A funcionar desde 2010, o Laboratório de Referência do Estado em Circuitos Integrados em Muito Larga Escala Analógicos e Mistos está focado na produção de “chips” que permitem que empresas chinesas desenvolvam os seus próprios produtos “de forma criativa e inovadora, em competição com os Estados Unidos”. Rui Martins, director do laboratório, destaca que as prioridades para o futuro passam pela instalação do novo laboratório dedicado à Cidade Inteligente, cuja aprovação deverá chegar em Setembro, e por comercializar na China os produtos que estão a ser criados
Inês Almeida
O Laboratório de Referência do Estado em Circuitos Integrados em Muito Larga Escala Analógicos e Mistos está empenhado em colocar Macau no mapa através da criação “chips” que podem ser usados para diversos propósitos por empresas chinesas da área da tecnologia. A garantia é dada pelo director, que salienta também o facto da Universidade de Macau (UM) aguarda a aprovação da criação de um laboratório dedicado ao desenvolvimento da cidade inteligente.
“Metade do Laboratório de Referência do Estado funciona na UM, outra, na Universidade de Ciência e Tecnologia (UCTM), o meu é da parte electrónica. Depois, estamos à espera de aprovação por parte do Ministério de Ciência e Tecnologia da China e do Governo de Macau para um terceiro laboratório, na área da cidade inteligente. Deve saber-se em breve”, referiu Rui Martins, à TRIBUNA DE MACAU.
O Laboratório de Referência do Estado intitulado “Cidade Inteligente e Internet das Coisas” vai ter “investigação e algum desenvolvimento relacionado com esta área da cidade inteligente da internet das coisas, porque isso permite que haja dispositivos electrónicos que possibilitem várias coisas relacionadas com o turismo ou a poupança de energia, entre outras”. “Já foi feita a proposta e estamos à espera do resultado. Provavelmente, só lá para Setembro saberemos alguma coisa”, antevê Rui Martins. Na UCTM vai ser também criado um novo Laboratório de Estado dedicado às ciências da lua e dos planetas.
No que respeita ao laboratório que Rui Martins dirige, há alguns desenvolvimentos recentes ao nível dos ‘chips’ que ali são produzidos e “que são tecnologias de topo na área da electrónica e em que a UM é líder aqui nesta zona da China, Hong Kong e Macau, comparativamente a outras universidades”. Estes ‘chips’ são, de resto, um aparelho particularmente interessante para as empresas que se dedicam às novas tecnologias.
“Estamos a começar a transferir [as tecnologias] para as empresas chinesas, que estão na área circundante, nomeadamente Shenzhen e Zhuhai, o laboratório tem contratos com empresas para desenvolver circuitos para a nova geração de produtos que irão surgir na área das comunicações móveis, nomeadamente o aparecimento do 5G, no futuro”, destaca o também vice-reitor da UM.
A tecnologia deverá ser testada durantes os Jogos Olímpicos de Tóquio, agendados para 2020. “Os nossos contratos são principalmente ‘chips’ para a Huawei, na China, e para esses futuros telemóveis de nova geração”, revelou.
Grande parte dos “chips” foi apresentada nos Estados Unidos e resultou de trabalhos no âmbito do doutoramento de alunos do Laboratório, oriundos de Macau ou da China. “O Laboratório, desde que foi criado, já treinou cerca de 30 doutorandos que, depois de formados, foram para empresas nos Estados Unidos ou ficaram aqui como docentes ou estão agora também em empresas na China, portanto, faz parte da nossa formação a nível de pós-graduação, nomeadamente doutoramentos”. Além disso, o Laboratório colabora com empresas através de “contratos de consultadoria para desenvolverem os seus novos produtos”.
Mais capacidade para as empresas da China
Questionado sobre o impacto do desenvolvimento deste tipo de tecnologias, Rui Martins destaca que é uma questão de “dar capacidade às empresas chinesas para desenvolver os seus produtos de forma criativa e inovadora, em competição com os Estados Unidos pois, como se sabe, uma das maiores importações chinesas dos Estados Unidos é precisamente a electrónica”.
“Os telemóveis ou ‘ipads’ são todos feitos em Shenzhen ou aqui perto, mas a electrónica vem toda dos Estados Unidos, não é desenvolvida aqui. Com este desenvolvimento que aqui iniciámos, vai ser possível desenvolver esses próprios ‘chips’ na China, num determinado período de tempo”, indica o director do Laboratório, ressalvando que “não é uma questão de tentar cortar nas importações mas sim de desenvolver esse ‘know-how’ na China que, depois, terá isso como consequência”.
Rui Martins anunciou ainda que estão a começar alguns “spin-offs”, empresas “start-up” com alguns dos doutorados dos laboratórios. “Para elas terem sucesso, têm de aparecer aqui ao lado, na China, porque é onde está o mercado que permite a comercialização e a sobrevivência dessas empresas. Macau é um território muito pequeno para que isso se desenvolva aqui. Aqui podemos desenvolver este ‘know-how’, mas a comercialização tem de ser feita na China”.
O orçamento anual do Laboratório de Referência do Estado em Circuitos Integrados em Muito Larga Escala Analógicos e Mistos é de aproximadamente 10 milhões de patacas, um valor que, de momento, “é suficiente”, assegura o director. “Se quisermos aumentar a dimensão será necessário aumentar o investimento, mas neste momento é bom”.
Questionado sobre projectos futuros, Rui Martins referiu que, no início, a preocupação era criar infra-estruturas “quer de pessoas, quer de instalações e equipamentos”. Posteriormente, “foi começar a tentar obter resultados a nível internacional, o que já conseguimos”. “Esta terceira fase é para tentar comercializar estes resultados para as empresas chinesas, que faz parte da estratégia de um Laboratório de Estado”.
Todos os dias aparecem novos projectos. “Há empresas chinesas em colaboração connosco em projectos que já estão a decorrer e outros que ainda se vão iniciar. São projectos que estão relacionados com as necessidades que as empresas têm em termos de circuitos nesta área”, frisou o director.
Actualmente a colaboração foca-se nas empresas de regiões próximas de Macau. “As principais empresas chinesas na área da electrónica estão aqui em Shenzhen e em Zhuhai, portanto, só trabalhamos neste momento com as empresas de topo chinesas que estão aqui à volta”.



