O primeiro Centro Sino-lusófono 3D, situado nas Portas do Cerco, está quase ao abandono, depois de apenas três anos desde a inauguração. Depois de perder o estatuto de ponto turístico foi ocupado por lojas de telemóveis e de cosméticos. O fundador do centro, O Veng Keong, confessa-se desiludido por não ter conseguido atrair turistas, nem ter sido capaz de obter um lugar no Mapa Cultural e Criativo. Apesar disso, abriu uma fábrica de alimentos num edifício industrial, para quem sabe fazer renascer o centro 3D e criar uma “fábrica turística” focada em elementos sino-lusófonos
Rima Cui
Aproveitando o 15º aniversário da RAEM, em Dezembro de 2014, foi inaugurado na zona das Portas do Cerco, o primeiro Centro Sino-lusófono 3D de Macau, oferecendo aos turistas um local de diversão e de compras com base em elementos sino-lusófonos. No entanto, depois de três anos e meio, apesar do fluxo de pessoas na zona ser sempre grande, o centro está “às moscas”.
No website das Indústrias Culturais e Criativas, o centro surge como um local decorado com imagens com efeito 3D, mas que também vende peluches, alimentos e objectos de decoração com características únicas de Macau. Além disso, na altura, pretendia ser uma porta aberta para os produtos culturais e criativos que possuíssem “elementos caracterizadores do estabelecimento da amizade entre a China e Portugal”.
No entanto, uma visita ao local pela TRIBUNA DE MACAU mostra que quem afinal está a ocupar os espaços do centro não são marcas criativas, mas uma loja de telemóveis, outra de cosméticos e um armazém de sapatilhas, como os que existem nas Portas do Cerco, sendo que resta apenas uma pequena mesa e prateleira que pertencem à esfera temática do centro.
Guardando a porta do estabelecimento desde há três anos, está a mascote, o “Panda Babo”, vestido com traje tradicional português, e acompanhado por duas malas de viagem com o preço de 150 patacas cada. As paredes 3D já lá não estão, sendo visível apenas uma parede pintada a imitar azulejos. A prateleira de lembranças não abrange produtos ligados a elementos portugueses, sendo que apenas saltam à vista modelos da estátua de Flor de Lótus, embalados com sacos plásticos cheios de pó e peluches de pandas em caixas, algumas das quais já danificadas. Apesar de tudo, o placard de publicidade do centro, continua a exercer a sua função.
A ideia inicial era aproveitar o elevado fluxo de pessoas nas Portas do Cerco para atrair turistas, assim como ajudar a promover a cultura tradicional dos bairros antigos da zona Norte. Contudo, a realidade está longe da teoria. O fundador do centro vê os turistas a “fugir da zona” rapidamente para entrarem de imediato nos “shuttle bus” dos casinos. Este facto é na sua opinião, o principal motivo para a difícil operação do centro.
“Como fizemos muita publicidade nos canais de televisão e jornais de Zhuhai, no início ainda conseguimos atrair centenas de visitantes por dia, mas a partir do meio ano, as visitas começaram a decair”, lamentou O Veng Keong a este jornal.
Na sua opinião, o Governo costuma “dar muito a quem já tem, mas não ajuda muito quem está no início das operações” da indústria cultural e criativa.
A empresa cultural e criativa de O Veng Keong é constituída por participações locais e do exteriore, sendo que menos de 52% das acções estão na posse de investidores locais, o que a seu ver apresenta desvantagens.
Em vez de pedir apoio financeiro ao Executivo, o empresário preferia que o centro estivesse incluído no Mapa Cultural e Criativo de Macau, mas tal pedido foi rejeitado pelo Fundo das Indústrias Culturais (FIC).
Como um membro do FIC também tem uma marca com pandas, o empresário considera que o fundo rejeitou a sua candidatura por não poder existir repetição de conceitos no percurso para os turistas. O Veng Keong lamentou que as suas ideias para projectos de visita a serem incluídos no mapa cultural e criativo tenham sido todos ignorados.
O empresário atribuiu ainda as dificuldades de operação do centro ao facto que, depois da abertura do centro, terem surgido vários projectos ligados ao 3D, nomeadamente em casinos.
Fábrica de bolachas para turista ver
O ditado diz que quando se fecha uma porta, abre-se uma janela, no entanto a “janela” que O Veng Keong encontrou, também apresenta dificuldades.
Depois de dois anos de reflexão, o empresário percebeu que não ia conseguir suportar uma renda alta para uma loja da zona Central, onde as indústrias cultural e criativa têm um melhor ambiente de sobrevivência e, por isso, resolveu abrir há um ano uma fábrica de lembranças alimentícias, num edifício industrial situado nas Portas do Cerco.
Desta vez, a figura do panda passou para segundo plano, tendo sido criada uma nova figura com a Deusa A-Má, cujas fases de crescimento estão representadas nas embalagens das lembranças da fábrica, principalmente bolachas.
No centro 3D, o empresário investiu cinco milhões de patacas, mas acabou com prejuízo e colocou três milhões adicionais na fábrica com o objectivo de criar uma “fábrica turística” onde os visitantes podessem assistir ao processo de fabrico das lembranças, provar os alimentos e fazer compras, mas também participar em workshops. Porém, para concretizar este sonho, o empresário ainda precisa de esperar até que a lei que proíbe essas actividades nos edifícios indústrias seja alterada.
Com um ano de rendas “pagas em vão”, O Veng Keong revelou que está a negociar com aeroportos e terminais marítimos para poder introduzir os seus produtos nesses locais. “Os Serviços de Economia disseram que a nossa fábrica é a mais bonita de Macau do género, depois de a visitar”, sublinhou.
Sobre porque é que mantém o Centro Sino-lusófono 3D aberto, apesar dos maus resultados financeiros, O Veng Keo explicou que começa a ver a uma certa diminuição da concorrência, porque alguns centros do género começaram as fechar portas. Nesse sentido, adiantou que, quando chegar a certa altura, irá revitalizar o centro, inserindo novas funções.
O empresário que começou os negócios em Zhuhai assegurou que vai “continuar a apostar nos elementos portugueses”, sobretudo na decoração, que sua perspectiva é essencial, tendo em conta que hoje em dia existem cada vez menos elementos portugueses na cidade.
Na Fábrica de Alimentos e Bebidas Duty, localizada no 4º lugar do Edifício Industrial Cidade Nova, a parede está pintada de branco e azul, recordando azulejos, e decorada com fotografias antigas de Macau e utensílios de confecção de sobremesas tradicionais. Numa prateleira, vêem-se embalagens das bolachas cujo design é a combinação entre o cartoon da Deusa A-Má e azulejos.
De acordo com informações do Gabinete de Comunicação Social, O Veng Keong é presidente da Companhia de Criatividade Cultural Locomotiva, cuja principal actividade consiste na produção de produtos culturais e criativos e lembranças alimentícias do “Panda Babo”, cuja marca já se encontra registada junto da Direcção dos Serviços de Economia. Há cerca de 20 anos, O Veng Keong estabeleceu uma empresa em Macau, de modo a poder comercializar para o estrangeiro, os artigos culturais e criativos produzidos pela sua fábrica na China Continental.



