A suspensão do mandato de Sulu Sou continua a suscitar comentários muito distintos, entre críticas à Assembleia Legislativa e ao deputado. De uma forma geral, cidadãos ouvidos pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU entendem que o destino do deputado eleito mais jovem pode ser explicado como uma espécie de “segredo aberto” de Macau
Viviana Chan
A deliberação da Assembleia Legislativa (AL) no sentido de suspender o mandato de Sulu Sou está a motivar comentários distintos na sociedade. O Jornal TRIBUNA DE MACAU saiu à rua para ouvir o que pensam os cidadãos sobre este desfecho e a saída temporária do deputado do Hemiciclo. Na zona do Tap Seac, entre múltiplas opiniões, ouviam-se acusações de perseguição política, mas também houve quem defendesse a saída definitiva, isto é, a perda de mandato de Sulu Sou. Várias pessoas ouvidas recusaram ver o seu nome identificado e todas pediram para não ser fotografadas.
Para Lam Ion Fai, a suspensão do mandato era já previsível e evidente, reflectindo uma espécie de vingança. “É, sem dúvida, uma perseguição política. É um segredo aberto em Macau, as pessoas sabem o que foi e como foi, mas poucos são os cidadãos com coragem de expressar apoio ao deputado na rua”, disse o cidadão com 67 anos.
Na sua observação, este resultado não é surpreendente mas acredita que irá causar grande impacto junto da população mais jovem – uma faixa da população que irá estar sujeita a “mais pressão” e que, por isso, poderá tornar-se “mais rebelde”. “Isso é o que acontece com os meus filhos e netos”, referiu.
“Porque é que as partes não se sentam à mesa para ter um diálogo normal? Eles [os deputados da AL] estão a defender o seu futuro e estão nesta perseguição política para proteger os seus interesses. Arranjaram desculpas. Há mil desculpas que podem elaborar contra ele [Sulu Sou]. Se Sulu Sou não entrasse na AL, não teria o seu mandato suspenso”, analisou Lam Ion Fai.
Sulu Sou é, de resto, o primeiro deputado na história de Macau a ver o seu mandato suspenso, ainda que tenha havido um episódio semelhante em 1997, com o antigo deputado Chan Kai Kit. Todavia, nesse caso, a AL decidiu contra a suspensão do mandato.
“Os deputados que votaram a favor da suspensão fazem parte do grupo que representa os interesses de Macau e outros não, ainda que todos acabem por pertencem à mesma ala [pró-Governo]. Por isso, preferem fazer o que não irá prejudicar o colectivo”, acrescentou Lam Ion Fai.
“A AL funciona como uma só voz e, ao mesmo tempo, são muitas as associações que recebem dinheiro do Governo. Não gosto muito dessa situação. Se as associações se queixam de alguma coisa, o Governo cala-as com dinheiro. Toda a gente tem objectivos e, em parte, é egoísta. Ter dinheiro é bom. As pessoas que já ganham bem não vão apoiar Sulu Sou, sobretudo aquelas que representam os interesses [do Governo]”, destacou.
Nas mesmas declarações, Lam Ion Fai fez uma pequena referência ao imperador da China unificada, Qin Shi Huang: “É matar todos que têm uma opinião diferente”. No seu ponto de vista, por mais descontentamento que possa existir no seio da sociedade, Macau vai continuar a “manter o silêncio”, porque o Governo vai tirar quem se coloca à frente e contrarie.
Sanção deveria ter sido perda de mandato
Em contrapartida, uma cidadã que preferiu não ser identificada mostrou-se favorável à saída de Sulu Sou e até foi mais longe defendendo a perda total do mandato. “Ele violou a lei e conhecia as consequências. Se a polícia o mandou sair do local porque é que ele não saiu?”, questionou.
Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, a residente ser “muito bem feito” o facto da maioria da bancada da AL ter votado a favor da suspensão do mandato do deputado pró-democracia. Salientando que “Macau é uma sociedade de direito”, a residente acrescentou que “as pessoas não podem pensar que manifestar-se na qualidade de deputado é legal”. Contudo, recorde-se, na altura da manifestação Sulu Sou ainda não era deputado.
