A Diocese de Macau contestou o espectáculo de “vídeo mapping” nas Ruínas de São Paulo por ocasião das celebrações do aniversário da República Popular da China apontando que, uma vez que a fachada “representa a profunda e duradoura herança católica em Macau”, iniciativas deste género devem estar relacionadas com “o contexto religioso” do monumento. Garantindo respeitar essa posição, o Secretário Alexis Tam prometeu reforçar a comunicação com a Diocese e outras entidades. A possibilidade de diálogo pode levar a que no futuro o conteúdo destes espectáculos seja “discutido e ajustado”, admitiu a Direcção dos Serviços de Turismo a este jornal. O Padre Luís Sequeira diz compreender algum questionamento por parte da comunidade cristã e frisa que não faz sentido “proclamar uma realidade que é marxista, sem Deus, numa fachada em que se afirma a presença de Deus”

 

Inês Almeida e Salomé Fernandes

 

O espectáculo de “vídeo mapping” nas Ruínas de São Paulo, integrado no programa comemorativo do 70º aniversário da República Popular da China mereceu críticas por parte da Diocese de Macau, que destacou o facto de aquele monumento não ser apenas “uma marca icónica da cidade” mas também “rico em significado histórico e religioso”.

“Embora a fachada já não seja propriedade da Igreja, continua a ser um símbolo da Fé Católica em Macau. Fiéis de diferentes nacionalidades têm sentimentos profundos em relação a ela e um sentimento de identidade”, sublinhou a Diocese.

Nesse sentido, segundo indica um comunicado assinado pelo Reverendo Cyril Jerome Law Jr., “o espectáculo em questão evocou reacções de descontentamento de um grande número de fiéis de diferentes nacionalidades, uma vez que se considera que o uso de monumentos históricos deve corresponder ao seu carácter”.

“Tendo em conta que a fachada de São Paulo representa a profunda e duradoura herança católica em Macau a Diocese propõe que, caso haja novos ‘espectáculos’ no futuro, o conteúdo deve estar relacionado com o contexto religioso do monumento em causa”, defende a Diocese.

Além disso, a Diocese garante estar disposta a dialogar com as “entidades relevantes” no esforço comum “de preservar e promover os preciosos monumentos históricos de Macau”.

Questionado sobre o tema, o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura não considerou haver qualquer problema associado ao caso, dado estes espectáculos terem já sido realizados cinco anos consecutivos. No entanto, admite maior contacto com a Diocese e outras associações no futuro, afirmando “respeitar muito” a declaração da Diocese. “O importante é a tolerância cultural. Por isso, penso que podemos falar, comunicar mais vezes”, comentou Alexis Tam, à margem de uma iniciativa dos Serviços de Saúde.

“Os Serviços de Turismo nunca pensaram que iam insultar nenhuma associação ou entidade”, declarou. O objectivo era celebrar os 70 anos da implantação da República Popular da China e o aniversário do estabelecimento da RAEM. “Não temos nada contra a Diocese”, disse o Secretário, insistindo que “era só para festejar”. “No fim, é para mostrar ao povo chinês, porque este ‘mapping’ passa pela China toda, não apenas para turistas de Macau”.

Em resposta ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) disse estar a par da situação e mostrou-se também disponível “a dialogar com as entidades relacionadas, incluindo a Diocese de Macau, para que no futuro quando estiverem planeados espectáculos de ‘video mapping’ para as Ruínas de São Paulo ou outra localização, o seu conteúdo possa ser discutido e ajustado”.

A DST notou igualmente que nos últimos anos foram realizados espectáculos em diferentes locais, tais como a fachada das Ruínas de São Paulo, associadas a temas variados, algo “bem recebido tanto por residentes e visitantes”. “Desta vez, o espectáculo de ‘video mapping’ era em celebração do 70º aniversário da implantação da República Popular da China, daí o tema, enredo e imagens relacionadas, que se adequam à ocasião”.

 

Um espectáculo “bastante político”

Durante o espectáculo de “vídeo mapping”, as Ruínas de São Paulo foram invadidas por tons vermelhos, com a projecção de várias imagens de símbolos da República Popular da China.

Luís Sequeira fala de um espectáculo “bastante político no seu conteúdo”. “De facto, mal houve esse espectáculo, pessoas dentro da comunidade questionaram um bocadinho o facto de o espectáculo feito nada ter ou muito pouco ter a ver com a celebração de um país, mas é de carácter nitidamente político”, apontou o padre em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

“Parece quase contraditório proclamar uma realidade que é marxista sem Deus, numa fachada que afirma a presença de Deus. Há aqui uma problemática de fundo que me parece justificar algum questionar da gente da comunidade e, neste caso, alguém com autoridade, no contexto da Diocese”, defendeu.

Questionado sobre se o monumento perde identidade com espectáculos desta natureza, Luís Sequeira revelou-se assertivo. “Não perde identidade porque a identidade cristã ou a fé vai além do edifício, mas o edifício em si é uma afirmação de uma comunidade ou de um povo que acredita em Deus. Quando isso é utilizado, diria, em termos genéricos, para afirmação de uma realidade que é exactamente o oposto, faz pensar”.

O padre traçou uma comparação com a estátua de figuras históricas que são alvo de graffiti. “Há estátuas de pessoas que têm lá graffitis e imediatamente as pessoas também sentem” que é uma certa “profanação”.

O Jornal TRIBUNA DE MACAU tentou ouvir outros membros da comunidade ligada à Igreja mas sem sucesso até ao fecho desta edição.