O Festival de Gastronomia e Vinhos de Portugal conta com a experiência da “chef” algarvia Noélia Jerónimo, que oferece um menu de degustação de pratos tradicionais portugueses à mesa do Clube Militar, até ao dia 28 deste mês
Salomé Fernandes
A primeira coisa que Noélia Jerónimo fez à chegada a Macau foi dirigir-se ao mercado, ainda não eram 07:00 da manhã. A inactividade matinal forçou-a a voltar mais tarde. “Fui a dois mercados e achei extremamente interessante, completamente diferente do nosso, claro. O cheiro no mercado do peixe é um pouco forte para nós, portugueses, mas estou habituada a viajar, já visitei outros mercados por este mundo fora e é normalíssimo acontecer”, descreveu. A cozinheira encontra-se no território para dirigir o Festival de Gastronomia e Vinhos de Portugal, que decorre até domingo, a convite do Clube Militar.
Noélia Jerónimo, que gosta de fazer férias gastronómicas, nunca tinha estado na Ásia. Apesar de vir em trabalho, está a ter oportunidade de contactar com uma realidade diferente. Habituada a trabalhar com produtos vindos directamente do mar no seu restaurante no Algarve, sentiu uma diferença substancial ao trabalhar com o peixe vendido em Macau, por ser “completamente diferente, os aromas, os sabores, tudo”. “Sairmos de casa é sempre uma mais valia. E quando temos a possibilidade de trazermos coisas novas para o nosso menu das viagens que fazemos é muito produtivo”, referiu.
Um prato novo lançado na ementa em substituição da açorda de perdiz, que teve de ficar de parte por falta de produtos, é o arroz de pombo. “É um dos melhores pratos que temos na ementa. O arroz de pombo nasceu aqui no mercado porque havia imensas ervilhas e uns rebentos de ervilha fantásticos que lá não se vendem. Nunca tinha visto na minha vida, e pensei em mudar, já que não havia perdiz”, contou a “chef”. Considerada por alguns como “a mulher do peixe”, pelo menu que oferece em Portugal, pondera levar este prato de ave consigo, lamentando apenas não encontrar as mesmas qualidades de ervilhas no Algarve.
“É realmente uma cultura completamente diferente da nossa. É uma cidade muito bonita, mas é de cimento. Aqui perdemos um bocadinho a natureza, e eu sou muito ligada ao mar e ver a ria na frente”, comentou.
De destaque, oferece também no menu um tártaro de carabineiro do Algarve, arroz de limão com garoupa e ameijoas e arroz de lavagante.
Já o polvo veio congelado – uma exceção por força da necessidade – e é feito no forno. “Os meus produtos no Algarve são todos frescos. Aqui há uma ou outra coisa que obrigatoriamente têm de ser [congeladas], não há outra hipótese. Depois têm muita carne, e os sabores são diferentes dos nossos”, reconheceu.
O doce dos limões foi uma das surpresas na descoberta destas diferenças. “Não estava à espera, pensei que o limão fosse limão em qualquer parte do mundo”, partilhou Noélia Jerónimo.
Neste processo de descoberta, a vinda a Macau tem sido para si uma “aprendizagem de vida”. “Todos os dias temos um menu diferente e já percebi que quero ser mais eu. Quero que as pessoas realmente venham por mim, e só por mim”, revelou, indicando esperar que a adesão seja maioritariamente de portugueses.
A “chef”, que considera que “no futuro o tradicional muito bem feito cada vez mais terá valor” planeia apresentar no Clube Militar um menu de degustação com pratos tradicionais em porções mais pequenas.
Consigo trouxe Maria da Conceição, amiga que a acompanha em viagens de trabalho e que está habituada a ajudá-laA vinda não foi fácil, com a sua ausência no restaurante do Algarve a afectar também o número de clientes do estabelecimento. A cozinheira acredita que “devemos estar presentes no nosso espaço”, motivo que a leva também não querer abrir outros restaurantes para deixar outros a gerir o seu funcionamento regular. Para si, isso “é como ter um filho e só ser a escola a educá-lo”.
“Cada restaurante tem de ter uma alma, que faça com que o restaurante cresça e as pessoas se sintam bem”, descreveu.



