O presidente do Instituto Cultural defende que o reconhecimento da colecção “Chapas Sínicas” pela UNESCO prova que não só os monumentos do território merecem destaque internacional. Leung Hio Ming entende que, assim, crescem as oportunidades para estimular a criação de obras literárias e artísticas com base em eventos históricos

 

Rima Cui

 

Além de ter um Centro Histórico reconhecido pela UNESCO e integrado recentemente a Rede de Cidades Criativas no ramo da Gastronomia, a RAEM acabou de ver a colecção “Chapas Sínicas” inscrita com sucesso no Registo da Memória do Mundo. “Isso prova que Macau não é apenas reconhecido a nível mundial pelo Património exterior mas também conteúdos interiores, o que representa um êxito significativo”, afirmou o presidente do Instituto Cultural (IC) em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Para Leung Hio Ming, esse marco representa um “grande encorajamento” para quem se dedica à cultura e arte. Além disso, o sucesso das referidas três candidaturas está relacionado com a fusão entre as culturas chinesa e portuguesa, sustentou.

Uma vez que, no passado, as pessoas encaravam os arquivos como espaços aborrecidos e distantes da sua vida quotidiana, o presidente do IC espera que o reconhecimento das “Chapas Sínicas” pela UNESCO desperte a atenção dos cidadãos para os documentos, sobretudo das pessoas ligadas à comunidade literária e artística. “Espero que este êxito incentive mais pessoas a frequentar o Arquivo de Macau, não apenas para estudos académicos”.

“Com a consulta dos documentos históricos, as pessoas podem ficar encantadas por eventos repentinos, pelos altos e baixos do comércio ou conflitos entre cidadãos, produzindo, posteriormente, romances, poemas, peças de teatro e até filmes, que serão materiais excelentes”, destacou Leung Hio Ming.

Questionado sobre o “tão grande valor” das “Chapas Sínicas”, o presidente do IC defendeu que uma das razões assenta no facto de, em toda a China, apenas duas cidades possuírem arquivos relacionados com subprefeituras e preservados na totalidade: Macau e uma localidade da Província de Sichuan. Além disso, os documentos são simbólicos de um período de 200 anos da Dinastia Qing.

Por outro lado, os Arquivos de Macau e da Torre do Tombo, em Portugal, vão organizar uma série de exposições sobre os documentos da subprefeituras na RAEM no próximo ano e em Lisboa, em 2019. Sobre esse projecto, a directora do Arquivo de Macau, Lau Fong, adiantou a este jornal que a exposição no território terá lugar em Julho e implicará gastos na ordem das 500 mil patacas.

Leung Hio Ming acrescentou que as mostras irão contar com documentos representativos, além de outros elementos relacionados com assuntos históricos, o que fará com que elas sejam mais “tridimensionais”.

 

A tarefa da digitalização

Actualmente, o Arquivo de Macau tem na sua posse mais de 50.000 documentos, o mais antigo do ano 1630, 70.000 imagens, incluindo fotografias, mapas e ilustrações, além de 10.000 livros, explicou a directora, que trabalha no arquivo há 28 anos.

Lau Fong acredita que a instituição que dirige desempenha uma importante função em termos da protecção da história e da cultura, além de que muitos documentos ali preservados têm um papel essencial na educação e divulgação cultural.

No entanto, esta área atravessa um desafio que decorre da crescente digitalização. “Antigamente usávamos microfilme mas agora precisamos de passar a recolher e tratar os documentos digitalmente, pelo que temos de formar pessoal”. “Os arquivos com veículos diferentes necessitam de técnicas de gestão, tratamento e protecção também distintas. Estes são desafios que vamos enfrentando”, salientou.

A instituição conta actualmente com 38 funcionários que trabalham na área dos arquivos correntes, históricos, na vertente da digitalização e na utilização das salas de leitura. Alguns são formados em História, outros na gestão de arquivos. Seja como for, todos têm de conhecer a história, informação e tecnologias, pelo que “muitos colegas têm de ter capacidades interdisciplinares”.

Sobre um eventual aumento da pressão colocada sobre os funcionários com o surgimento de novos desafios, Lau Fong destaca que “todos os trabalhos implicam stress”. “A pressão faz trabalhar melhor e cria motivação”, defendeu.

No que respeita à procura do público, a directora do Arquivo de Macau notou que muitas pessoas consultam os documentos sobre a sociedade, economia, progresso urbanístico e até o desenvolvimento costeiro do território. Quando se trata de instituições, tendem a dar mais importância à justiça, mudanças no ambiente social, catástrofes naturais e religião.

Segundo Lau Fong, o Arquivo adquiriu também documentos históricos sobre Macau no estrangeiro, incluindo alguns materiais encontrados em bibliotecas e arquivos de Portugal, em 1980. “Temos avançado com a digitalização de documentos disponibilizando materiais no site oficial, sendo que a maioria das coisas foi transformada em microfilme ou em formato digital. Agora, as pessoas podem consultar a maioria dos nossos documentos em casa ou fora de Macau”, sublinhou.

Lau Fong acredita que o Regulamento do Arquivo Histórico está adequado às condições actuais, porém, admite, ser preciso rever no futuro alguns pontos para melhor satisfazer a procura dos leitores e corresponder ao progresso dos tempos, da ciência e da tecnologia. “Vamos ouvir as opiniões do público e colaborar com o Governo”, assegurou a directora, salientando que o regulamento inclui, principalmente, indicações para a utilização dos materiais do Arquivo e das salas de leitura.

 

Mais divulgação

O presidente do IC considera que os cidadãos precisam de ter mais conhecimento do quão importantes são estes documentos, por isso, pretende reforçar a divulgação.

Apesar de reconhecer que o público ainda precisa de conhecer mais sobre a importância da colecção “Chapas Sínicas”, Leung Hio Ming, afirmou que, de facto, em 1989, a relevância destes documentos já tinha sido reconhecida pelo Arquivo Histórico, quando ainda estavam na Torre do Tombo, em Portugal. Naquele ano, o Arquivo Histórico enviou funcionários a Portugal para filmarem esses documentos e, em 1997, avançou com a catalogação dos arquivos em microfilme. Já em 1999, a Fundação Macau publicou um livro sobre a colecção das “Chapas Sínicas”, que teve grandes repercussões na cultura de Macau.

A importância do arquivo para os cidadãos por dois documentos que o integram, um deles sobre a Diocese de Macau, terem sido inscritas com sucesso no Registo da Memória do Mundo para a Ásia-Pacífico a nível regional. O êxito incentivou também a cooperação entre Macau e a Torre do Tombo, depois da colecção “Chapas Sínicas” ficar danificada.

Os trabalhos de reparação foram divididos em várias fases, tendo sido já concluídos as duas primeiras. Os documentos também já foram digitalizados.