No fim-de-semana de 10 e 11 de Novembro, 50 edifícios de Macau estarão de portas abertas para a população por ocasião do “Open House Macau”. Nuno Soares, director do CURB, entidade organizadora, destaca que o objectivo é levar as pessoas a celebrar a arquitectura do território

 

Inês Almeida

 

Entre os dias 10 e 11 de Novembro, 50 edifícios de Macau vão ganhar uma nova vida com o território a ser palco, pela primeira vez, do evento internacional “Open House”. A promoção do evento na RAEM começa a ter um programa que está longe de estar fechado mas tem já um objectivo definido: dar a conhecer à comunidade a arquitectura local.

Isso vai acontecer, nomeadamente, através de três tipos de visitas: livres, guiadas por voluntários ou por especialistas. “Esses especialistas vão ser pessoas que conhecem os edifícios, serão muitas vezes, arquitectos ou historiadores, pessoas que têm um conhecimento a fundo sobre os edifícios. Estamos num território que é relativamente pequeno, portanto, não há assim uma quantidade enorme de pessoas”, apontou à TRIBUNA DE MACAU o director do CURB, entidade organizadora do “Macau Open House”.

Inicialmente, a organização tinha uma lista de 120 edifícios, posteriormente cortada para 70 e está aberta “às sugestões da comunidade”. A equipa também ainda não está fechada. “Temos uma equipa que já tem alguma dimensão. Já somos perto de 20 pessoas, mas precisamos de ser muitos mais, queremos isso, que a comunidade participe, que sinta que também é um projecto dela, que nos envolve a todos. É um projecto para celebrar a arquitectura de Macau que não pertence a ninguém, pertence a todos nós, cidadãos de Macau”, destacou Nuno Soares.

“Ao irmos a estes edifícios e ao falarmos de arquitectura com as pessoas que vivem nesses edifícios, com as que os desenharam ou estudaram, estamos a passar esta semente de entusiasmo pelo espaço construído ao público”, acredita o arquitecto.

Questionado sobre o eventual impacto de um evento que se foca na preservação da boa arquitectura num local como Macau onde o tema da preservação de edifícios é tema recorrente, Nuno Soares aponta que esta não é uma realidade apenas na RAEM. “Quando dizemos que o ‘Open House’ não existe na Ásia, apenas na Europa e nos Estados Unidos, é porque não é só em Macau mas na Ásia que não há esta cultura de Património”. Assim, “a situação em Macau não é tão anómala regionalmente”.

Nesse sentido, sustentou Nuno Soares, “a ideia é que as pessoas comecem a celebrar e a valorizar mais a arquitectura que têm”. “O melhor é irmos aos melhores exemplos. É difícil dizer que a arquitectura é importante e que melhora a qualidade de vida das pessoas quando estamos num edifício mau, ou num espaço que é desqualificado. É difícil convencê-las disso”.

Pelo contrário, “se entrarem num espaço que é brilhante, se acharem que o espaço é lindíssimo e quiserem descobrir mais, se ficarem fascinadas, percebem o que a arquitectura pode fazer na vida delas e é esta semente que queremos”. E Macau é um sítio com perto de 500 anos de história urbana. “Temos arquitectura chinesa vernacular, arquitectura do período português, arte déco, modernismo, arquitectura contemporânea, temos muitos momentos em que temos edifícios muito específicos de Macau e que são o resultado desta circunstância estranha de duas culturas que existem no mesmo sítio”.

 

Edifícios brilhantes

Embora ainda não estejam escolhidos os 50 edifícios que estarão abertos ao público, na sessão de apresentação do evento, Nuno Soares referiu a Escola Portuguesa de Macau (EPM), a Ponte-Cais nº11 e a Ponte-Cais nº 8, além de alguns pátios como locais que pretende abrir à comunidade.

“A EPM é um edifício modernista brilhante, é lindíssimo, foi feito pelo arquitecto Chorão Ramalho, que incorporou as influências de outros locais onde esteve antes e lidou com a arquitectura de Macau. É um edifício extremamente culto, e como este há vários. É este entusiasmo que queremos passar, visitando os edifícios por dentro. Uma coisa é falar, mostrar num livro, outra é estar a falar do edifício lá dentro”, frisou Nuno Soares.

Do mesmo modo, “a população em geral talvez não seja sensível a um discurso disciplinar e hermético sobre a importância de um edifício na história da arquitectura de Macau mas de certeza que se vai sentir sensibilizada quando entrar no edifício, vir as histórias que aquelas paredes encerram e que está num espaço especial”.

Nuno Soares aponta ainda: “Nós, arquitectos, quando fazemos arquitectura, não a fazemos para nós, estamos a fazer para os cidadãos de Macau”. Este evento é, por isso, “um pretexto para eleger, na arquitectura de Macau, os elementos significantes, os edifícios que são especiais, e vamos tentar abrir a porta”.

Para isso, é necessário convencer os proprietários, porém, o arquitecto está optimista nesse campo. “É bom para eles [proprietários] porque estão a ser generosos com a comunidade, é bom para a comunidade porque está a aprender uma coisa que normalmente não pode ver, é bom para todos”. “Esta é a nossa cidade e ela é feita destes edifícios. Estamos numa cidade que é muito densa e rica do ponto de vista da arquitectura e é isso que vamos conseguir ver no ‘Open House’”, concluiu Nuno Soares.