Carlos Fraga e Helena Madeira estão este mês em Macau para as filmagens do sexto e último documentário da série “Macau, 20 anos depois”, focado na comunidade chinesa. Ambos fazem um balanço muito positivo da experiência na RAEM nos últimos quatro anos e asseguram que os projectos envolvendo o território não terminam por aqui
Inês Almeida
Depois de mostrarem a vida de chineses e macaenses em Portugal, Carlos Fraga e Helena Madeira passaram, nos últimos quatro anos, um mês no território para recolher imagens para documentários que têm como objectivo dar a conhecer a Macau dos dias de hoje, segundo o olhar dos vários elementos da complexa sociedade. Ao longo deste mês vão fazer as filmagens para o último documentário da série “Macau, 20 anos depois”, desta vez, focado na comunidade chinesa.
“Pensámos quase desde o início que para fechar este ciclo fazia sentido fazer um último programa em que entrevistávamos só chineses, para saber o que pensam sobre os portugueses, a influência que tiveram, o que acham deles e o que pensam que os portugueses pensam sobre eles, que também pode ter uma certa piada”, sublinhou Carlos Fraga à TRIBUNA DE MACAU.
O realizador indica que para o documentário “Uns e Outros: 20 anos depois” vão ser entrevistados “alguns nomes mais sonantes” embora a intenção ao longo da série tenha sido sempre seleccionar pessoas que “já toda a gente ouviu”. “Aqui também vai acontecer isso. Vai haver uma série de pessoas que não são conhecidas, que têm actividades normais, e depois algum nome assim mais sonante”.
Os contactos são feitos por Carlos Piteira, que tem sempre apoiado a execução desta série e conhece o território. “A maior parte são pessoas que ele conhece de actividades normais, não pessoas do conhecimento público, mas também haverá dois ou três nomes mais sonantes porque também é importante conhecer a opinião de alguém mais ligado à política também, para perceber como vêem os portugueses dessa perspectiva”.
Uma dessas pessoas será, “provavelmente”, o antigo presidente do Instituto Cultural, Guilherme Ung Vai Meng, “que é uma pessoa também muito ligada à arte e com alguma sensibilidade”. Todo o documentário será falado em cantonês, mesmo as entrevistas a pessoas que dominam a Língua Portuguesa.
Filipe Carvalho, em Macau para trabalhar num projecto seu, vai apoiar a produção do documentário. “Vai trabalhar connosco um rapaz que conhecemos em Portugal há vários anos, que trabalha no meio audiovisual, e lá tentámos trabalhar várias vezes juntos, mas nunca se deu o caso”, indicou Carlos Fraga referindo-se a Filipe Carvalho.
Com a série a chegar ao fim, Carlos Fraga reitera que a intenção foi sempre mostrar “o que se sente e vive hoje em dia, através dos testemunhos de pessoas”. “A intenção é fazer um possível retrato do que é Macau hoje e queremo-lo através das pessoas que entrevistamos, eles é que nos vão dizer o que sentem”. Terminada a produção deste filme, será criada uma longa-metragem “com alguns momentos dos seis e compilar isso em 90 minutos”.
Tanto esta longa-metragem como os seis documentários farão parte das comemorações dos 20 anos da criação da RAEM. “O objectivo é a série ser apresentada, em 2019, nas comemorações dos 20 anos da RAEM e mostrarmos o que as pessoas sentem e pensam em relação a Macau e à sociedade desde a transferência de soberania até agora e daqui a 20 anos fazemos outro, Macau, 40 anos depois”, disse Helena Madeira, que dirige a produtora “Livremeio” a par de Carlos Fraga, num tom jocoso.
O realizador complementou. “O que está previsto é uma projecção dos seis filmes na Cinemateca Paixão e depois um evento organizado pela Fundação Oriente em Lisboa, no qual se projectará a longa-metragem e provavelmente organizar-se um evento, não só a projecção. Mas, logo se vê com o que se pode complementar, se um debate ou uma actuação musical”.
