A antropóloga Marisa Gaspar está de regresso para efectuar trabalho de campo que irá dar corpo a mais um projecto de investigação associado a Macau, nomeadamente sobre a economia da cultura na qual se enquadra a inclusão na Rede das Cidades Criativas na categoria gastronómica. Com vários anos de contacto com a comunidade macaense, Marisa Gaspar entende que marcadores identitários como o Patuá e a Gastronomia estão naturalmente a perder a sua forma original com o passar dos anos e, apesar desta comunidade ser um exemplo de que a “identidade é e tem de ser muito adaptável”, a verdade é que “algumas pessoas” da comunidade “continuam a ser muito resistentes a essas alterações”
Catarina Almeida
Comer e Poder: A economia da cultura em Macau é o mais recente projecto de Marisa Gaspar, antropóloga e investigadora de Pós-Doutoramento no SOCIUS/GCS – Investigação em Ciências Sociais e Gestão do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade de Lisboa. A investigação é financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia sendo o segundo projecto depois da tese do Doutoramento (2013) no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) sobre a memória, identidade e ambivalência na comunidade euroasiática macaense, que foi publicada em livro em 2015.
No entanto, essa curiosidade pela comunidade é anterior ao doutoramento, começou há mais de uma década, depois de ter abraçado um estágio no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa. Foi esta oportunidade, associada ao “pouco conhecimento que tinha sobre Macau”, que despoletou os já longos anos de relacionamento com o território e as suas gentes. “A partir daí [do estágio] comecei a conhecer um mundo novo e tive o privilégio de conhecer o Henrique de Senna Fernandes. Passei longas horas em casa dele, no Lumiar, a ouvi-lo contar histórias sobre os macaenses e fiquei completamente fascinada”, recordou Marisa Gaspar, em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
Cinco anos passados desde a última visita, Marisa Gaspar ficará no território até Dezembro para dar seguimento ao trabalho de campo deste novo projecto relacionado com “políticas públicas de turismo e de património associadas a este estudo de caso da cidade da gastronomia”. “Interessa-me muito o tipo de etnografia institucional, ou seja, como é que as organizações funcionam em termos internos e porque foi lançada ‘agora’ a candidatura, com que objectivos, de que forma a promoção de Macau em torno da gastronomia está a ser feita, qual o seu papel em Macau no contexto da Grande Baía, de Uma Faixa, Uma Rota, a ligação à Europa e aos países de Língua Portuguesa”, explicou.
O turismo gastronómico servirá como ponto de partida associado à entrada na Rede de Cidades Criativas da UNESCO. “A gastronomia é um factor identitário fortíssimo para a comunidade macaense. Apesar de ser Património Imaterial, é muito material. As pessoas dizem que são como aquela comida, porque também [são o resultado] de todas aquelas influências ao longo dos séculos. São a mistura que depois deu em qualquer coisa de único, que só existe aqui e que Macau também bem representa”, vincou.
Tendo em conta as observações feitas através da presença – ainda hoje “assídua” – em eventos macaenses, Marisa Gaspar pretende focar-se noutra vertente mas que se mantém ligada à comunidade e sua gastronomia que terá inclusivamente “aberto a porta para a UNESCO”.
Estudo de caso de adaptabilidade
Apesar da importância evidente da gastronomia e cultura macaense para o território – inclusive para a forma como se vende ao exterior – Marisa Gaspar acredita que “Macau é sempre um pouco faz de conta entre aquilo que é promovido porque quando estamos cá é outra [coisa]”. “Acredito que a gastronomia macaense continua a ter um peso especial. Foi aqui inventada, é de cá, e tem de ser diferente das outras e de ter esse peso. Mas, se acho que está a ser destacada do resto? Provavelmente não”, referiu.
Não obstante, admite que deve ser encarado com naturalidade o facto destes símbolos culturais e identitários sofrerem mudanças entre as várias gerações. “Macau cresce, as pessoas vêm para comer e procuram uma coisa diferente porque se fosse só para comer a comida cantonense não vinham cá! Se vêm é porque há uma oferta diferente do resto e isso torna Macau diferente do resto das cidades. […] Para mim isso não me faz espécie mas para os macaenses as coisas são diferentes”, disse.
“É natural que defendam o património deles e que se sintam filhos bastardos quando deviam ser reconhecidos como os verdadeiros e originais. Mas, os macaenses são um estudo de caso que nos mostra como de facto isto da identidade é e tem de ser muito adaptável. Não se pode estar à espera que as novas gerações falem Português. Têm mais é de falar Mandarim. E se não se adaptarem, aí sim podem desaparecer”, argumentou.
Contudo, “o problema com os macaenses é também perceberem que chega de ficar agarrado à procura de uma definição para ser macaense, para a comida, temos de dizer que é ‘isto’ e se não entrar… já não é [macaense]. Não é consensual entre eles o que é ser macaense porque é uma definição tão ampla e tão pessoal que é difícil mas que, ao mesmo tempo, também é fascinante”, afirmou, notando que “algumas pessoas [ou parte] da comunidade continuam a ser muito resistentes a essas alterações, e a resistência vai um bocado por aí porque é preciso saber o que é a comida macaense, definir muito bem e só a partir daí começar a fazer, por exemplo, a recolha das receitas”.
Por outras palavras, “as coisas não ficam congeladas no tempo, seja uma língua, uma culinária, o que for… e as pessoas têm dificuldade de perceber e abrir mão disso. Se o Patuá hoje em dia tem termos do Cantonense foi porque a língua evoluiu. Também já não falamos o Português arcaico. […] Com a cozinha é a mesma coisa. Os ingredientes que se usavam até já nem existem, portanto, é natural que se modernize e que se faça de outra maneira”.
Logo, é preciso perceber que “é possível ser macaense de muitas e variadas formas assim como é possível haver comida de Macau de muitas e variadas formas. É verdade que a comida tradicional macaense é aquela mas obviamente que também desapareceu porque […] era feita para banquetes, quando Macau era uma aldeia e havia famílias que recebiam imensa gente a toda a hora. Essa realidade desapareceu”.
Ainda assim, Marisa Gaspar reconhece que “a comunidade queixa-se com razão” no sentido em que “Macau está muito associado com a comida” mas vai um longo caminho até haver “divulgação suficientemente bem feita para as pessoas percebem que efectivamente há qualquer coisa de diferente em Macau”.
Esta semana, a antropóloga proferiu uma palestrou na Universidade de Macau sobre a (re)invenção cultural dos macaenses explorando os vários símbolos desta cultura.




