito dinheiro e precisávamos de acabar de filmar o mais depressa possível”, contou.
Em Macau esteve também o actor Dae-gun Kim, que destacou um dos desafios que a película lhe trouxe. “Ao longo das filmagens precisei de ser muito dramático e mostrar emoções muito duras. A última cena do filme foi a mais difícil que gravei até hoje”, garantiu.
“Clean Up” conta a história de Jung-ju que não consegue desprender-se da dor de ter perdido o filho devido a uma doença cardíaca. Passa a maioria das horas a trabalhar e a beber, além de ir à igreja. Um dia, Min-gu, um jovem acabado de sair da prisão, junta-se à sua empresa de limpezas e rapidamente a mulher se apercebe que Min-gu foi a pessoa que ela e o marido raptaram para usar o dinheiro do resgate para a operação do filho.
Guadalupe Loaeza e Gabriela Maire representaram equipa do “The Good Girls”
O prémio de Melhor Argumento foi para “Scarborough”, escrito por Barnaby Southcombe que também classificou a distinção como “inesperada”. “É uma honra extraordinária e um privilégio receber reconhecimento por um júri liderado por Chen Kaige. Trabalhei na televisão durante muito tempo e uma das belezas do cinema é que é um meio em que o realizador se pode expressar da melhor forma possível”.
“The Guilty” deu a Gustav Moller o prémio de Melhor Realizador, porém, o dinamarquês não esteve em Macau para o receber. O filme conta a história de um antigo agente da polícia e actual trabalhador dos serviços de emergência que responde a um pedido de socorro de uma mulher que foi raptada. Quando a chamada cai de repente, começa a busca pela mulher e o seu raptor. Jakob Cedergren, estrela da película, arrecadou o prémio de Melhor Actor.
Aenne Schwarz, do filme alemão “All Good”, foi considerada a Melhor Actriz, pelo seu papel na longa-metragem que conta a história de Janne, uma mulher que foi vítima de avanços indesejados por parte do cunhado do patrão. Ela escolhe manter o silêncio sobre o incidente mas essa atitude tem consequências e não apenas para a sua relação com o namorado.
O público local deu a vitória a “The Good Girls”, que levou até ao México o “Macau Audience Choice Award”. Gabriela Maire disse estar “muito feliz” com o prémio. “É muito importante que o público tenha gostado do filme”.
Por sua vez, Guadalupe Loaeza, autora do romance em que a película é baseada, destacou que “o México ganha com este prémio fantástico”. “Escrevi esta história há alguns anos e ainda é muito actual. Estou muito feliz e agradecida”.
“White Blood” conquistou o júri
Prémio de Melhor Jovem Actor foi atribuído a Abhimanyu Dassani
O Prémio do Júri foi para “White Blood”, da Argentina. Realizado por Barbara Sarasola-Day, o filme conta a história de Martina e Manuel que atravessam a fronteira da Bolívia para a Argentina transportando droga dentro do organismo. Manuel acaba por morrer ainda com a cocaína no corpo mas os traficantes não se importam e exigem a Martina que faça a entrega não só da droga que engoliu como da que está no organismo de Manuel. A jovem acaba por pedir ajuda ao pai que nunca conheceu.
“Estou muito entusiasmada, não estava à espera, é uma grande surpresa”, garantiu a cineasta após receber o prémio. “Quando se escreve e filma uma película ela nunca sai como se escreveu. Estou muito feliz com o resultado e fiquei muito interessada em filmar em fronteiras”, garantiu Barbara Sarasola-Day, notando que as filmagens ocorreram numa fronteira conhecida por ser “um grande ponto de tráfico de droga, em particular cocaína”.
“Quis contar uma história da relação difícil entre um pai e uma filha. Foi uma experiência incrível, em particular vivendo na fronteira. Foi muito interessante e perigoso. Tivemos um grande elenco e equipa técnica e isso tornou tudo mais fácil e alegre”, destacou a realizadora.
O Prémio de Melhor Novo Actor/Actriz foi para Abhimanyu Dassani da película “The Man Who Feels No Pain”, primeiro filme em que representou. “O realizador [Vasan Bala] foi a primeira pessoa que realmente acreditou em mim e fez-me sentir como um super-herói porque me fez acreditar em mim. Desde aí, foi um sonho tornado realidade”, assegurou o jovem.
Chen Kaige foi distinguido pela sua carreira
No filme, protagoniza um homem que domina artes marciais. Na realidade, nunca tinha praticado. “Comecei a treinar seis horas todos os dias e mais três horas de treino de ginástica e outras modalidades. Nos últimos três meses estive isolado, não falei com ninguém a não ser com o realizador para entrar na mentalidade da personagem”.
Olhando para trás, garante que o processo não foi duro. “Pareceu-me uma das melhores coisas da minha vida. Estava ansioso por cada dia de filmagem”.
Chen Kaige, que preside ao júri, foi agraciado com o “Spirit of Cinema Achievement Award” em reconhecimento de toda a sua carreira como realizador.
Uma selecção “excelente”
Em jeito de balanço, no final da entrega de prémios, o presidente do júri do IFFAM destacou que a selecção dos filmes era “excelente”. “Havia quatro ou cinco filmes que todos achávamos que iam ganhar um ou outro prémio. O que me impressionou é que todos os realizadores são muito novos e fizeram um excelente trabalho”, frisou o realizador chinês, Chen Kaige.
Paul Currie, realizador australiano, adjectivou de “espectacular” a selecção de filmes em competição no IFFAM e a actriz Tillotama Shome fez questão de mencionar em particular a película alemã “All Good” uma vez que “o tópico da violência é algo que pode tornar-se pesado e levar a julgamentos, mas fiquei muito impressionada porque é uma celebração da resiliência e conseguir isso sem julgar a personagem masculina é um feito incrível”. “A actriz fez as minhas entranhas contorcerem-se e o filme fez algo tão inexplicável mas importante”, sublinhou a actriz indiana.
Júri fez um balanço positivo dos filmes
Por sua vez o realizador bósnio Danis Tanovic apontou que “houve filmes diferentes” que o júri adorou por vários motivos. No fundo, explicou, “é difícil julgar e comparar filmes”. “Desta vez concentrámo-nos nos filmes de que gostávamos mesmo e em cada um, quando ficávamos impressionados com os actores decidíamos dar o prémio à actuação, quando era a realização, o prémio ia para o realizador. Felizmente, desta vez não foi difícil. Já estive em festivais em que no final os membros do júri não se falavam depois de tanta discussão”.
Chen Kaige tem uma abordagem ligeiramente diferente, defendendo que um filme é seleccionado porque há algo nele com que é possível as pessoas relacionarem-se, porque é isso que as comove.
A cerimónia de entrega de prémios juntou cerca de 800 convidados de todo o mundo no Centro Cultural de Macau.