Embora as datas ainda não sejam certas, a estreia da série completa na Cinemateca Paixão deverá acontecer em Abril do próximo ano e, depois, ”provavelmente” em Outubro, tanto o canal português como o canal chinês da Teledifusão de Macau irão transmitir todos os filmes. As comemorações em Portugal deverão acontecer num momento mais próximo da data da transferência de soberania, 20 de Dezembro.
Tempo de balanço
Carlos Fraga e Helena Madeira fazem um balanço muito positivo da passagem por Macau e asseguram que os projectos não ficam por aqui. “Nunca me passou pela cabeça vir a Macau. A Ásia nem sequer era uma parte do mundo que me chamasse muito a atenção. Viemos exclusivamente para recolher imagens para o primeiro documentário, os macaenses em Portugal, e era suposto fazer-se só esse documentário, porque veio na sequência de outro sobre os chineses em Lisboa e depois chegámos ao professor Carlos Piteira e aí começou a vontade de fazer documentários sobre Macau”, diz Helena Madeira.
Foi quando veio fazer as primeiras filmagens que ficou “completamente apaixonada” por Macau. “Ainda estou. É um lugar mágico, especial”, acrescentou.
Então, surgiu a vontade de mostrar “o outro lado da moeda”, isto é, os portugueses em Macau. “Ao virmos fazer o documentário sobre os portugueses em Macau conhecemos, entre outras pessoas, Amélia António e a Casa de Portugal em mais profundidade. Tive uma certa vontade de fazer um trabalho sobre a própria Amélia António, porque achei uma figura muito interessante, mas ela disse-nos imediatamente que não”, sugerindo antes um trabalho sobre a Casa de Portugal.
No entanto, falar sobre a Casa de Portugal apenas e não sobre as outras entidades que defendem a portugalidade em Macau não parecia justo, pelo que nasceu a intenção de fazer o documentário sobre a Lusofonia. Para o ciclo encerra, era preciso também o testemunho da comunidade chinesa. Porém, ainda havia algo em falta: o testemunho da comunidade macaense em Macau. Assim, a série passou a ser composta por seis documentários.
“O que senti em relação a Macau nestes 20 anos é que houve uma alteração ao nível da comunidade portuguesa, de pessoas que vieram para cá nos últimos anos e têm uma visão diferente de Macau das outras pessoas que estão cá há mais anos e têm uma certa nostalgia em relação à Macau de antigamente, e compreendo perfeitamente. Só de me falarem, eu própria sinto saudades dessa Macau que não conheci”, frisou Helena Madeira.
Quem chega hoje a Macau, “vem num contexto social de globalização que não tem nada a ver com o de há 30 ou 40 anos”. Hoje em dia, “vir para aqui, para a Califórnia ou qualquer outro sítio do mundo é normal, é natural”.
No meio da comunidade local, dos portugueses que chegaram antes da transferência de soberania, daqueles que estão cá há menos tempo e da comunidade chinesa, surge “um grupo de pessoas muito interessantes”: os macaenses. “É um grupo de pessoas que merece ser defendido porque é, efectivamente, a consequência humana da fusão do Oriente com o Ocidente. Há a gastronomia, a arquitectura, a cultura, mas em termos humanos, a fusão do Oriente com o Ocidente deu origem aos macaenses e eles devem ser defendidos, e às vezes não o são tanto quanto deviam, por terceiros”, sublinhou Helena Madeira.
Embora este documentário focado na comunidade chinesa encerre o ciclo sobre a realidade de Macau 20 anos depois da transferência de soberania, Carlos Fraga e Helena Madeira estão já a pensar em novos projectos focados em Macau, porém, preferem não adiantar mais detalhes. “Ficámos enamorados deste lugar. Acho que toda a gente que vem cá fica logo interessada em fazer mais coisas”, destacou o realizador.



