Abalados por relatos denunciando trocas de pontos por dinheiro em vários centros de videojogos, estes espaços de entretenimento elevaram o nível de sentinela. Apesar de não ter detectado pessoas a prestarem serviços semelhantes aos dos “junkets”, o Jornal TRIBUNA DE MACAU encontrou um ambiente pesado, de controlo e com várias restrições. Para os jogadores ferrenhos, a “Pesca” não serve para dar lucro, mas aparentemente exige o mesmo nível de combatividade que um jogo a dinheiro. Em geral, em torno dessas máquinas, impera um clima de hostilidade: empregadas vigiam não só o jogo como os movimentos de pessoas desconhecidas e as próprias mesas são alvo de segurança especial. Um centro de videojogos afixou um aviso de proibição de troca de pontos por dinheiro, mas incentiva o câmbio por telemóveis

 

Rima Cui

 

Jogo da “Pesca” é muito popular entre idosos

Recentes casos de centros de videojogos suspeitos de prestarem serviços semelhantes aos oferecidos pelos “junkets” nos casinos relançaram o debate sobre a actividade desses espaços de diversão. Mais especificamente, segundo relatos divulgados na imprensa em língua chinesa, estará em causa o facto de pontos ganhos pelos jogadores nas máquinas poderem ser alegadamente trocados por dinheiro. O Jornal TRIBUNA DE MACAU visitou dois desses centros, onde constatou um notório aumento do grau de vigilância. Ainda assim, o ambiente mais controlado não parece afectar os fãs, maioritariamente idosos, que continuam a aderir ao jogo da “Pesca”, de forma muito animada, por vezes, quase até à loucura.

Num centro de jogos situado na zona central da cidade, um grupo de idosos concentrava-se à volta de duas mesas electrónicas do jogo da “Pesca”, encontrando-se, em cima delas, sacos com fichas, alguns cheios até ao topo.

Entre gritos e expressões como “ataca-os” (aos peixes) ou “dispara o canhão”, os idosos colocam as moedas na ranhura das máquinas tão depressa quanto os pássaros bicam o milho. A concentração dos jogadores é garantida pela vigilância de duas empregadas, responsáveis pela troca de dinheiro por fichas, e até de uma funcionária da segurança, alta e encorpada, que vagueava em redor das mesas.

Apesar de estarem a ganhar pontos, os jogadores não perdem de vista a zona da entrada, preparados para detectar intrusos, pessoas que possam estar interessadas no jogo e querem ver como funciona, mas não pertencem ao grupo já conhecido.

Quando viu um telemóvel a ser retirado do bolso, uma empregada avisou imediatamente os idosos em cochicho. Depois de receberem a mensagem, os jogadores enfureceram rapidamente e começaram a avisar repetidamente que não era permitido fotografar ou filmar, ameaçando inclusive chamar a polícia.

A informação também chegou à segurança do local, que reforço o tom de alerta: “Não se deve tirar fotografias aqui”, ou seja às mesas da “Pesca”. No entanto, apontou para outras zonas do centro de diversão, onde estão localizadas as máquinas de dança, tambores e basquetebol, e se pode fotografar. Essa diferenciação é um pouco estranha, porque em ambas as áreas há pessoas, mas só numa é proibido o registo de imagens.

Máquinas Pesca

Como que a justificar o nervosismo dos idosos relativamente às fotografias, uma senhora salientou que não quer ser vista pelo filho a jogar. “Se o meu filho souber que costumo jogar aqui, vai ralhar comigo”, confessou.

Ao contrário de episódios do passado, em que algumas pessoas surgiam neste tipo de estabelecimentos para tentar convencer os jogadores a trocarem os pontos e as fichas por dinheiro, agora não se registam situações desse género. Mas, mesmo assim, seria impossível não reparar em dois homens, que rondavam os idosos e, sem estarem a jogar, mantinham os olhares fixos no que se estava a passar. Atendendo à reacção dos jogadores e funcionários, serão indivíduos conhecidos no estabelecimento.

Neste centro não é visível qualquer aviso sobre a proibição de troca de fichas ou pontos das máquinas por dinheiro. Se conseguir “matar” um peixe com o canhão, o jogador pode ganhar 200 pontos, todavia, também perde os  pontos facilmente quando é atacado por um animal. Embora, aparentemente a “Pesca” não seja fácil e um jogador novo arrisca voltar a casa sem ganhar qualquer ponto, estes idosos têm “contas” que vão dos 6.700 até aos 18.000 pontos.

“Não podemos trocar os pontos que ganhámos no jogo por dinheiro. Mas, podemos guardar os pontos no cartão para jogar amanhã”, asseverou uma idosa, alegando que a “única motivação” é precisamente essa: “poder continuar a jogar amanhã”.