Perante esta decisão da AL, o deputado irá agora ser julgado pela prática de desobediência qualificada. Mediante o veredicto do tribunal, Sulu Sou poderá ou não perder, definitivamente, o seu mandato. Ainda assim, a residente defende que a actual “sanção não foi suficiente”. “Sulu Sou deveria mesmo ter perdido a qualidade de deputado”, defendeu.
Questionada sobre o caso da Universidade de Jinan que motivou o protesto, a entrevistada mostrou-se do lado dos manifestantes, contudo, criticou o facto de “não se ter prestado muita atenção às ordens da polícia”. “Matar uma pessoa é errado, pelo que também não se deve, como reacção, matar o respectivo assassino. Deve-se respeitar a lei”, destacou.
Por outro lado, a residente, com mais de 50 anos, diz “não ser grave” o facto dos manifestantes terem enviado aviões de papel para dentro da residência do Chefe do Executivo. Mas, “se for ilegal, não se deve fazer”.
Sulu Sou é considerado um ícone político entre as novas gerações de Macau, mas como acontece em todas as sociedades, muitas pessoas simplesmente ignoram assuntos relacionados com a esfera política.
Um jovem, de apelido Si, assumiu o seu desinteresse sobre a política de Macau, incluindo o caso Sulu Sou. “Isso é super normal em Macau”, reagiu, referindo que a AL não tolera quem tenha uma voz diferente. “Isso calhou a Sulu Sou, como poderia ter acontecido da mesma forma com outra pessoa”, comentou. Na sua análise, qualquer político deve prever as possíveis consequências no momento em que decide sair à rua em protesto.
A deliberação da AL sobre a suspensão do mandato de Sulu Sou foi oficializada ontem, no Boletim Oficial, com efeitos imediatos.
CPSP diz ter destacado agentes a pedido da AL
O Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) lamentou ontem que o trabalho dos seus agentes na Assembleia Legislativa (AL) tenha sido afectado por causa de Sulu Sou. Segundo a corporação, em causa está o facto de, depois do Plenário, o deputado ter questionado “de propósito os trabalhadores do CPSP que estavam no local, em serviço”. “Esse acto afectou o seu trabalho e lamentamos por isso”, realçou o CPSP, numa nota enviada aos órgãos de comunicação social, garantindo ainda que os agentes foram destacados para o local a “pedido da AL” para “manter a ordem no interior e exterior da AL”. Em reacção ao vídeo que está a circular nas redes sociais, o CPSP considera que Sulu Sou está a “criticar os trabalhadores da corporação”. Contudo, no vídeo, apenas se vê Sulu Sou a perguntar se os indivíduos em questão eram funcionários da AL ou agentes policiais, depois de ter reparado que estava a ser filmado enquanto respondia à comunicação social. Uma agente policial deixou o local sem responder à pergunta e os jornalistas aproximaram-se para questionar o outro agente sobre a sua identidade. Depois de várias perguntas, o agente à paisana admitiu ser da corporação mas negou ter filmado. O Jornal TRIBUNA DE MACAU questionou a AL sobre o motivo de ter solicitado o apoio de agentes à paisana, mas não obteve qualquer resposta até ao fecho desta edição.
Sónia Chan sem comentários
Questionada sobre a suspensão do mandato do deputado Sulu Sou, a Secretária para a Administração e Justiça preferiu não comentar. “É um trabalho feito de acordo com as atribuições da Assembleia Legislativa. Não tenho nada a comentar”, disse. Além disso, indicou que a marcação da data do julgamento do caso é da competência dos órgãos judiciais, não tendo o Governo informações sobre esta matéria. Para Sónia Chan, os órgãos judiciais, a AL e as autoridades policiais executam os seus trabalhos também em conformidade com a lei. Quanto a uma eventual revisão do Estatuto dos Deputados, a governante remeteu uma decisão para a AL por ser uma questão interna.