“Já não temos muitos dias para viver. Não podemos ficar em casa à espera da morte. Jogar aqui é tal e qual como jogar ‘mahjong’ e até é melhor”, salientou outra idosa.

Desengane-se quem pensar que, para comprar fichas, são usadas moedas ou notas de 10 ou 50 patacas. Os idosos trocaram várias notas laranjas, de 1.000 patacas, e uma mulher de meia-idade deu ainda uma verde de 500 patacas à empregada, que correu para lhe entregar um novo saco de “tesouros”.

Aviso indica que é proibido trocar pontos por dinheiro

A mulher de meia-idade estava acompanhada pelo filho, de sete ou oito anos, que relegou para um canto, sem lhe prestar atenção. Apesar da criança, que vestia um uniforme escolar, ter tentado convencer a mãe para irem embora, o pedido foi rejeitado de forma impaciente. O rapaz acabou mesmo por receber ordens para continuar a jogar noutras máquinas.

Muito desiludido, o rapaz voltou para uma máquina e para o resto do hambúrguer que comia sozinho.

 

Incentivo à troca de telemóvel

Já num centro de videojogos na Zona Norte, apesar de não haver um controlo apertado, foi colado um aviso no vidro do balcão de pagamento proibindo a troca de fichas ou pontos por dinheiro.

Para poderem jogar ali, os interessados têm de ter pontos num cartão especial, emitido pelo centro. O carregamento de 100 patacas corresponde a 220 pontos, 500 patacas valem 1.250 pontos e 1.000 equivalem a 2.500 pontos.

Centro também disponibiliza jogo com corridas de cavalos 

As condições para jogar à “Pesca” também constam num aviso colado à máquina: apostar um mínimo de 100 e um máximo de 1.000 pontos. No entanto, não há um limite de pontos para os utilizadores poderem dizer que ganharam o jogo.

Ainda que não seja permitida a troca por dinheiro, o centro disponibiliza várias escolhas para a troca dos pontos, como leite em pó, óleo, arroz e até telemóveis.

Segundo uma empregada, na realidade muitos dos produtos tecnicamente oferecidos já não estão disponíveis, restando apenas a oportunidade de troca de telemóvel. Aparelhos da “Samsung” e “Xiaomi” estão representados num cartaz, esclarecendo que os telemóveis podem ser trocados por um mínimo de 6.000 pontos e máximo de 25.000. Se a relação entre o dinheiro e os pontos funcionasse ao contrário, um telemóvel como prenda custaria no máximo 10.000 patacas.

A mesma funcionária revelou que, para conseguir trocar um telemóvel, o cliente precisa de gastar pelo menos 1.000 patacas no jogo. De qualquer forma, garantiu, o negócio da troca de pontos pelos telemóveis acontece frequentemente nesse estabelecimento.

O centro disponibiliza ainda uma mesa com bonecos a simular uma corrida de cavalos, onde se pode escolher o cavalo e o montante de fichas a apostar. Em comparação com a “Pesca”, este jogo é mais calmo e o utilizador pode apostar apenas com cinco pontos. O retorno também não é grande, não ultrapassando 600 pontos por ronda.

 

Chan Chak Mo rejeita ilegalidades no seu centro

Pelo menos um centro de videojogos incentiva a troca de pontos por telemóveis 

Chan Chak Mo, líder do grupo “Future Bright Holdings”, assegurou ser “impossível” e “proibido” registarem-se situações de trocas de moedas virtuais por dinheiro no centro de videojogos que a sua empresa explora nas imediações do Jardim de Camões. “No nosso centro, as moedas que ganham no jogo só podem ser trocadas por bilhetes, que podem ser usados para obter prendas no balcão”, afirmou, em declarações à TRIBUNA DE MACAU. O empresário e deputado explicou que se um cliente não conseguir jogar todas as moedas que comprou, poderá equacionar vendê-las a outros clientes por preços mais baixos, o que além de “não violar a lei, também é difícil ser controlado”. “Por exemplo, se comprar dois bilhetes para o cinema e combinar com um amigo mas ele não puder ir, posso vender o bilhete extra. Isto não é ilegal. Não podemos controlar os clientes”, sublinhou. Questionado sobre a proibição “parcial” de filmagens no centro de videojogos, Chan Chak Mo enfatizou que a companhia não adoptou essa regra. “Se alguém disse isto, quero saber quem foi, porque é totalmente permitido fotografar e filmar no centro”, frisou, defendendo que se trata, por exemplo, de uma boa forma de guardar recordações de momentos de convívio com filhos.

 

R.C.